Sobre a Guerra, a Criatividade e a Evolução

Vamos tentar entender a guerra: é quando um grupo de pessoas que vivem dentro de linhas imaginárias, juntam um monte de armas e entregam para uma parte delas, para evitar que outras pessoas que também têm armas, e que também vivem dentro de linhas imaginárias, invadam ou tomem pedaços das suas linhas imaginárias para pegar as coisas que estão dentro delas. Parece um pouco confuso, não é? É porquê é.

Obviamente, o governo de um país tem o direito e o dever de preservar o território pátrio e a identidade cultural do seu povo, mas é a interação entre os povos que cria condições para o crescimento econômico. No mundo de hoje, os estados soberanos não têm mais a necessidade de invadir outros territórios militarmente, pois as nações se desenvolvem comprando e vendendo, criando e interagindo. Sério, eu não entendo a motivação de alguns líderes de governo, parece até que eles esperam ir descendo de nível até retrocedermos à monarquia absolutista.

A partir de um ponto de vista lógico, entendemos que, assim como a política, a guerra é um reflexo dos seres humanos. Desse modo, percebemos o quanto os seres humanos precisam evoluir em moral e dignidade, mas também em intelecto e consciência. Estes últimos, atributos que definem essa raça como uma raça de seres criativos, e que definem a individualidade. Unindo esses dois pilares, aprendemos a respeitar a individualidade dos outros, e a nossa própria, compreendendo que a vida é construída através da união das individualidades. Conhecimento e interação proporcionam um campo fértil para a concretização da criatividade, para a fluidez e para o desenvolvimento. E na época que compartilhamos, o conhecimento está mais acessível do que nunca, e a interação pode acontecer entre distâncias enormes e em muito pouco tempo.

A ITU (International Telecommunication Union) estimou que, no final de 2013, 2,7 bilhões de pessoas estariam conectadas à internet, isto é, 39% da população mundial. Desse número, 1,19 bilhões estão no facebook. O selfie da Ellen DeGeneres no Oscar teve mais de 3 milhões de retweets em menos de um dia e, definitivamente, entrou para a história.

A interação pessoal e a troca de experiências culturais e científicas pela internet, representam uma revolução em termos de conhecimento e criatividade. E como eu li em um tweet da Creative Future esses dias, “a indústria da criatividade é a espinha dorsal da nossa cultura e economia”, e acrescento: da evolução individual e da evolução social. Essa é a hora de entender que está tudo conectado e que podemos usar todo esse potencial criativo a favor de uma vida melhor.

Publicado em Antropologia, Arte, Cinema, Cultura, Filosofia, Games, Literatura, Música, Psicologia, Quadrinhos | Deixe um comentário

Os Sonhos, os Ritos de Passagem e o Fio de Linho

”O inconsciente envia toda espécie de fantasias, seres estranhos, terrores e imagens ilusórias à mente – seja por meio dos sonhos, em plena luz do dia ou nos estados de demência; pois o reino humano abarca, por baixo do solo da pequena habitação, comparativamente corriqueira, que denominamos consciência, insuspeitadas cavernas de Aladim. Nelas há não apenas um tesouro, mas também perigosos gênios: as forças psicológicas inconvenientes ou objeto de nossa resistência, que não pensamos em integrar – ou não nos atrevemos a fazê-lo – à nossa vida. E essas forças podem permanecer insuspeitadas ou, por outro lado, alguma palavra casual, o odor de uma paisagem, o sabor de uma xícara de chá ou algo que vemos de relance pode tocar uma mola mágica, e eis que perigosos mensageiros começam a aparecer no cérebro. Esses mensageiros são perigosos porque ameaçam as bases seguras sobre as quais construímos nosso próprio ser ou família. Mas eles são, da mesma forma, diabolicamente fascinantes, pois trazem consigo chaves que abrem portas para todo o domínio da aventura, a um só tempo desejada e temida, da descoberta do eu. Destruição do mundo que construímos e no qual vivemos, assim como nossa própria destruição dentro dele; mas, em seguida, uma maravilhosa reconstrução, de uma vida mais segura, límpida, ampla e completamente humana – eis o encanto, a promessa e o terror desses perturbadores visitantes noturnos, vindos do reino mitológico que carregamos dentro de nós.

A psicanálise, a moderna ciência da interpretação dos sonhos, nos ensinou a ficar atentos com relação a essas imagens insubstanciais. Também nos ensinou a forma de deixá-las atuar. Permite-se que as perigosas crises do autodesenvolvimento se desenrolem sob o olhar protetor de um experiente iniciado na natureza e na linguagem dos sonhos, que desempenha a função e o papel de um antigo mistagogo, ou guia dos espíritos, o curandeiro iniciador dos primitivos santuários florestais, das provas e da iniciação. O médico é o moderno mestre do reino do mito, o guardião da sabedoria a respeito de todos os caminhos secretos e fórmulas poderosas. Seu papel equivale precisamente ao do Velho Sábio, presença constante nos mitos e contos de fadas, cujas palavras ajudam o herói nas provas e terrores da fantástica aventura. É ele que aparece e indica a brilhante espada mágica que matará o dragão-terror; ele conta sobre a noiva que espera e sobre o castelo dos mil tesouros, aplica o bálsamo curativo nas feridas quase fatais e, por fim, leva o conquistador de volta ao mundo da vida normal após a grande aventura na noite encantada.

Quando passamos, tendo essa imagem em mente, à consideração dos numerosos rituais estranhos das tribos primitivas e das grandes civilizações do passado, cujo relato chega até nós, torna-se claro que o propósito e o efeito real desses rituais consistia em levar as pessoas a cruzarem difíceis limiares de transformação que requerem uma mudança dos padrões, não apenas da vida consciente, como da inconsciente. Os chamados ritos [ou rituais] de passagem, que ocupam um lugar tão proeminente na vida de uma sociedade primitiva (cerimônias de nascimento, de atribuição de nome, de puberdade, casamento, morte, etc.), têm como característica a prática de exercícios formais de rompimento normalmente bastante rigorosos, por meio dos quais a mente é afastada de maneira radical das atitudes, vínculos e padrões de vida típicos do estágio que ficou para trás. Segue-se a esses exercícios um intervalo de isolamento mais ou menos prolongado, durante o qual são realizados rituais destinados a apresentar, ao aventureiro da vida, as formas e sentimentos apropriados à sua nova condição, de maneira que, quando finalmente tiver chegado o momento do seu retorno ao mundo normal, o iniciado esteja tão bem como se tivesse renascido.”

Muitas pessoas, quando se vêem no momento de cruzar um importante limiar, ou de passar por uma grande mudança na vida pessoal, sentem uma enorme apreensão, é o medo do novo. Na sociedade atual, onde o conhecimento é de tão fácil acesso, o novo, o desconhecido, se torna cada vez mais assustador. O problema pode surgir quando as pessoas não estão prontas para lidar com as mudanças, e a tensão favorece o transbordar de certos sentimentos que jaziam escondidos no inconsciente. O lado bom é que o novo, o mistério, além de assustar, também seduz, e instiga os seres humanos a testar os seus limites e a se esforçar para atingir as suas metas. É natural que nesses momentos de crise iminente, as pessoas busquem apoio nos diversos símbolos que carregam o poder do qual elas necessitam. Algumas pessoas encontram esse apoio psicológico em uma religião, outros o encontram nos estudos, no consultório de um psicanalista ou em filme como Rocky ou Star Wars. O importante é reconhecer em qual momento da sua vida você está, qual a lição que a sua vida passa para você nesse momento e qual o resultado produtivo que você desejá extrair dessa experiência; e se necessário, para ajudar nessa sua travessia, você poderá buscar inspiração em uma fonte pela qual sinta afinidade.

”A matéria-prima para o seu fio de linho foi colhida nos campos da imaginação humana. Séculos de agricultura, décadas de diligente seleção e o trabalho de numerosos corações e mãos entraram na colheita, na separação e na fiação desse fio resistente. Nem sequer temos que correr os riscos da aventura sozinhos; pois os heróis de todos os tempos nos precederam; o labirinto é totalmente conhecido. Temos apenas que seguir o fio da trilha do herói. E ali onde pensávamos encontrar uma abominação, encontraremos um Deus; onde pensávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos; onde pensávamos viajar para o exterior, atingiremos o centro da nossa própria existência; e onde pensávamos estar sozinhos, estaremos com o mundo inteiro.”

Os três primeiros e o último parágrafo foram retirados do livro O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell.

Publicado em A Jornada do Herói, Filosofia, Psicologia | Deixe um comentário

Uma Bebida Mágica

Naquele dia viajamos cerca de 200 quilômetros para chegar à Westende. Uma simpática cidadezinha localizada – como diz o próprio nome – no extremo da costa oeste belga, onde viviam meus avós paternos. West Ende é holandês. Sim, nós falamos holandês na Bélgica; e alemão e também francês, depende da região. Naquele dia levantamos cedo e saímos de casa ao mesmo tempo que o sol acordava do seu sono. Já pela manhã sentíamos
o calor característico do verão. Sempre íamos para Westende no comecinho do verão, para a festa de aniversário da minha avó. Íamos pra lá duas vezes ao ano, todo ano era a mesma coisa, no verão a festa da minha avó e no inverno era o aniversário do meu avô. Raramente eles vinham para Brussels; apesar de ainda serem fortes e saudáveis, embora já fossem bem velhinhos, ambos evitavam cidades grandes. O que era muito bom para mim, uma vez que sempre gostei de visitar cidades pequenas para brincar em meio à paisagem bucólica dos campos, bosques e, nesse caso, também no mar.

No meio do caminho, já perto de chegar, passamos por uma daquelas chuvinhas finas que nessa época do ano se misturam ao calor e à luz do sol, e logo vão embora deixando aquele cheirinho gostoso de terra molhada e um vistoso arco-íris em meio às poucas nuvens.

Meu pai dirigiu por mais alguns minutos e logo cruzamos uma antiga e enorme ponte construída com rochas e imensas vigas de madeira; sinal de que em breve chegaríamos ao nosso destino.

Quantos anos eu tinha? Ah, não sei bem. Algo entre 10 ou 9, talvez. Mas deixe-me continuar:

Chegamos à velha casa dos meus avós. Ela ficava a cerca de 5 quilômetros do centro urbano e da praia. Rodeando a velha casa haviam vários campos nos quais meu avô cultivava trigo, lúpulo, cevada, aveia e milho. Ele produzia e comercializava a própria
cerveja há mais de cinqüenta anos; era um negócio de família que começou com o pai do pai do meu bisavô; meu pai dirigia a filial sediada na capital do país. Nos fundos da casa, protegida por uma cerca para que Wolff (o cachorro) não a destruísse, havia uma bela
horta cultivada pela minha avó, que além de tudo era uma exímia cozinheira. Ao lado da horta outra cerquinha, que protegia as galinhas do travesso cão, fazia divisa com o curral das vacas leiteiras. Depois disso havia um belo estábulo, todo pintado de branco, que agora servia de depósito para os ingredientes e para os barris de cerveja. Cercando tudo isso, árvores e mais árvores. Os vizinhos mais próximos ficavam a mais de 500 metros do
portão de entrada.

Chegamos lá bem antes do meio-dia e fomos recebidos pelos latidos entusiasmados de Wolff, que correra até a porteira assim que ouvira o barulho do carro se aproximando. Ouvindo os latidos do cachorro, meu avô apressou-se em ir receber os esperados
visitantes. O velho abriu o portão com um enorme sorriso, meio escondido por trás da espessa barba branca, e abraçou-nos a todos. Enquanto me cumprimentava com vigorosos tapinhas nas costas, disse:

– Pelas barbas de Odin! Você está enorme hem, Albert. Daqui a pouco vai ficar maior do que eu.

Meu pai só sorria, enquanto minha mãe repreendia meu avô com um olhar de fazer tremer qualquer um. Ela era cristã e, apesar de não ser radical nem nada do tipo, não gostava quando meu avô começava a me contar histórias fantásticas sobre antigos Deuses e espíritos que habitam as florestas.

– Vamos entrando, vamos entrando. – Nos convidava calorosamente. Depois, olhando pra mim, descreveu algumas das guloseimas que me esperavam – Sua avó fez speculaas, waffles com mel e morangos, e a torta de maçã com chocolate que você tanto gosta.

Enquanto meu pai guardava o carro, nós continuamos caminhando. Wolff nos seguia e pulava sobre nós tentando lamber o nosso rosto. Quando chegamos mais perto, minha vó
atravessou a porta da frente e correu na minha direção para me abraçar. Todo aquele carinho era por um lado incômodo e por outro lado cômico e muito agradável. Depois dos costumeiros mimos e de perguntas do tipo “como você está indo na escola?”, fui correndo direto para a mesa do café. Minha mãe e minha avó me acompanharam, meu pai e meu avô ficaram descarregando as malas, juntando-se à nós em seguida. 

Depois de comer tanto doce, eu tinha que colocar alguma energia pra fora. Como meus outros tios e tias ainda não haviam chegado, trazendo meus primos e primas, só me restou correr por todos os cantos do quintal “lutando” contra Wolff; em minha imaginação eu era Tyr, enquanto Wolff fazia o papel de Garm, o cão guardião de Hel contra o qual o Deus Guerreiro estava destinado à lutar no Ragnarök. As investidas carinhosas do peludo Wolff eram interpretadas como ataques furiosos do cão infernal, e eu devolvia com suaves empurrões e socos em câmera lenta acompanhados dos efeitos sonoros apropriados.

Sedento, após tanto esforço, corri para dentro de casa para tomar um copo d’água. Os adultos estavam todos distraídos, conversando na cozinha enquanto bebiam um café de cheiro forte. Resolvi descer até o porão, sempre gostei de admirar o estoque de cervejas do meu avô, fileiras e fileiras de barris e garrafas. Vez ou outra, quando ninguém estava olhando, e às vezes até com a permissão do velho, eu tomava um golinho de alguma bebida mais suave; sempre gostei do sabor amargo da cerveja. Abri a porta cuidadosamente, para que nenhum barulho pudesse chamar atenção, e desci as escadas na pontinha dos pés. Lá embaixo ligo a luz e o cômodo enorme se abre, revelando toda
aquela preciosidade. Haviam raridades guardadas ali há um bom tempo, e rótulos de vários países: Alemanha, Holanda, França, Espanha e até uma Inglesa que veio pelo mar. Caminhei até os fundos dos aposentos, onde num armário antigo o velho costumava guardar fumo de cachimbo e umas poucas garrafas de vinho. Eu nunca fumava de maneira alguma, mas achava que a folha do tabaco tinha um cheiro engraçado e gostava daquele aroma. Para minha surpresa, quando chego na frente do armário, me deparo com uma garrafa de cerveja a qual nunca antes havia visto. Maior do que as outras garrafas e também diferente no formato, sendo mais curta e larga; o vidro, tocado pela luz, brilhava num amarelo vivo. Já havia sido aberta e estava tampada por uma rolha; ao seu lado, um pequeno caneco de madeira evidenciava que alguém havia bebido há pouco. Em letras
vermelhas sobre o seu rótulo branco estava escrito em holandês a palavra “Diabo”. Em baixo, em letras menores e da mesma cor da cevada, “Uma Bebida Mágica”.

Fitei aquele recipiente com curiosidade. Seria algum novo tipo de bebida que o meu avô estava preparando para lançar no mercado? Bom, se fosse, eu queria ser um dos primeiros a experimentar. Confesso ainda que as inscrições na garrafa me instigaram. Não pensei duas vezes. Arranquei a rolha com cuidado e despejei um pouco do conteúdo na caneca. Meio que por acidente, acabei colocando mais líquido do que deveria. Com medo de ser pego no flagra, apressadamente sorvi um generoso gole. Ao levar a bebida à boca pude sentir o característico cheiro de cevada maltada, só que nesse caso bem mais marcante. Quando o fluído dourado entrou em contato com a minha língua, pude sentir o forte sabor, que já veio acompanhado de uma leve embriaguez. Nunca antes eu havia bebido algo tão forte. Agora era tarde, eu não podia devolver a cerveja à sua garrafa, nem tinha um lugar apropriado para livrar-me da bebida sem deixar vestígios, só me restava beber tudo de uma vez.

Subi as escadas meio tonto. De volta à casa notei que os adultos continuavam conversando na cozinha, da sala principal eu podia ouvir as suas gargalhadas. Caminhei meio cambaleante em direção ao sofá e me sentei. Wolff me olhava curioso, sabendo
que eu não estava em meu estado normal. Recostei meu pescoço num dos braços do sofá e estiquei as minhas pernas sobre ele. O teto parecia se mover lentamente. Por fim, peguei no sono.

Enquanto eu dormia, os mais velhos discutiam uma série de questões sobre a organização da festa e os afazeres daquele dia. Assim me contaram:

– Eu tenho uma pequena entrega para fazer. – Disse meu avô, dando um tapa no ombro do meu pai – Podemos todos ir juntos à cidade. Deixamos as senhoras fazendo as compras enquanto nós fazemos o nosso serviço, depois as apanhamos no mercado e voltamos pra casa.

– É uma boa idéia. – Aprovou meu pai.

– E o Albert? – Perguntou minha mãe.

– Parece que ele está dormindo no sofá. Brincou tanto que cansou e caiu no sono, tadinho. – Respondeu inocentemente a minha avó, desconhecendo o fato de que eu estava um tanto quanto ébrio.

– Ele pode ficar dormindo enquanto nós vamos lá. É coisa rápida. Quando voltarmos ele ainda vai estar dormindo. Nem vai perceber que nós saímos. – Falou o velho, rindo.

– Eu fico preocupada. – Minha mãe hesitou.

– Que é isso, mulher? Eu cresci aqui, o lugar é seguro. Wolff vigiará ele para nós. – Disse meu pai, tentando acalmá-la, enquanto já se levantava para sair.

E foi assim que quando eu acordei me achei sozinho naquele lugar imenso.

– Pai? – Chamei sem ser respondido. – Mãe? Vovô? – Nada.

Nem os latidos de Wolff eu escutei. Olhei pela janela e o vi dormindo do lado de fora, aproveitando uma sombra projetada pelo estábulo.

Subi as escadas procurando. – Pessoal, vocês estão aí em cima? –
Não tive retorno.

Lá de cima, enquanto procurava em cada um dos quartos, escutei uma pancada vinda no andar de baixo, como se algum objeto grande de madeira tivesse caído. Caminhei sem fazer barulho até a beira da escada e me estiquei para olhar enquanto protegia o corpo atrás da parede. Quando de repente uma vozinha áspera sussurrou em tom de protesto:

– Sshhh… seus desastrados! Prestem atenção no que estão fazendo. Eles saíram, mas ainda tem uma criança na casa. Temos que fazer tudo com o maior cuidado.

Meu corpo estremeceu e o meu coração disparou. Ladrões? Eu tinha que me esconder, se eles me pegassem sabe-se lá o que poderiam fazer. Mas o que eles poderiam roubar de valor naquela casa? Todo o dinheiro estava no banco e a minha avó não era conhecida por usar muitas jóias. A única coisa que de súbito me veio à mente foi: a cerveja!

Eu não poderia deixar que os meus velhos fossem lesados daquela maneira por alguma companhia rival. Era meu dever, como homem da casa, defender o nosso patrimônio! Me achando capaz de colocar medo em qualquer um, desde que nas condições certas, corri para o quarto dos meus avós para procurar a espingarda do coroa. Eu já sabia muito bem como funcionavam as armas, só não tinha força suficiente ainda pra segurar o coice de
um trabuco daqueles, mas isso não me impediria de colocar os larápios pra correr deixando até os sapatos para trás. 

Peguei a carabina e desci as escadas cautelosamente já com o cano preparado. Na sala principal pude ouvi os barulhos de garrafa tombando em garrafa que vinham lá do porão,
acompanhados de mais burburinho e repreensões em voz baixa. Percebi que se eu me colocasse na escada do porão, iria obstruir a única passagem, os ladrões não teriam por onde fugir e eu, inevitavelmente, teria que matá-los um por um, sujando minhas jovens mãos com o sangue daqueles infelizes. Por isso decidi me prostrar em frente à porta que dava acesso àquele cômodo e gritar com um tom de voz imperativo:

– Seus desgraçados, filhos de uma porca gorda, saiam com as mãos para cima antes que estoure o coro de vocês com chumbo quente!

Por um ou dois segundos se fez silêncio, mas logo o burburinho voltou, dessa vez com mais comedimento:

– Como é? Ele chamou a nossa mãe de porca gorda?

– Que fazemos?

– Parece que ele está armado…

– É só uma criança.

Parecia que estavam em maior número do que eu imaginava. Engoli minha própria saliva. Minhas mãos suavam frio e meu coração batia acelerado.

– Eh… É isso mesmo! Rendam-se e saiam logo! Antes que eu resolva descer, aí vocês não vão ter como correr, nunca mais!

Mais silêncio. Então voltaram a deliberar e chegaram à uma conclusão.

– Erh… que situação… – resmungou um deles antes de gritar lá de baixo – Meu jovem! Mandaremos aí pra cima um de nossos representantes. O digníssimo Lingfier. Ele não tentará nada. Só quer conversar. Caso você sinta maldade nele, poderá atirar à
qualquer momento.

Mais assustado do que antes, respondi:

– É bom que ele não tente bancar o esperto. Se não vocês terão um digníssimo representante a menos para falar por vocês.

O suor escorria pela minha testa. Usei a mão que segurava o cano da espingarda para limpar rapidamente, antes que o meliante pudesse alcançar o topo da escadaria.

Logo vi, por causa das muitas luzes que iluminavam aquele lugar, uma grande sombra aparecendo na parede que ladeava a escada. Fiquei morrendo de medo frente à iminência de um desfecho sórdido. Me afastei aos poucos e fui me proteger atrás de um dos sofás da sala, mas continuei de pé, apontando a espingarda na direção daquele obscuro portal, do qual qualquer coisa poderia sair para me enfrentar.

O tempo passou… e passou… e nada do tal representante aparecer. Continuei fitando o vazio da porta sem que nada se mostrasse para mim, quando não aguentei mais esperar, gritei:

– Malditos covardes! Não disseram que mandariam um “senhor não sei lá quem” para falar comigo? Vocês não são homens?

– Na verdade não!

O susto fez com que eu me virasse de uma vez para a esquerda e um reflexo puramente provocado pela tensão fez com que eu puxasse o gatilho. O estrondo ecoou pela propriedade como um trovão ecoa no céu. Wolff começou a latir, assustado. Na minha frente, quase imóvel, um homenzinho de menos de um metro de altura, nariz longo e fino, orelhas pontudas, cabelos e barbas vermelhas e uma careca brilhante, tremia em estado de choque. Uma pequenina cartola de cor verde-escura, combinando com as
roupas do homenzinho, rolava no chão com um enorme buraco de bala no meio.

Um segundo depois do disparo ouvi, meio sem reação, a gritaria dos outros vindo de lá de baixo. Eles estavam subindo as escadas. Logo apareceram. Todos baixinhos e usando roupas verdes, marrons e laranja, só que ao invés de uma cartola, todos usavam boinas, evidenciando a distinção do primeiro que se mostrou. Foi uma imensa confusão enquanto todos bradavam e falavam ao mesmo tempo:

– Está louco?

– Porquê você atirou?

– Quer matar o nosso chefinho?

– Se quiser matá-lo, terá de matar a todos! – disse um deles abrindo os braços e colocando-se na frente do grupo.

Eu estava completamente paralisado ante aquele espetáculo. Os ladrões não pareciam seres humanos comuns. Do nada, fui puxado pelos pés e cai de costas. A segunda bala estourou cano a fora, abrindo um rombo no teto. Logo todos pularam em cima de mim. Wolff tentava alcançar a janela em vão. Me tomaram a arma enquanto gritavam, pedindo para eu me acalmar.

– Não lhe faremos mal algum. Prometemos.

Quando voltei a mim e me aquietei, vi o mais velho do grupo, o único de barba grossa, aquele do qual eu tirei a cartola à chumbo, sentado no sofá enquanto um dos seus assessores lhe servia uma caneca de alguma bebida (provavelmente cerveja mesmo).

– Quem são vocês? – Perguntei finalmente.

Depois de uma longa golada na caneca e de um suspiro de alívio, já mais calmo, o chefe da trupe respondeu.

– Somos trabalhadores.

– Não são ladrões? – Indaguei, ainda um pouco desconfiado.

– De modo algum!

Os outros balançavam a cabeça me reprovando duramente.

– Temos uma parceria muito antiga e lucrativa com os seus antepassados. Há mais de mil anos nós temos desenvolvido juntos algumas das variedades de cerveja mais apreciadas. Agora, com os novos tempos e tecnologias como automóveis e outras máquinas à vapor, a produção tem tido uma demanda muito maior, por isso não podemos deixar passar qualquer oportunidade de trabalhar, o que exige muita organização e esforço da nossa parte.

Fiquei quieto por alguns segundos, digerindo aquela informação, que me foi passada de maneira deveras autentica e franca, admito.

– Eu pensei que tudo hoje era feito nas fábrica… – Eu disse.

– Precisamente. – Continuou o pequeno trabalhador. – Aqui, em parceria com o seu avô, só conduzimos os experimentos e o desenvolvimento dos novos sabores, além das sutis mudanças em algumas das marcas antigas. Agora mesmo estamos trabalhando numa pale ale, dourada como o sol e forte como um relâmpago.

– Eu sei, eu acho que foi essa que eu bebi hoje mais cedo. – Falei sorrindo.

– Então o Senhor foi um dos primeiros a experimentar aquele sabor fantástico. O que achou?

– Boa. Muito forte. – Ri. – Achei o nome bem peculiar.

– Ah, o nome é provisório. Foi uma brincadeira de um dos nossos companheiros, que a provou e se surpreendeu com a sua intensidade. Obviamente, nos dias de hoje, não podemos comercializar com esse nome, por causa do medo, do misticismo e da superstição; prerrogativas dos não muito inteligentes. 

Ouvir aquilo vindo de um duende até hoje me faz pensar.

– Bom, se vocês quiserem continuar trabalhando, fiquem à vontade. – Tentei com isso tranquilizá-los. – Eu posso ficar olhando?

– É, até que gostaríamos de continuar trabalhando, mas já se passou muito tempo e seu avós já devem estar retornando, e trazendo os seus pais. Ademais, depois de toda essa confusão, é melhor que todos descansemos antes de voltar ao labor.

– Desculpe-me por todo o mal entendido.

– Não se preocupe. Também foi em parte culpa nossa. E, certamente, do meu ajudante desastrado que derrubou um pequeno barril de madeira. – Disse o chefe, olhando de cara feia para um dos duendes mais jovens, que por sua vez disfarçava olhando para o chão e coçando o queixo.

De repente os latidos de Wolff se afastaram da casa e ouvimos um barulho de motor se aproximando.

– Eles chegaram, temos que ir! – alertou um dos pequeninos.

Todos saíram correndo e começaram a pular por uma das janelas que ficava nos fundos.

– O que eu digo pra eles? – perguntei, temeroso.

– Invente uma desculpa. Use a imaginação! – disse Lingfier, enquanto fugia apressado.

*

Fim.

Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário

Simbolismo, Impressões, Deuses e o Campo da Mente

‘‘As verdades contidas nas doutrinas religiosas são, afinal de contas, tão deformadas e sistematicamente disfarçadas, que a massa da humanidade não pode identificá-las como verdade. O caso é semelhante ao que acontece quando contamos a uma criança que os recém-nascidos são trazidos pela cegonha. Neste caso, também estamos dizendo a verdade através de um expressão simbólica, pois sabemos o que essa grande ave significa. Mas a criança não sabe. Escuta apenas a parte deformada do que dizemos e sente que foi enganada; e sabemos com que frequência sua desconfiança em relação aos adultos e sua rebeldia têm realmente começo nessa impressão. Convencemo-nos de que é melhor evitar esses disfarces simbólicos da verdade naquilo que contamos às crianças, e não privá-las de um conhecimento do verdadeiro estado de coisas adequado a seu nível intelectual.’’ Sigmund Freud, Die Zukunft einer Illusion

‘‘As mitologias fazem sua mágica por meio de símbolos. O símbolo atua como um botão automático que libera energia e canaliza. Como os sistemas míticos do mundo abrangem muitos símbolos praticamente universais, surge a pergunta: “Por quê?” E como o símbolo universal acaba apontando para este, aquele ou outro propósito cultural? […] Os símbolos estão embutidos na psique ou são gravados posteriormente? Psicólogos de animais notaram que se um falcão sobrevoa pintinhos recém saídos do ovo, e que nunca haviam visto semelhante animal, eles correm em busca de abrigo. […] Como precisamos de siglas hoje em dia, isso foi chamado IRM, Innate Releasing Mechanism (Mecanismo Liberador Inato), também conhecido por reação estereotipada.

Por outro lado, quando um patinho sai do ovo, a primeira criatura em movimento que ele enxergar se tornará, digamos, a figura de sua mãe. Ele se apega a ela e depois não consegue se desligar de tal apego. Esse vínculo criado chama-se imprint (impressão). Com relação à psique humana, a questão é saber se as reações são na maior parte respostas estereotipadas ou de impressão. A resposta estereotipada que ocorre no caso dos pintinhos e do falcão é uma relação chave-fechadura, como se houvesse uma imagem precisa do falcão no cérebro dos pintinhos. “Quem está respondendo ao estímulo? São os pintinhos que nunca viram um falcão?”; “Não, é a raça dos pintinhos”.

Esta reação exemplifica o que Jung chama de arquétipo: um símbolo que libera energia relacionada à uma imagem coletiva. Aqueles seres nunca haviam visto um falcão antes, mas mesmo assim reagiram a ele. Por outro lado, o pato que se apega a uma galinha-mãe é bastante peculiar, se trata de um individuo, não de um exemplo de sua espécie. O vínculo entre o pato e a galinha resulta de uma impressão.

A diferença entre as impressões e uma coisa que você apenas tenha visto e pela qual tenha se interessado é que as primeiras ocorrem num momento único de prontidão psicológica, que dura apenas uma fração de minuto. E tendo ocorrido, a impressão é definitiva e não pode ser apagada.

Já na psique humana descobrimos que é impossível identificar qualquer imagem estereotipada. Aqui para nós, portanto, teremos de assumir que não existe nenhuma imagem liberadora inata estereotipada de grande significação na psique. O fator predominante é a impressão.

Vem então a pergunta: “Por que existem símbolos universais?” Pode-se observar os mesmos símbolos nas mitologias, nas religiões, nas estruturas sociológicas de todas as sociedades. Se não se trata de IRMs embutidos na psique humana, como eles chegaram lá? Já que esses símbolos não provêm de mecanismos inatos nem podem ser transmitidos culturalmente (as culturas são extremamente diversas), deve existir um conjunto constante de experiências que quase todos os indivíduos compartilhem.

Essas experiências constantes encontram-se, na verdade, na infância. Do relacionamento com: a) A Mãe, b) O Pai, c) Entre os pais e d) as transformações psicológicas da própria criança. Essas experiências universais trazem à luz os “Elementargedanken”, os temas imutáveis das culturas mundiais.’’ Joseph Campbell, Pathways to Bliss: Mythology and Personal Transformation

Vemos inúmeras semelhanças nas mitologias das mais diversas culturas do mundo. Essas semelhanças podem ser facilmente identificadas quando se entende o conceito de arquétipo. Toda mitologia tem um Deus Pai, uma Deusa Mãe, um Deus Jovem e uma Deusa Donzela. A relação entre estes varia de mitologia para mitologia, mas todas são baseadas nos ciclos naturais. Podemos citar como exemplo o simbolismo natural xamânico, podemos dizer por exemplo, que o Pai é o Céu, a Mãe é a Terra, o Deus Jovem é o Sol e a Deusa Donzela é a Lua. A criação desse simbolismo é fruto das impressões que os seres humanos tiveram durante seu convívio com a natureza. O ser humano viu o Céu, o Céu para ele é imortal e não tem fim; a Terra também: imortal e infinita. Olhando para o horizonte, o Céu e a Terra parecem se unir, a chuva do Céu fertiliza a Terra e tudo se enche de vida. Logo, o Céu e a Terra são Deuses e são Marido e Mulher. Seus filhos, o Sol e a Lua, nascem todo dia do horizonte (da união dos dois), e são ambos imortais e poderosos, Deuses.

Sabendo que a psicologia pessoal de um indivíduo é, em sua maior parte, construída pelas impressões, e que essas impressões criam arquétipos naturalmente, podemos afirmar que os símbolos são ferramentas que atuam na psiquê, causando mudanças e também criando novas impressões.

Imagine que a mente humana é um grande campo, nesse campo diversas culturas podem ser plantadas: arroz, feijão, milho. Animais podem ser criados: galinhas dão ovos, vacas dão leite, cães dão amizade. E você usará determinadas ferramentas para criar mudanças nesse campo: arados, foices, martelos, baldes, a fim de moldar esse campo para que você tenha uma melhor colheita e uma vida mais saudável e plena.

Este foi um exemplo bem simples e bucólico de como você pode aplicar esse tipo de simbolismo.

Nota | Publicado em por | Deixe um comentário

Zombie Attack

Salve!

Hoje eu vou falar um pouco sobre o arquétipo do MORTO-VIVO!

Nas mitologias, na literatura e na ficção encontramos diversas descrições para variados tipos de mortos-vivos. O tipo mais conhecido e mais comumente retratado na arte contemporânea é o zumbi, por isso durante esse texto focaremos a nossa abordagem neles e deixaremos as múmias (que não são zumbis, mas podem ser mortos-vivos) de lado.

Originalmente os relatos sobre zumbis vêm de mitologias e folclores variados de todas as partes do mundo. A palavra “zumbi” em si é proveniente de idiomas africanos e é comum à vários dialetos desse continente. A lista de dialetos é imensa, os mais comuns são de raiz Bantu, como exemplos podemos citar o Mbundu que se subdivide em Kimbundu (Mbundu do Norte) e Umbundu (Mbundu do Sul), as duas línguas Bantu mais faladas na Angola. Como sabemos, a Angola já foi uma colônia portuguesa, por conta disso é provável que muitos escravos que vieram para o Brasil tenham vindo de lá. Daí a palavra mbundu “nzumbe” que no Brasil passou a ser pronunciada “zumbi”. Zumbi dos Palmares, ao contrário do que muitos pensam, não era de origem yorubá-nagô, mas de origem bantu. No dialeto kreyòl-ayisyen falado no Haiti, “nzumbe” virou “zonbi”. Em ambos os casos, a palavra pode ser traduzida como “espírito” ou até “fantasma”. Então, originalmente, o termo se referia à um espírito, provavelmente se referia à qualquer espírito, bom ou mau. No dialeto Kikongo a palavra “nzambi” também significa “Deus”.

Existem práticas dentro do xamanismo africano pelas quais um xamã pode entrar em contato ou até obter poder sobre e usar esses espíritos. Na Grécia antiga o termo que designava essa prática era Necrosmancia, onde certos sacerdotes consultavam os mortos em busca de respostas para diversas questões. Disso surgiram diversas lendas, incluindo relatos de testemunhas abismadas que juravam de pés juntos (ba-pun-tss!) que os xamãs, feiticeiros, sacerdotes ou magos podiam inclusive reanimar o corpo do defunto.

No folclore europeu também existem diversos relatos, temos por exemplo o Vurdalak, um espírito maligno de um morto que sai da sua cova depois da meia-noite para se alimentar do sangue dos vivos. Na verdade vurdalak é a palavra eslava para vampiro, é um vampiro mas sem muita inteligência, sem o poder e a nobreza do Drácula, sem a classe do Lestat e sem a frescura dos vampiretes Crepúsculo; mas o nome soa bem mais ameaçador: Vurdalak.

De fato, o Vampiro é uma espécie de Zumbi, afinal ele é um morto-vivo e se ele te morde você também vira um morto-vivo, diferente da múmia, se uma múmia te morde o máximo que você consegue é morrer com uma infecção terrível. No extremo oriente também existem lendas sobre mortos-vivos, na China eles usam o I-Ching como amuleto contra os Jiangshi; no Japão não existem lendas nativas sobre vampiros que bebem sangue, mas certamente existem muitas lendas sobre espíritos malignos que voltam dos mortos para azucrinar os vivos. Nas Américas também temos alguns exemplos: o povo Mapuche do Chile usa a babosa para se defender do Peuchen e na América do Norte o povo Wyandot fala sobre o Hooh-Strah-Dooh, espírito maligno que invade corpos mortos e os reanima. Entre os povos Árabes existem diversas lendas sobre cadáveres que ressuscitam e demônios que bebem sangue e devoram a carne humana. Nos escritos judaicos e cristãos também existem vários relatos sobre contatos com os espíritos dos mortos e ressureições.

Os mortos-vivos começaram a fazer sucesso na arte com os romances góticos Frankenstein: or the Modern Prometheus (1818) de Mary Shelley e Drácula (1897) de Bram Stoker; em 1920, com o filme expressionista Das Cabinet des Dr. Caligari, do diretor alemão Robert Wiene, que conta a história de um homem que sofria um grave problema de sonambulismo e era mantido sob controle por um psiquiatra maluco obcecado por histórias sobre hipnose e homicídio; e com o filme White Zombie, de 1932, dirigido e produzido pelos irmãos Halperin, no qual Bela Lugosi interpreta um especialista em vodu haitiano que usa suas técnicas malignas para transformar uma inocente jovem em uma morta-viva. Como vimos, esses ainda não eram os zumbis que conhecemos hoje.

Em 1968, com Night of the Living Dead, George Romero começa o Apocalipse Zumbi nas telas dos cinemas. Nesse filme a zumbificação se dá através de um vírus que é passado através das mordidas das criaturas. A causa permanece um mistério uma vez que os cientistas e os militares não conseguem descobrir a origem do vírus; um dos cientistas menciona a explosão de uma sonda espacial que retornava do planeta Vênus como a possível causa de uma contaminação radioativa na atmosfera do planeta e como a provável origem.

Romero queria trabalhar com o arquétipo do morto-vivo, mas sabia que naquela época uma explicação científica seria necessária. Para abaixar as defesas psíquicas da audiência e tornar a história mais plausível só a feitiçaria não era o suficiente, ou como diria o Pica-Pau “vudu é pra jacú”. Ele precisava fazer as pessoas sentirem medo dos mortos-vivos, e para isso ele precisava criar a possibilidade real de um apocalipse zumbi, e fez isso usando o maior objeto de terror da guerra-fria: a radioatividade.

Chegamos no ponto em que faremos a transição do contexto histórico para a parte psicológica da coisa: afinal, por que diabos as pessoas teriam medo de mortos-vivos? O que os mortos-vivos representam? Qual o poder desse símbolo, para que ele tomasse um lugar de destaque na cultura contemporânea, a ponto de explicações céticas serem formuladas para que a zumbificação seja de alguma forma crível?

O morto-vivo representa o medo da morte e o vazio da vida puramente material. A carne apodrecendo com o passar do tempo, enquanto aquela criatura vaga a esmo e se alimenta de outros restos mortais. Um cadáver que se ergue e busca alimento para manter durante o maior tempo possível a sua existência decadente e sem propósito. O corpo material se move, mas a criatura não tem alma (sentimentos) e nem consciência (capacidade de raciocinar e aprender).

Em seu Dawn of the Dead (1978), George Romero representa isso na cena clássica em que os mortos que ainda não estão num estado avançado de putrefação caminham pelo shopping center, sobem e descem as escadas rolantes, carregam suas compras, olham as vitrines; a programação mental retida no cérebro reproduz mecanicamente seus costumes mundanos, mas o olhar vazio mostra a inexistência de propósito da não-vida.

O morto-vivo é um símbolo que trás à consciência daqueles que entram em contato com ele uma série de questões. Como a questão da vida após a morte. Se não existe vida consciente após a morte, o que move aqueles corpos mortos é apenas o instinto animalesco de sobrevivência proveniente dos processos elétricos e químicos de um cérebro ainda em atividade. Mas se é desse modo, por que o cérebro suprimiu outras atividades mais sublimes e só dá vazão às atividades concretas como o movimento e a fome? Se existe vida consciente após a morte, fica claro que a consciência humana não está no cérebro, mas em algo além, sendo o cérebro um órgão bem mais mecânico e ligado ao corpo material do que um órgão que detém o total poder sobre o ser como um todo. Poderia um processo de feitiçaria, de hipnose ou químico fazer essa separação entre o corpo e a alma-consciência-espírito de um ser vivo. Poderia de alguma forma acontecer o processo inverso?

Todas essas perguntas surgem na mente de uma pessoa (mesmo que de forma não totalmente consciente) só dela ver um morto-vivo se arrastando e gemendo “Céereebroo…”.

Outra sacada genial, dessa vez do diretor e roteirista Dan O’Bannon, foi esse negócio do cérebro. Ele dirigiu um filme de black comedy claramente inspirado nos trabalhos do George Romero chamado The Return of the Living Dead (1985) no qual os zumbis têm uma fixação perturbadora em devorar o cérebro das suas vítimas. O cérebro é tido como a morada da consciência, com certeza um elemento a mais que formou a imagem do zumbi na cultura popular. Agora o zumbi vai direto ao ponto, como o Vampiro mitológico do folclore antigo que vai direto na jugular em busca do sangue (a morada da alma).

Como vimos, é realmente um símbolo muito forte e um arquétipo e tanto, não é à toa que faz parte da cultura humana desde tempos imemoriais e é usado em diversas formas de narrativa. Inclusive na literatura fantásticas vemos muitas espécies de mortos-vivos, é o caso dos Espectros do Anel da obra de Tolkien, os White Walkers do George R. R. Martin, certamente alguns inimigos do Conan… Quando o Herói enfrenta e vence o morto-vivo ele está enfrentando e destruindo tudo aquilo que é relativo à esse símbolo: o vazio da vida material, o medo da morte, a matéria decadente e pútrida que tenta se opor e devorar o sentimento e a consciência, e assim por diante. É realmente um tipo de vilão adorável e nós com certeza ficamos contentes em arrancar suas cabeças com nossas espingardas calibre 12, tacos de baseball, motosserras e espadas samurai. Grroovy!

Publicado em Antropologia, Arte, Cinema, Cultura, Literatura, Mitologia Comparada, Psicologia | Deixe um comentário

Tolkien Talk

Publico aqui um trecho traduzido para o português, de uma famosa entrevista do grande escritor e professor J.R.R. Tolkien. Há muita confusão em torno dessa entrevista, existem quatro versões, a mais longa tem cerca de trinta minutos de duração, e todas começam e acabam de repente. A gravação foi concedida ao jornalista Dennis Gueroult em 1964, mas só foi exibida pela primeira vez pela BBC em 1971.

Traduzi com base principalmente no áudio, de outro modo, sem a entonação e os maneirismos, não entenderia totalmente algumas expressões. Para ajudar-me a entender alguns trechos mais difíceis, recorri a uma versão transcrita para o inglês publicada no site Tolkien Library. Procurei ser fiel ao máximo aos termos usados originalmente.

Divirtam-se.

J.R.R. Tolkien: Muito antes eu escrevi O Hobbit e muito antes de eu tê-lo escrito eu havia construído a mitologia desse mundo.

D. Gueroult: Então você tinha algum tipo de plano no qual isto poderia ser trabalhado?

J.R.R. Tolkien: Imensas sagas, sim… Eu fui sugado para dentro disto como o próprio Hobbit foi. Como você sabe, O Hobbit era originalmente sobre esses anões e uma vez que ele se colocou em movimento dentro desse mundo, ele seguiu adiante e foi puxado para dentro dele.

D. Gueroult: Então seus personagens e sua história realmente tiveram um custo. (silêncio) Eu digo “tiveram um peso”*; eu não quero dizer que você estava completamente sob seu feitiço ou nenhuma coisa desse gênero.

*Nota de Tradução: no original took charge. Charge, em inglês, pode ser entendido como preço, custo, e também como carga.

J.R.R. Tolkien: Oh, não, não. Eu não me perco sobre sonhos de modo algum, não (risos), não, não. Isto não era uma obsessão, de maneira alguma. Você tem esta sensação, que neste momento (risca seu cachimbo) A, B, C, D, somente A ou uma das opções está correta e você tem que esperar até você ver. Eu tenho mapas é claro. Se você vai ter uma história complicada você deve trabalhar por um mapa, de outro modo você nunca poderá fazer um mapa dela posteriormente. As luas, eu penso, finalmente estavam as luas e o pôr do sol funcionando de acordo ao que lhes cabia nesta parte do mundo em 1942, efetivamente. Deve ter sido alguma coisa por volta disto.

D. Gueroult: Você começou em 42 não é, a escrever este livro?

J.R.R. Tolkien: Oh não… Eu comecei assim que O Hobbit fora publicado. Nos anos 30.

D. Gueroult: Este estava finalmente terminado pouco antes de ser publicado.

J.R.R. Tolkien: Eu escrevi o último… por volta de 1949. Eu me lembro que eu, verdadeiramente, derramei lágrimas ao desfecho. Mas então, é claro, havia uma tremenda parte para a revisão. Eu digitei todo aquele trabalho duas vezes e mais, muitas vezes, numa cama em um sótão. Eu não poderia ceder, é claro, a digitação. Há alguns erros ainda e também me diverte dizer, como eu suponho, que eu estou em uma posição onde não importa o que as pessoas pensam de mim agora. Haviam alguns erros de gramática assustadores, os quais para um Professor de Língua Inglesa e Literatura são bem chocantes.

D. Gueroult: Eu não notei nenhum.

J.R.R. Tolkien: Teve um onde eu usei “montou” como um passado particípio de “cavalgar”! (Risos)*

*Nota de Tradução: No original, “There was one where I used bestrode as the past participle of bestride!bestrode significa sentar ou ficar em pé em posição de montaria, bestride, cavalgar.

D. Gueroult: Você sente algum senso de culpa de algum modo por, como um filologista, como um Professor de Língua Inglesa, que estava preocupado com as fontes factuais do idioma, ter devotado uma grande parte da sua vida à uma ficção?

J.R.R. Tolkien: Não. Estou certo de que, verdadeiramente, isto fez muito bem ao idioma! Certamente há muito de sabedoria linguística nisto. Eu não sinto nenhum complexo de culpa sobre O Senhor dos Anéis.

D. Gueroult: Teria você um particular carinho por essas coisas confortáveis e caseiras daJRR Tolkien vida que o Condado incorpora: a casa e o cachimbo e o fogo e a cama… As virtudes caseiras?

J.R.R. Tolkien: Você não?

D. Gueroult: Você não, Professor Tolkien?

J.R.R. Tolkien: É claro… sim, sim, sim.

D. Gueroult: Você tem então um carinho particular pelos Hobbits?

J.R.R. Tolkien: Isto é o porquê eu me sinto em casa… olhe, O Condado é muito parecido com o tipo de mundo no qual pela primeira vez eu fiquei ciente das coisas. O que era, talvez, mais agudo para mim pois eu não havia nascido nele. Eu nasci em Bloomsdale, na África do Sul. Eu era muito jovem quando eu voltei, mas ao mesmo tempo isso morde a sua memória e a sua imaginação, mesmo se você não pensa que isso o faz. Se a sua árvore de Natal é um eucalipto e se você normalmente é incomodado pelo calor e pela areia… então, ter exatamente a idade na qual a imaginação está se abrindo, e de repente você se encontra numa calma vila em Warwickshire, eu creio que isso engendra um amor particular pelo que você pode chamar de terras médias do interior inglês (*Midlands English Countryside). Baseadas em boa água, pedras e olmos e pequenos rios silenciosos e assim por diante, e é claro, pessoas rústicas.

D. Gueroult: Com que idade você veio para a Inglaterra?

J.R.R. Tolkien: Eu suponho… que tinha uns três anos e meio. Muito marcante é claro, porque é uma das coisas que as pessoas dizem que não se lembram. É como fotografar constantemente a mesma coisa sobre a mesma chapa. Leves mudanças simplesmente fazem um borrão. Mas se uma criança passa por uma ruptura repentina como essa, isso é consciente. O que se tenta fazer é encaixar as novas memórias nas velhas. Eu tenho a perfeitamente clara e vívida imagem de uma casa, que agora eu sei que é de fato um belo trabalho em pastiche da minha própria casa em Bloemfontein e da casa da minha avó em Birmingham. Eu ainda posso me lembrar de descer a estrada em Birmingham imaginando o que teria acontecido à grande galeria, o que teria acontecido à varanda. Consequentemente eu me lembro das coisas extremamente bem; posso me lembrar de tomar banho no Oceano Índico, eu ainda não tinha dois anos e eu me lembro disso claramente.

D. Gueroult: Frodo aceita o fardo do Anel e ele incorpora, como um personagem, as virtudes do longo sofrimento e da perseverança, e pelas suas ações alguém poderia dizer, em um sentido budista, que ele “adquire mérito”. Ele se torna, de fato, quase uma figura crística. Por que você escolheu um halfling, um Hobbit, para este papel?

J.R.R. Tolkien: Eu não fiz isso. Eu não fiz muitas escolhas. Eu escrevi O Hobbit, entende… tudo que eu estava tentando fazer era continuar do ponto onde O Hobbit havia terminado. Eu tinha Hobbits nas minhas mãos, não tinha?

D. Gueroult: De fato, mas não havia nada particularmente “crístico” sobre Bilbo?

J.R.R. Tolkien: Oh, não.

D. Gueroult: Não?

J.R.R. Tolkien: Não.

D. Gueroult: Mas face ao mais apavorante perigo ele continua lutando e segue em frente, e vence.

J.R.R. Tolkien: Mas isso parece, eu suponho, mais como uma alegoria à raça humana. Eu sempre fiquei impressionado por nós estarmos aqui sobrevivendo por causa da indomável coragem de pessoas bem pequenas contra obstáculos impossíveis: selvas, vulcões, bestas selvagens… elas continuam lutando, quase que cegamente, de certo modo.

D. Gueroult: Eu pensei que, concebivelmente, Midgard poderia ser a Terra-Média ou ter alguma conexão.

J.R.R. Tolkien: Oh sim, elas são a mesma palavra. A maioria das pessoas tem cometido esse erro de pensar que a Terra-Média é um particular tipo de Terra ou é outro planeta de algum tipo de ficção científica, mas é somente uma palavra à moda antiga para esse mundo no qual vivemos, como imaginado, cercado pelo Oceano.

J  R  R Tolkien

D. Gueroult: Me pareceu que a Terra-Média era em algum sentido, como você diz, este mundo no qual vivemos, mas este mundo no qual vivemos numa diferente era.

J.R.R. Tolkien: Não. Um diferente estágio de imaginação, sim.

D. Gueroult: Era a sua intenção que certas raças de O Senhor dos Anéis incorporassem certos princípios: a sabedoria dos Elfos, a perícia no ofício dos Anões, a prática da pecuária e da agricultura e a batalha para os Homens, e assim por diante?

J.R.R. Tolkien: Eu não tive a intenção. Mas quando você tem esses povos em suas mãos, você tem que fazê-los diferentes, não tem? Bem, é claro, como todos nós sabemos, ultimamente nós temos somente a humanidade para trabalhar. Nós só temos argila. Nós todos deveríamos… ou ao menos uma grande parte da raça humana… gostaria de ter um maior poder mental, um maior poder de arte, pelos quais a fenda entre a concepção e o poder de execução poderia ser encurtada. E nós poderíamos gostar de um tempo mais longo, se não um tempo indefinido, no qual seguir adiante, sabendo mais e fazendo mais. Portanto fizemos os Elfos imortais, em certo sentido. Eu tive que usar imortal, eu não quis dizer que eles eram eternamente imortais, meramente que eles são bem longevos e que sua longevidade provavelmente dura tanto tempo quanto a habitabilidade da Terra. Os Anões, é claro que é bem obvio, sim. Você não poderia dizer que eles te lembram os Judeus? Suas palavras são obviamente semíticas, construídas para serem semíticas. Hobbits são somente o rústico povo inglês, feitos em tamanho menor pois isto reflete, em geral, o pequeno alcance da imaginação deles. Não o pequeno alcance da sua coragem ou do talento potencial.

D. Gueroult: Esta parece ser uma das maiores forças do livro, este enorme conglomerado de nomes. Alguém não fica perdido? Ao menos depois da primeira leitura, depois da segunda leitura do livro…

J.R.R. Tolkien: Eu fico muito grato por você ter me dito isso, porque eu tive um grande problema. Isso também me dá grande prazer, um bom nome. Eu sempre começo a escrever com um nome; me dê um nome e isso cria uma história, não do jeito inverso, normalmente.

D. Gueroult: Das línguas que você conhece, qual era de maior ajuda para você durante a escrita de O Senhor dos Anéis?

J.R.R. Tolkien: Oh, Senhor… Sim… obviamente as línguas modernas. Eu deveria ter dito que o Galês sempre me atraiu pelo seu estilo e sonoridade mais do que qualquer outra, sempre, desde a primeira vez que a vi em caminhões de carvão, eu sempre quis saber do que se tratava.

D. Gueroult: Me parece que certamente a música de Gales vem através dos nomes que você escolheu para as montanhas e para os lugares em geral. Você reconhece isto?

J.R.R. Tolkien: Muito. Mas uma mais rara no entanto potente influência sobre mim tem sido o Finlandês.

D. Gueroult: O livro pode ser considerado como uma alegoria?

J.R.R. Tolkien: Não. Eu repugno alegorias, sempre que eu farejo uma.

D. Gueroult: Você considera o declínio do mundo como o declínio da Terceira Era em seu livro? E você vê uma Quarta Era para o mundo neste momento; nosso mundo?

J.R.R. Tolkien: Na minha idade eu sou exatamente o tipo de pessoa que já passou por um dos mais rápidos períodos de mudança conhecidos pela História. Certamente nunca poderia ter acontecido tanta mudança em dezessete anos.

D. Gueroult: Há uma qualidade outonal permeando todo O Senhor dos Anéis, em um caso um personagem diz que a história continua mas eu pareço ter caído fora dela… De todo modo, todas as coisas declinam, apagam, ao menos a respeito do fim da Terceira Era. Toda escolha tende à perturbação de alguma tradição. Agora isso me parece ser de alguma forma como Tennyson: “a velha ordem mudou, cedendo lugar à nova, e Deus completa a si mesmo de muitas formas”. Onde está Deus em O Senhor dos Anéis?

J.R.R. Tolkien: Ele é mencionado uma ou duas vezes.

D. Gueroult: Ele é o Um?

J.R.R. Tolkien: Sim. O Um.

D. Gueroult: Você é, de fato, um teísta?

J.R.R. Tolkien: Oh, eu sou um Católico Romano. Um devoto Católico Romano.

D. Gueroult: Você deseja ser lembrado principalmente pelos seus escritos de filologia e outras matérias ou pelo Senhor dos Anéis e O Hobbit?

J.R.R. Tolkien: Eu não deveria ter pensado que havia muita escolha nesse assunto. Se eu for lembrado de todo, será através de O Senhor dos Anéis, eu escolho isso. Não será um pouco como no caso de Longfellow? Pessoas lembram que Longfellow escreveu Hiawatha, geralmente esquecem que ele era um Professor de Línguas Modernas!

Caso queira escutar o áudio da entrevista, em inglês, aqui está o link.

Nota | Publicado em por | Deixe um comentário

Se quer tirar mel, não espante a colmeia.

Excertos do primeiro capítulo do livro Como fazer amigos e influenciar pessoas, de Dale Carnegie.

.

No dia 7 de maio de 1931 a cidade de Nova York testemunhou a mais sensacional caçada humana de que a velha metrópole já teve notícia. Depois de semanas de procura, Crowley – alcunhado “Two Gun”, o assassino que não fumava nem bebia – fora localizado e cercado no apartamento de sua namorada em West End Avenue. Cento e cinqüenta policiais e detetives dirigiram o cerco ao seu esconderijo no último andar do prédio. Depois de abrirem buracos no teto, procuraram alcançar Crowley, “o rei dos matadores”, com gás lacrimogêneo. Armaram então suas metralhadoras nos edifícios vizinhos, e por mais de uma hora uma das zonas residenciais mais finas de Nova York esteve em rebuliço com os tiros de pistolas e o ra-tá-tá das metralhadoras. Crowley, agachado atrás de uma cadeira estofada, atirava incessantemente contra a polícia. Dez mil pessoas emocionadas assistiam à batalha. Nada parecido havia sido visto antes nas ruas de Nova York.

Quando Crowley foi capturado, o comissário de polícia Mulrooney declarou que o celerado “Two Gun” era um dos elementos mais perigosos na história do crime em Nova York. “Ele matará”, disse o comissário, “no cair de uma pena”. Mas como Crowley, o “Two Gun”, se considerava a ‘si mesmo? Nós o sabemos, porque enquanto a polícia estava atirando contra o seu apartamento ele escreveu uma carta endereçada “a quem possa interessar”. E, ao escrevê-Ia, o sangue que corria de um dos seus ferimentos deixou um rastro carmesim no papel. Nesta missiva Crowley disse: “Debaixo do meu casaco há um coração fatigado, mas bondoso – um coração incapaz de fazer mal a qualquer pessoa”.

Pouco tempo antes, estava Crowley namorando a garota numa estrada no campo em Long Island. Subitamente um policial dirigiu-se para o carro estacionado e pediu: “Deixe-me ver sua licença”. Sem dizer uma só palavra, Crowley sacou sua arma e derrubou o policial com um tiro. Quando a moribunda autoridade caiu, Crowley saltou do carro, tirou o revólver do policial e deu outro tiro no corpo, que se achava prostrado. E era este assassino quem dizia: “Debaixo do meu casaco há um coração fatigado, mas bondoso – um coração incapaz de fazer mal a qualquer pessoa”.

Crowley foi condenado à cadeira elétrica. Ao chegar à câmara da morte, na prisão de Sing-Sing, teria ele exclamado: “Isto é o que consegui por matar pessoas“? Em absoluto, ele disse: “É o que consegui por defender-me”.

0 ponto interessante do caso é o seguinte: “Two Gun” não se culpava por coisa alguma. Será esta atitude pouco comum entre os criminosos? Se pensa assim, leia o seguinte:

“Passei os melhores anos da minha vida proporcionando os mais verdadeiros prazeres ao povo, ajudando-o a divertir-se, e tudo o que consegui com este meu gesto foi insultos e a existência de um homem caçado”.

Foi Al Capone quem falou assim. Sim, o até então Inimigo Público Número Um da América do Norte, o mais sinistro chefe de gangsters que apareceu em Chicago. Capone não se condena. Julga-se um benfeitor público – um benfeitor público mal apreciado e mal compreendido.

E o mesmo fez Dutch Schultz antes de baquear atingido pelas balas dos gangsters em Newark. Dutch Schultz, um dos mais notáveis larápios de Nova York, declarou numa entrevista aos jornais que ele era um benfeitor público. E acreditava nisto. Mantive uma interessante correspondência sobre o assunto com Lewis Lawes, o diretor da infamante prisão de Sing-Sing durante anos. Afirmou-me ele que “poucos criminosos em Sing-Sing se consideram más pessoas. São tão humanos como você e eu. Por isso justificam e explicam. Eles podem dizer-lhe por que foram rápidos no apertar o dedo no gatilho. A maioria deles tenta, por uma forma de raciocínio, falsa ou lógica, justificar seus atos anti-sociais para si mesmos e, conseqüentemente, sustentam com arrogância que não deviam estar presos”.

Se Al Capone, Crowley, o “Two Gun”, Dutch Schultz e os homens e mulheres desesperados que se acham atrás das grades da prisão não se recriminam por coisa alguma – que diremos acerca das pessoas com as quais vocês e eu diariamente estamos em contato?

0 falecido John Wanamaker confessou certa feita: “Eu aprendi há trinta anos que é uma loucura a crítica. já não são pequenos os meus esforços para vencer minhas próprias limitações sem me amofinar com o fato de que Deus não realizou igualmente a distribuição dos dons de inteligência”.

Wanamaker aprendeu esta lição muito cedo; mas, quanto a mim, errei por este velho mundo durante um terço de século até que ele mesmo começou a ensinar-me que, noventa e nove vezes em cem nenhum homem já se criticou por coisa alguma, não importando quanto possa ela estar errada.

A critica é fútil porque coloca um homem na defensiva e, usualmente, faz com que ele se esforce para justificar-se. A crítica é perigosa porque fere o precioso orgulho do indivíduo, alcança o seu senso de importância e gera o ressentimento.

B. F. Skinner, o mundialmente famoso psicólogo, através de seus experimentos demonstrou que um animal que é recompensado por bom comportamento aprenderá com maior rapidez e reterá o conteúdo aprendido com muito maior habilidade que  um animal que é castigado por mau comportamento. Estudos recentes mostram que o mesmo se aplica ao homem.

Através da crítica não operamos mudanças duradouras e amiúde ocorre o ressentimento.

Hans Selye, outro notável psicólogo, afirmou: “Com a mesma intensidade da sede que nós temos de aprovação, tememos a condenação”.

George B. Johnston, de Enid, Oklahoma, trabalha como coordenador da segurança de uma empresa de engenharia. Entre as suas responsabilidades, está a fiscalização que busca garantir que todos os empregados, ao trabalharem no campo, usem seus capacetes. Segundo ele, ao deparar com os trabalhadores sem capacete impunha-lhes sua autoridade ao falar sobre o regulamento e exigia-lhes que o cumprissem rigorosamente. Como resultado, obtinha obediência imediata, mas tão logo se afastava os operários retiravam seus capacetes.

Decidiu por isso experimentar uma abordagem diferente. Na primeira oportunidade em que viu alguns dos trabalhadores infringindo os regulamentos, perguntou-lhes se o capacete era desconfortável ou se ele não se ajustava às suas cabeças. Em seguida lembrou-lhes, empregando um tom de voz agradável, que os capacetes tinham a função de prevenir acidentes e sugeriu que eles os usassem, para seu próprio bem, durante o período de trabalho. 0 resultado foi um aumento da observância do regulamento, sem que surgissem ressentimentos ou perturbações emocionais.

[…]

Na manhã de um sábado, 15 de abril de 1865, agonizava Abraham Lincoln num quarto de modesta casa de cômodos que ficava em frente ao Teatro Ford, onde John Wilkes Booth o alvejara.

0 enorme corpo de Lincoln estava estendido diagonalmente em uma desconjuntada cama, muito pequena para ele. Uma reprodução barata do famoso quadro de Rosa Bonheur, The Horse Fair, estava à cabeceira da cama e a pálida chama amarela do bico de gás iluminava veladamente o ambiente. Quando Lincoln agonizava, disse o Sr. Stanton, ministro da Guerra: “Aqui está o mais perfeito governante que o mundo já viu”.

Qual o segredo de Lincoln no seu êxito no trato com os homens? Estudei a vida de Abraham Lincoln durante dez anos, dediquei três anos inteiros escrevendo e reescrevendo um livro intitulado: Lincoln, esse desconhecido. Creio ser este o mais detalhado e exaustivo estudo sobre a personalidade de Lincoln e sua vida no lar que um ser humano podia realizar. Fiz um estudo especial do método de Lincoln lidar com os homens. Gostava ele da crítica? Oh, sim. Quando ainda jovem, no Pigeon Creek Valley, de Indiana, não somente criticou mas escreveu cartas e poemas ridicularizando e jogando essas cartas nas estradas, em pontos onde tinha a certeza de que seriam encontradas. Uma delas provocou ressentimentos que duraram toda a vida. Mesmo depois de estar advogando em Springfield, Illinois, Lincoln atacava seus adversários abertamente em cartas que publicava nos jornais. Fez isso por muitas vezes.

No outono de 1842, ridicularizou um belicoso politico irlandês chamado James Shields. Lincoln satirizou-o numa carta anônima publicada no Springfield Journal. A cidade riu às gargalhadas. Shields, sensível e orgulhoso, foi presa fácil da indignação. Descobriu o autor da carta, montou no seu cavalo, procurou Lincoln e desafiou-o para um duelo. Lincoln não queria lutar. Era contra os duelos, mas não pôde recusar, pois se tratava de sua honra. Coube a Lincoln escolher a arma. Confiando na extensão de seus braços, escolheu as compridas espadas de cavalaria; tomou lições no manejo da mesma com um graduado de West Point. No dia designado, ele e Shields se encontraram num trecho de areia do rio Mississipi, dispostos a lutar até a morte; no último minuto, porém, os padrinhos resolveram suspender o duelo. Este foi o mais triste incidente pessoal da vida de Lincoln. Foi, porém, para ele, uma valiosa lição na arte de tratar as pessoas. Nunca mais escreveu uma carta insultuosa. Nunca mais ridictaarizou ninguém. E, desde então, jamais criticou qualquer pessoa por coisa alguma.

De tempos em tempos, durante a Guerra Civil, Lincoln colocou sucessivamente, à testa do exército do Potomac, vários generais, e todos eles – McClellan, Pope, Burnside, Hooker, Meade – erraram tragicamente, levando Lincoln a andar de um lado para outro em desespero. Metade da nação condenava rancorosamente os incompetentes generais, mas Lincoln, “com malignidade para nenhum e com caridade para todos”, manteve-se em paz. Uma das máximas que sempre repetia era: “Não julgueis, se não quiserdes ser julgados”.

E, quando a Sra. Lincoln e outros falavam asperamente dos sulistas, Lincoln replicava: “Não os critiquem; são eles exatamente o que nós seríamos sob idênticas condições”. Contudo, se algum homem teve oportunidade para criticar, certamente este homem foi Lincoln. Tomemos apenas um exemplo:

A batalha de Gettysburg foi travada durante os três primeiros dias de julho de 1863. Durante a noite de 4 de julho, Lee começou a retirar-se para o sul, enquanto tempestades de chuva inundavam todo o país. Quando Lee, com o seu exército vencido, chegou ao Potomac, deparou com um rio transbordante, impossível de ser transposto, e o exército vitorioso da União à retaguarda. Lee caíra numa armadilha. Não podia escapar. Lincoln viu isso. Era uma oportunidade única, concedida pelos céus – a oportunidade para capturar o exército de Lee e pôr, imediatamente, um ponto final na guerra. Assim, empolgado pela realização da grande esperança, Lincoln ordenou a Meade atacasse Lee sem demora, sem mesmo ouvir um conselho de guerra para tomar tal decisão. Lincoln mandou suas ordens pelo telégrafo e um mensageiro especial foi enviado a Meade, pedindo uma ação imediata. E que fez o general Meade? Justamente o oposto. Convocou um conselho de guerra, em flagrante violação às ordens de Lincoln. Hesitou. Retardou. Telegrafou toda espécie de desculpas. Recusou atender à ordem de atacar Lee. Finalmente, as águas baixaram e Lee escapou pelo Potom, com suas forças.

Lincoln ficou furioso. “Que significa isso?”, gritou para seu filho Robert. “Grande Deus! Que significa isso? Tivemos os inimigos em nossas mãos, apenas precisávamos apertar o cerco para que se rendessem; além disso, nada do que eu disse ou fiz pôde fazer o exército movimentar-se. Em tais condições qualquer general teria derrotado Lee. Se eu tivesse ido lá, eu mesmo o surraria.”

Tomado do maior desapontamento, Lincoln sentou-se e escreveu a Meade. Convém notar que, neste período de sua vida, Lincoln já era extremamente prudente e muito comedido na sua linguagem. Desse modo, a carta que se segue, escrita por Lincoln, em 1863, era uma evidência de sua mais severa censura.

“Meu caro general: Não posso acreditar que o senhor haja compreendido a extensão do infortúnio no tocante a fuga de Lee. Ele esteve nas suas mãos e se tivesse apertado o cerco, com os seus últimos sucessos, o de agora representaria o fim da guerra. Mas, depois do que sucedeu, a guerra prolongar-se-á indefinidamente. Se o senhor não pôde atacar Lee, segunda-feira passada, com certeza de vitória, como poderá fazê-lo no sul do rio, quando poderá contar com muito menor força – apenas dois terços da tropa que estava em suas mãos? Nada justifica tal esperança e eu não acredito que o senhor possa agir com eficiência. Sua oportunidade áurea já passou, e eu me confesso verdadeiramente sentido com isso”.

Que supõe o leitor haver feito Meade ao ler tal carta? Meade nunca viu esta missiva. Lincoln nunca a enviou ao seu destinatário. Ela foi encontrada entre os papéis de Lincoln, depois de sua morte.

Minha opinião é que – e é apenas uma opinião -, depois de escrever a carta, Lincoln olhou para fora das janelas e disse para si mesmo: “Espere um minuto. Talvez eu não deva se rtão temerário. É muito fácil para mim, comandante, sentado aqui na Casa Branca, dar ordens a Meade para atacar; mas se eu estivesse lá em Gettysburg, e tivesse visto tanto sangue como Meade viu durante a última semana, e os meus ouvidos estivessem ainda cheios de gritos e gemidos dos feridos e dos moribundos, talvez eu não sentisse tanta ânsia _para atacar. Se eu tivesse o temperamento tímido de Meade, talvez fizesse justamente o que ele fez. De qualquer modo, a água já está embaixo da ponte. Se eu mando esta carta, ela aliviará meus sentimentos, mas fará também com que Meade procure justificar-se. Fará Meade condenar-me. A carta provocará ressentimentos incompatíveis com a sua qualidade de comandante e poderá forçá-lo a renunciar ao seu posto no exército”. Assim, como eu já disse, Lincoln atirou a carta para o lado, porque aprendera, numa dura experiência, que as críticas violentas e as repreensões redundam sempre em futilidade.

Theodore Roosevelt disse que quando, como presidente, se defrontava com certos problemas complexos, costumava virar-se para trás e olhar para um grande retrato de Lincoln que fica atrás da cadeira presidencial na Casa Branca e perguntar a si mesmo: “Que faria Lincoln se estivesse em meu lugar? Como resolveria ele este problema?” A próxima vez que estivermos tentados a “passar um sabão” em alguém, façamos o seguinte: tiremos uma nota de cinco dólares do bolso e perguntemos, olhando a efígie de Lincoln impressa na cédula: “Como Lincoln resolveria este problema? Que faria ele em meu lugar?”

Mark Twain às vezes perdia a calma e escrevia cartas cujo conteúdo chegava a deixar o papel enrubescido. Para dar um exemplo, certa vez ele escreveu a um homem que o provocara: “Está me solicitando os seus próprios funerais. Eu os providenciarei assim que você voltar a abrir a boca contra mim”. Em outra ocasião escreveu a um editor a respeito das tentativas de um revisor de “melhorar minha ortografia e pontuação”. Ele determinou o seguinte: “Doravante encerre essa questão seguindo à risca meus manuscritos e certifique-se de que o revisor conservará as sugestões dele na papa do cérebro deteriorado que só a ele pertence”.

Mark Twain sentia-se aliviado depois de tais provocações por carta. As cartas permitiam-lhe desabafar-se e, ademais, não causavam dano real algum, uma vez que a esposa de Mark, secretamente, as retirava dentre a correspondência postal. Assim, jamais chegaram a ser enviadas.

Você conhece alguém a quem deseja modificar, aconselhar e melhorar? Excelente! Isso é muito bom. Estou inteiramente a favor. Mas por que não começar por si mesmo? De um ponto de vista eminentemente egoísta é muito mais proveitoso do que experimentar melhorar os outros – sim, e um pouco menos perigoso. “Não se queixe da neve no telhado da casa do seu vizinho, quando a soleira da sua porta não está limpa”, disse Confúcio.

Publicado em Cultura, Filosofia, Psicologia | Deixe um comentário