Sobre a Guerra, a Criatividade e a Evolução

Vamos tentar entender a guerra: é quando um grupo de pessoas que vivem dentro de linhas imaginárias, juntam um monte de armas e entregam para uma parte delas, para evitar que outras pessoas que também têm armas, e que também vivem dentro de linhas imaginárias, invadam ou tomem pedaços das suas linhas imaginárias para pegar as coisas que estão dentro delas. Parece um pouco confuso, não é? É porquê é.

Obviamente, o governo de um país tem o direito e o dever de preservar o território pátrio e a identidade cultural do seu povo, mas é a interação entre os povos que cria condições para o crescimento econômico. No mundo de hoje, os estados soberanos não têm mais a necessidade de invadir outros territórios militarmente, pois as nações se desenvolvem comprando e vendendo, criando e interagindo. Sério, eu não entendo a motivação de alguns líderes de governo, parece até que eles esperam ir descendo de nível até retrocedermos à monarquia absolutista.

A partir de um ponto de vista lógico, entendemos que, assim como a política, a guerra é um reflexo dos seres humanos. Desse modo, percebemos o quanto os seres humanos precisam evoluir em moral e dignidade, mas também em intelecto e consciência. Estes últimos, atributos que definem essa raça como uma raça de seres criativos, e que definem a individualidade. Unindo esses dois pilares, aprendemos a respeitar a individualidade dos outros, e a nossa própria, compreendendo que a vida é construída através da união das individualidades. Conhecimento e interação proporcionam um campo fértil para a concretização da criatividade, para a fluidez e para o desenvolvimento. E na época que compartilhamos, o conhecimento está mais acessível do que nunca, e a interação pode acontecer entre distâncias enormes e em muito pouco tempo.

A ITU (International Telecommunication Union) estimou que, no final de 2013, 2,7 bilhões de pessoas estariam conectadas à internet, isto é, 39% da população mundial. Desse número, 1,19 bilhões estão no facebook. O selfie da Ellen DeGeneres no Oscar teve mais de 3 milhões de retweets em menos de um dia e, definitivamente, entrou para a história.

A interação pessoal e a troca de experiências culturais e científicas pela internet, representam uma revolução em termos de conhecimento e criatividade. E como eu li em um tweet da Creative Future esses dias, “a indústria da criatividade é a espinha dorsal da nossa cultura e economia”, e acrescento: da evolução individual e da evolução social. Essa é a hora de entender que está tudo conectado e que podemos usar todo esse potencial criativo a favor de uma vida melhor.

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Os Sonhos, os Ritos de Passagem e o Fio de Linho

”O inconsciente envia toda espécie de fantasias, seres estranhos, terrores e imagens ilusórias à mente – seja por meio dos sonhos, em plena luz do dia ou nos estados de demência; pois o reino humano abarca, por baixo do solo da pequena habitação, comparativamente corriqueira, que denominamos consciência, insuspeitadas cavernas de Aladim. Nelas há não apenas um tesouro, mas também perigosos gênios: as forças psicológicas inconvenientes ou objeto de nossa resistência, que não pensamos em integrar – ou não nos atrevemos a fazê-lo – à nossa vida. E essas forças podem permanecer insuspeitadas ou, por outro lado, alguma palavra casual, o odor de uma paisagem, o sabor de uma xícara de chá ou algo que vemos de relance pode tocar uma mola mágica, e eis que perigosos mensageiros começam a aparecer no cérebro. Esses mensageiros são perigosos porque ameaçam as bases seguras sobre as quais construímos nosso próprio ser ou família. Mas eles são, da mesma forma, diabolicamente fascinantes, pois trazem consigo chaves que abrem portas para todo o domínio da aventura, a um só tempo desejada e temida, da descoberta do eu. Destruição do mundo que construímos e no qual vivemos, assim como nossa própria destruição dentro dele; mas, em seguida, uma maravilhosa reconstrução, de uma vida mais segura, límpida, ampla e completamente humana – eis o encanto, a promessa e o terror desses perturbadores visitantes noturnos, vindos do reino mitológico que carregamos dentro de nós.

A psicanálise, a moderna ciência da interpretação dos sonhos, nos ensinou a ficar atentos com relação a essas imagens insubstanciais. Também nos ensinou a forma de deixá-las atuar. Permite-se que as perigosas crises do autodesenvolvimento se desenrolem sob o olhar protetor de um experiente iniciado na natureza e na linguagem dos sonhos, que desempenha a função e o papel de um antigo mistagogo, ou guia dos espíritos, o curandeiro iniciador dos primitivos santuários florestais, das provas e da iniciação. O médico é o moderno mestre do reino do mito, o guardião da sabedoria a respeito de todos os caminhos secretos e fórmulas poderosas. Seu papel equivale precisamente ao do Velho Sábio, presença constante nos mitos e contos de fadas, cujas palavras ajudam o herói nas provas e terrores da fantástica aventura. É ele que aparece e indica a brilhante espada mágica que matará o dragão-terror; ele conta sobre a noiva que espera e sobre o castelo dos mil tesouros, aplica o bálsamo curativo nas feridas quase fatais e, por fim, leva o conquistador de volta ao mundo da vida normal após a grande aventura na noite encantada.

Quando passamos, tendo essa imagem em mente, à consideração dos numerosos rituais estranhos das tribos primitivas e das grandes civilizações do passado, cujo relato chega até nós, torna-se claro que o propósito e o efeito real desses rituais consistia em levar as pessoas a cruzarem difíceis limiares de transformação que requerem uma mudança dos padrões, não apenas da vida consciente, como da inconsciente. Os chamados ritos [ou rituais] de passagem, que ocupam um lugar tão proeminente na vida de uma sociedade primitiva (cerimônias de nascimento, de atribuição de nome, de puberdade, casamento, morte, etc.), têm como característica a prática de exercícios formais de rompimento normalmente bastante rigorosos, por meio dos quais a mente é afastada de maneira radical das atitudes, vínculos e padrões de vida típicos do estágio que ficou para trás. Segue-se a esses exercícios um intervalo de isolamento mais ou menos prolongado, durante o qual são realizados rituais destinados a apresentar, ao aventureiro da vida, as formas e sentimentos apropriados à sua nova condição, de maneira que, quando finalmente tiver chegado o momento do seu retorno ao mundo normal, o iniciado esteja tão bem como se tivesse renascido.”

Muitas pessoas, quando se vêem no momento de cruzar um importante limiar, ou de passar por uma grande mudança na vida pessoal, sentem uma enorme apreensão, é o medo do novo. Na sociedade atual, onde o conhecimento é de tão fácil acesso, o novo, o desconhecido, se torna cada vez mais assustador. O problema pode surgir quando as pessoas não estão prontas para lidar com as mudanças, e a tensão favorece o transbordar de certos sentimentos que jaziam escondidos no inconsciente. O lado bom é que o novo, o mistério, além de assustar, também seduz, e instiga os seres humanos a testar os seus limites e a se esforçar para atingir as suas metas. É natural que nesses momentos de crise iminente, as pessoas busquem apoio nos diversos símbolos que carregam o poder do qual elas necessitam. Algumas pessoas encontram esse apoio psicológico em uma religião, outros o encontram nos estudos, no consultório de um psicanalista ou em filme como Rocky ou Star Wars. O importante é reconhecer em qual momento da sua vida você está, qual a lição que a sua vida passa para você nesse momento e qual o resultado produtivo que você desejá extrair dessa experiência; e se necessário, para ajudar nessa sua travessia, você poderá buscar inspiração em uma fonte pela qual sinta afinidade.

”A matéria-prima para o seu fio de linho foi colhida nos campos da imaginação humana. Séculos de agricultura, décadas de diligente seleção e o trabalho de numerosos corações e mãos entraram na colheita, na separação e na fiação desse fio resistente. Nem sequer temos que correr os riscos da aventura sozinhos; pois os heróis de todos os tempos nos precederam; o labirinto é totalmente conhecido. Temos apenas que seguir o fio da trilha do herói. E ali onde pensávamos encontrar uma abominação, encontraremos um Deus; onde pensávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos; onde pensávamos viajar para o exterior, atingiremos o centro da nossa própria existência; e onde pensávamos estar sozinhos, estaremos com o mundo inteiro.”

Os três primeiros e o último parágrafo foram retirados do livro O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell.

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Uma Bebida Mágica

Naquele dia viajamos cerca de 200 quilômetros para chegar à Westende. Uma simpática cidadezinha localizada – como diz o próprio nome – no extremo da costa oeste belga, onde viviam meus avós paternos. West Ende é holandês. Sim, nós falamos holandês na Bélgica; e alemão e também francês, depende da região. Naquele dia levantamos cedo e saímos de casa ao mesmo tempo que o sol acordava do seu sono. Já pela manhã sentíamos
o calor característico do verão. Sempre íamos para Westende no comecinho do verão, para a festa de aniversário da minha avó. Íamos pra lá duas vezes ao ano, todo ano era a mesma coisa, no verão a festa da minha avó e no inverno era o aniversário do meu avô. Raramente eles vinham para Brussels; apesar de ainda serem fortes e saudáveis, embora já fossem bem velhinhos, ambos evitavam cidades grandes. O que era muito bom para mim, uma vez que sempre gostei de visitar cidades pequenas para brincar em meio à paisagem bucólica dos campos, bosques e, nesse caso, também no mar.

No meio do caminho, já perto de chegar, passamos por uma daquelas chuvinhas finas que nessa época do ano se misturam ao calor e à luz do sol, e logo vão embora deixando aquele cheirinho gostoso de terra molhada e um vistoso arco-íris em meio às poucas nuvens.

Meu pai dirigiu por mais alguns minutos e logo cruzamos uma antiga e enorme ponte construída com rochas e imensas vigas de madeira; sinal de que em breve chegaríamos ao nosso destino.

Quantos anos eu tinha? Ah, não sei bem. Algo entre 10 ou 9, talvez. Mas deixe-me continuar:

Chegamos à velha casa dos meus avós. Ela ficava a cerca de 5 quilômetros do centro urbano e da praia. Rodeando a velha casa haviam vários campos nos quais meu avô cultivava trigo, lúpulo, cevada, aveia e milho. Ele produzia e comercializava a própria
cerveja há mais de cinqüenta anos; era um negócio de família que começou com o pai do pai do meu bisavô; meu pai dirigia a filial sediada na capital do país. Nos fundos da casa, protegida por uma cerca para que Wolff (o cachorro) não a destruísse, havia uma bela
horta cultivada pela minha avó, que além de tudo era uma exímia cozinheira. Ao lado da horta outra cerquinha, que protegia as galinhas do travesso cão, fazia divisa com o curral das vacas leiteiras. Depois disso havia um belo estábulo, todo pintado de branco, que agora servia de depósito para os ingredientes e para os barris de cerveja. Cercando tudo isso, árvores e mais árvores. Os vizinhos mais próximos ficavam a mais de 500 metros do
portão de entrada.

Chegamos lá bem antes do meio-dia e fomos recebidos pelos latidos entusiasmados de Wolff, que correra até a porteira assim que ouvira o barulho do carro se aproximando. Ouvindo os latidos do cachorro, meu avô apressou-se em ir receber os esperados
visitantes. O velho abriu o portão com um enorme sorriso, meio escondido por trás da espessa barba branca, e abraçou-nos a todos. Enquanto me cumprimentava com vigorosos tapinhas nas costas, disse:

– Pelas barbas de Odin! Você está enorme hem, Albert. Daqui a pouco vai ficar maior do que eu.

Meu pai só sorria, enquanto minha mãe repreendia meu avô com um olhar de fazer tremer qualquer um. Ela era cristã e, apesar de não ser radical nem nada do tipo, não gostava quando meu avô começava a me contar histórias fantásticas sobre antigos Deuses e espíritos que habitam as florestas.

– Vamos entrando, vamos entrando. – Nos convidava calorosamente. Depois, olhando pra mim, descreveu algumas das guloseimas que me esperavam – Sua avó fez speculaas, waffles com mel e morangos, e a torta de maçã com chocolate que você tanto gosta.

Enquanto meu pai guardava o carro, nós continuamos caminhando. Wolff nos seguia e pulava sobre nós tentando lamber o nosso rosto. Quando chegamos mais perto, minha vó
atravessou a porta da frente e correu na minha direção para me abraçar. Todo aquele carinho era por um lado incômodo e por outro lado cômico e muito agradável. Depois dos costumeiros mimos e de perguntas do tipo “como você está indo na escola?”, fui correndo direto para a mesa do café. Minha mãe e minha avó me acompanharam, meu pai e meu avô ficaram descarregando as malas, juntando-se à nós em seguida. 

Depois de comer tanto doce, eu tinha que colocar alguma energia pra fora. Como meus outros tios e tias ainda não haviam chegado, trazendo meus primos e primas, só me restou correr por todos os cantos do quintal “lutando” contra Wolff; em minha imaginação eu era Tyr, enquanto Wolff fazia o papel de Garm, o cão guardião de Hel contra o qual o Deus Guerreiro estava destinado à lutar no Ragnarök. As investidas carinhosas do peludo Wolff eram interpretadas como ataques furiosos do cão infernal, e eu devolvia com suaves empurrões e socos em câmera lenta acompanhados dos efeitos sonoros apropriados.

Sedento, após tanto esforço, corri para dentro de casa para tomar um copo d’água. Os adultos estavam todos distraídos, conversando na cozinha enquanto bebiam um café de cheiro forte. Resolvi descer até o porão, sempre gostei de admirar o estoque de cervejas do meu avô, fileiras e fileiras de barris e garrafas. Vez ou outra, quando ninguém estava olhando, e às vezes até com a permissão do velho, eu tomava um golinho de alguma bebida mais suave; sempre gostei do sabor amargo da cerveja. Abri a porta cuidadosamente, para que nenhum barulho pudesse chamar atenção, e desci as escadas na pontinha dos pés. Lá embaixo ligo a luz e o cômodo enorme se abre, revelando toda
aquela preciosidade. Haviam raridades guardadas ali há um bom tempo, e rótulos de vários países: Alemanha, Holanda, França, Espanha e até uma Inglesa que veio pelo mar. Caminhei até os fundos dos aposentos, onde num armário antigo o velho costumava guardar fumo de cachimbo e umas poucas garrafas de vinho. Eu nunca fumava de maneira alguma, mas achava que a folha do tabaco tinha um cheiro engraçado e gostava daquele aroma. Para minha surpresa, quando chego na frente do armário, me deparo com uma garrafa de cerveja a qual nunca antes havia visto. Maior do que as outras garrafas e também diferente no formato, sendo mais curta e larga; o vidro, tocado pela luz, brilhava num amarelo vivo. Já havia sido aberta e estava tampada por uma rolha; ao seu lado, um pequeno caneco de madeira evidenciava que alguém havia bebido há pouco. Em letras
vermelhas sobre o seu rótulo branco estava escrito em holandês a palavra “Diabo”. Em baixo, em letras menores e da mesma cor da cevada, “Uma Bebida Mágica”.

Fitei aquele recipiente com curiosidade. Seria algum novo tipo de bebida que o meu avô estava preparando para lançar no mercado? Bom, se fosse, eu queria ser um dos primeiros a experimentar. Confesso ainda que as inscrições na garrafa me instigaram. Não pensei duas vezes. Arranquei a rolha com cuidado e despejei um pouco do conteúdo na caneca. Meio que por acidente, acabei colocando mais líquido do que deveria. Com medo de ser pego no flagra, apressadamente sorvi um generoso gole. Ao levar a bebida à boca pude sentir o característico cheiro de cevada maltada, só que nesse caso bem mais marcante. Quando o fluído dourado entrou em contato com a minha língua, pude sentir o forte sabor, que já veio acompanhado de uma leve embriaguez. Nunca antes eu havia bebido algo tão forte. Agora era tarde, eu não podia devolver a cerveja à sua garrafa, nem tinha um lugar apropriado para livrar-me da bebida sem deixar vestígios, só me restava beber tudo de uma vez.

Subi as escadas meio tonto. De volta à casa notei que os adultos continuavam conversando na cozinha, da sala principal eu podia ouvir as suas gargalhadas. Caminhei meio cambaleante em direção ao sofá e me sentei. Wolff me olhava curioso, sabendo
que eu não estava em meu estado normal. Recostei meu pescoço num dos braços do sofá e estiquei as minhas pernas sobre ele. O teto parecia se mover lentamente. Por fim, peguei no sono.

Enquanto eu dormia, os mais velhos discutiam uma série de questões sobre a organização da festa e os afazeres daquele dia. Assim me contaram:

– Eu tenho uma pequena entrega para fazer. – Disse meu avô, dando um tapa no ombro do meu pai – Podemos todos ir juntos à cidade. Deixamos as senhoras fazendo as compras enquanto nós fazemos o nosso serviço, depois as apanhamos no mercado e voltamos pra casa.

– É uma boa idéia. – Aprovou meu pai.

– E o Albert? – Perguntou minha mãe.

– Parece que ele está dormindo no sofá. Brincou tanto que cansou e caiu no sono, tadinho. – Respondeu inocentemente a minha avó, desconhecendo o fato de que eu estava um tanto quanto ébrio.

– Ele pode ficar dormindo enquanto nós vamos lá. É coisa rápida. Quando voltarmos ele ainda vai estar dormindo. Nem vai perceber que nós saímos. – Falou o velho, rindo.

– Eu fico preocupada. – Minha mãe hesitou.

– Que é isso, mulher? Eu cresci aqui, o lugar é seguro. Wolff vigiará ele para nós. – Disse meu pai, tentando acalmá-la, enquanto já se levantava para sair.

E foi assim que quando eu acordei me achei sozinho naquele lugar imenso.

– Pai? – Chamei sem ser respondido. – Mãe? Vovô? – Nada.

Nem os latidos de Wolff eu escutei. Olhei pela janela e o vi dormindo do lado de fora, aproveitando uma sombra projetada pelo estábulo.

Subi as escadas procurando. – Pessoal, vocês estão aí em cima? –
Não tive retorno.

Lá de cima, enquanto procurava em cada um dos quartos, escutei uma pancada vinda no andar de baixo, como se algum objeto grande de madeira tivesse caído. Caminhei sem fazer barulho até a beira da escada e me estiquei para olhar enquanto protegia o corpo atrás da parede. Quando de repente uma vozinha áspera sussurrou em tom de protesto:

– Sshhh… seus desastrados! Prestem atenção no que estão fazendo. Eles saíram, mas ainda tem uma criança na casa. Temos que fazer tudo com o maior cuidado.

Meu corpo estremeceu e o meu coração disparou. Ladrões? Eu tinha que me esconder, se eles me pegassem sabe-se lá o que poderiam fazer. Mas o que eles poderiam roubar de valor naquela casa? Todo o dinheiro estava no banco e a minha avó não era conhecida por usar muitas jóias. A única coisa que de súbito me veio à mente foi: a cerveja!

Eu não poderia deixar que os meus velhos fossem lesados daquela maneira por alguma companhia rival. Era meu dever, como homem da casa, defender o nosso patrimônio! Me achando capaz de colocar medo em qualquer um, desde que nas condições certas, corri para o quarto dos meus avós para procurar a espingarda do coroa. Eu já sabia muito bem como funcionavam as armas, só não tinha força suficiente ainda pra segurar o coice de
um trabuco daqueles, mas isso não me impediria de colocar os larápios pra correr deixando até os sapatos para trás. 

Peguei a carabina e desci as escadas cautelosamente já com o cano preparado. Na sala principal pude ouvi os barulhos de garrafa tombando em garrafa que vinham lá do porão,
acompanhados de mais burburinho e repreensões em voz baixa. Percebi que se eu me colocasse na escada do porão, iria obstruir a única passagem, os ladrões não teriam por onde fugir e eu, inevitavelmente, teria que matá-los um por um, sujando minhas jovens mãos com o sangue daqueles infelizes. Por isso decidi me prostrar em frente à porta que dava acesso àquele cômodo e gritar com um tom de voz imperativo:

– Seus desgraçados, filhos de uma porca gorda, saiam com as mãos para cima antes que estoure o coro de vocês com chumbo quente!

Por um ou dois segundos se fez silêncio, mas logo o burburinho voltou, dessa vez com mais comedimento:

– Como é? Ele chamou a nossa mãe de porca gorda?

– Que fazemos?

– Parece que ele está armado…

– É só uma criança.

Parecia que estavam em maior número do que eu imaginava. Engoli minha própria saliva. Minhas mãos suavam frio e meu coração batia acelerado.

– Eh… É isso mesmo! Rendam-se e saiam logo! Antes que eu resolva descer, aí vocês não vão ter como correr, nunca mais!

Mais silêncio. Então voltaram a deliberar e chegaram à uma conclusão.

– Erh… que situação… – resmungou um deles antes de gritar lá de baixo – Meu jovem! Mandaremos aí pra cima um de nossos representantes. O digníssimo Lingfier. Ele não tentará nada. Só quer conversar. Caso você sinta maldade nele, poderá atirar à
qualquer momento.

Mais assustado do que antes, respondi:

– É bom que ele não tente bancar o esperto. Se não vocês terão um digníssimo representante a menos para falar por vocês.

O suor escorria pela minha testa. Usei a mão que segurava o cano da espingarda para limpar rapidamente, antes que o meliante pudesse alcançar o topo da escadaria.

Logo vi, por causa das muitas luzes que iluminavam aquele lugar, uma grande sombra aparecendo na parede que ladeava a escada. Fiquei morrendo de medo frente à iminência de um desfecho sórdido. Me afastei aos poucos e fui me proteger atrás de um dos sofás da sala, mas continuei de pé, apontando a espingarda na direção daquele obscuro portal, do qual qualquer coisa poderia sair para me enfrentar.

O tempo passou… e passou… e nada do tal representante aparecer. Continuei fitando o vazio da porta sem que nada se mostrasse para mim, quando não aguentei mais esperar, gritei:

– Malditos covardes! Não disseram que mandariam um “senhor não sei lá quem” para falar comigo? Vocês não são homens?

– Na verdade não!

O susto fez com que eu me virasse de uma vez para a esquerda e um reflexo puramente provocado pela tensão fez com que eu puxasse o gatilho. O estrondo ecoou pela propriedade como um trovão ecoa no céu. Wolff começou a latir, assustado. Na minha frente, quase imóvel, um homenzinho de menos de um metro de altura, nariz longo e fino, orelhas pontudas, cabelos e barbas vermelhas e uma careca brilhante, tremia em estado de choque. Uma pequenina cartola de cor verde-escura, combinando com as
roupas do homenzinho, rolava no chão com um enorme buraco de bala no meio.

Um segundo depois do disparo ouvi, meio sem reação, a gritaria dos outros vindo de lá de baixo. Eles estavam subindo as escadas. Logo apareceram. Todos baixinhos e usando roupas verdes, marrons e laranja, só que ao invés de uma cartola, todos usavam boinas, evidenciando a distinção do primeiro que se mostrou. Foi uma imensa confusão enquanto todos bradavam e falavam ao mesmo tempo:

– Está louco?

– Porquê você atirou?

– Quer matar o nosso chefinho?

– Se quiser matá-lo, terá de matar a todos! – disse um deles abrindo os braços e colocando-se na frente do grupo.

Eu estava completamente paralisado ante aquele espetáculo. Os ladrões não pareciam seres humanos comuns. Do nada, fui puxado pelos pés e cai de costas. A segunda bala estourou cano a fora, abrindo um rombo no teto. Logo todos pularam em cima de mim. Wolff tentava alcançar a janela em vão. Me tomaram a arma enquanto gritavam, pedindo para eu me acalmar.

– Não lhe faremos mal algum. Prometemos.

Quando voltei a mim e me aquietei, vi o mais velho do grupo, o único de barba grossa, aquele do qual eu tirei a cartola à chumbo, sentado no sofá enquanto um dos seus assessores lhe servia uma caneca de alguma bebida (provavelmente cerveja mesmo).

– Quem são vocês? – Perguntei finalmente.

Depois de uma longa golada na caneca e de um suspiro de alívio, já mais calmo, o chefe da trupe respondeu.

– Somos trabalhadores.

– Não são ladrões? – Indaguei, ainda um pouco desconfiado.

– De modo algum!

Os outros balançavam a cabeça me reprovando duramente.

– Temos uma parceria muito antiga e lucrativa com os seus antepassados. Há mais de mil anos nós temos desenvolvido juntos algumas das variedades de cerveja mais apreciadas. Agora, com os novos tempos e tecnologias como automóveis e outras máquinas à vapor, a produção tem tido uma demanda muito maior, por isso não podemos deixar passar qualquer oportunidade de trabalhar, o que exige muita organização e esforço da nossa parte.

Fiquei quieto por alguns segundos, digerindo aquela informação, que me foi passada de maneira deveras autentica e franca, admito.

– Eu pensei que tudo hoje era feito nas fábrica… – Eu disse.

– Precisamente. – Continuou o pequeno trabalhador. – Aqui, em parceria com o seu avô, só conduzimos os experimentos e o desenvolvimento dos novos sabores, além das sutis mudanças em algumas das marcas antigas. Agora mesmo estamos trabalhando numa pale ale, dourada como o sol e forte como um relâmpago.

– Eu sei, eu acho que foi essa que eu bebi hoje mais cedo. – Falei sorrindo.

– Então o Senhor foi um dos primeiros a experimentar aquele sabor fantástico. O que achou?

– Boa. Muito forte. – Ri. – Achei o nome bem peculiar.

– Ah, o nome é provisório. Foi uma brincadeira de um dos nossos companheiros, que a provou e se surpreendeu com a sua intensidade. Obviamente, nos dias de hoje, não podemos comercializar com esse nome, por causa do medo, do misticismo e da superstição; prerrogativas dos não muito inteligentes. 

Ouvir aquilo vindo de um duende até hoje me faz pensar.

– Bom, se vocês quiserem continuar trabalhando, fiquem à vontade. – Tentei com isso tranquilizá-los. – Eu posso ficar olhando?

– É, até que gostaríamos de continuar trabalhando, mas já se passou muito tempo e seu avós já devem estar retornando, e trazendo os seus pais. Ademais, depois de toda essa confusão, é melhor que todos descansemos antes de voltar ao labor.

– Desculpe-me por todo o mal entendido.

– Não se preocupe. Também foi em parte culpa nossa. E, certamente, do meu ajudante desastrado que derrubou um pequeno barril de madeira. – Disse o chefe, olhando de cara feia para um dos duendes mais jovens, que por sua vez disfarçava olhando para o chão e coçando o queixo.

De repente os latidos de Wolff se afastaram da casa e ouvimos um barulho de motor se aproximando.

– Eles chegaram, temos que ir! – alertou um dos pequeninos.

Todos saíram correndo e começaram a pular por uma das janelas que ficava nos fundos.

– O que eu digo pra eles? – perguntei, temeroso.

– Invente uma desculpa. Use a imaginação! – disse Lingfier, enquanto fugia apressado.

*

Fim.

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Simbolismo, Impressões, Deuses e o Campo da Mente

‘‘As verdades contidas nas doutrinas religiosas são, afinal de contas, tão deformadas e sistematicamente disfarçadas, que a massa da humanidade não pode identificá-las como verdade. O caso é semelhante ao que acontece quando contamos a uma criança que os recém-nascidos são trazidos pela cegonha. Neste caso, também estamos dizendo a verdade através de um expressão simbólica, pois sabemos o que essa grande ave significa. Mas a criança não sabe. Escuta apenas a parte deformada do que dizemos e sente que foi enganada; e sabemos com que frequência sua desconfiança em relação aos adultos e sua rebeldia têm realmente começo nessa impressão. Convencemo-nos de que é melhor evitar esses disfarces simbólicos da verdade naquilo que contamos às crianças, e não privá-las de um conhecimento do verdadeiro estado de coisas adequado a seu nível intelectual.’’ Sigmund Freud, Die Zukunft einer Illusion

‘‘As mitologias fazem sua mágica por meio de símbolos. O símbolo atua como um botão automático que libera energia e canaliza. Como os sistemas míticos do mundo abrangem muitos símbolos praticamente universais, surge a pergunta: “Por quê?” E como o símbolo universal acaba apontando para este, aquele ou outro propósito cultural? […] Os símbolos estão embutidos na psique ou são gravados posteriormente? Psicólogos de animais notaram que se um falcão sobrevoa pintinhos recém saídos do ovo, e que nunca haviam visto semelhante animal, eles correm em busca de abrigo. […] Como precisamos de siglas hoje em dia, isso foi chamado IRM, Innate Releasing Mechanism (Mecanismo Liberador Inato), também conhecido por reação estereotipada.

Por outro lado, quando um patinho sai do ovo, a primeira criatura em movimento que ele enxergar se tornará, digamos, a figura de sua mãe. Ele se apega a ela e depois não consegue se desligar de tal apego. Esse vínculo criado chama-se imprint (impressão). Com relação à psique humana, a questão é saber se as reações são na maior parte respostas estereotipadas ou de impressão. A resposta estereotipada que ocorre no caso dos pintinhos e do falcão é uma relação chave-fechadura, como se houvesse uma imagem precisa do falcão no cérebro dos pintinhos. “Quem está respondendo ao estímulo? São os pintinhos que nunca viram um falcão?”; “Não, é a raça dos pintinhos”.

Esta reação exemplifica o que Jung chama de arquétipo: um símbolo que libera energia relacionada à uma imagem coletiva. Aqueles seres nunca haviam visto um falcão antes, mas mesmo assim reagiram a ele. Por outro lado, o pato que se apega a uma galinha-mãe é bastante peculiar, se trata de um individuo, não de um exemplo de sua espécie. O vínculo entre o pato e a galinha resulta de uma impressão.

A diferença entre as impressões e uma coisa que você apenas tenha visto e pela qual tenha se interessado é que as primeiras ocorrem num momento único de prontidão psicológica, que dura apenas uma fração de minuto. E tendo ocorrido, a impressão é definitiva e não pode ser apagada.

Já na psique humana descobrimos que é impossível identificar qualquer imagem estereotipada. Aqui para nós, portanto, teremos de assumir que não existe nenhuma imagem liberadora inata estereotipada de grande significação na psique. O fator predominante é a impressão.

Vem então a pergunta: “Por que existem símbolos universais?” Pode-se observar os mesmos símbolos nas mitologias, nas religiões, nas estruturas sociológicas de todas as sociedades. Se não se trata de IRMs embutidos na psique humana, como eles chegaram lá? Já que esses símbolos não provêm de mecanismos inatos nem podem ser transmitidos culturalmente (as culturas são extremamente diversas), deve existir um conjunto constante de experiências que quase todos os indivíduos compartilhem.

Essas experiências constantes encontram-se, na verdade, na infância. Do relacionamento com: a) A Mãe, b) O Pai, c) Entre os pais e d) as transformações psicológicas da própria criança. Essas experiências universais trazem à luz os “Elementargedanken”, os temas imutáveis das culturas mundiais.’’ Joseph Campbell, Pathways to Bliss: Mythology and Personal Transformation

Vemos inúmeras semelhanças nas mitologias das mais diversas culturas do mundo. Essas semelhanças podem ser facilmente identificadas quando se entende o conceito de arquétipo. Toda mitologia tem um Deus Pai, uma Deusa Mãe, um Deus Jovem e uma Deusa Donzela. A relação entre estes varia de mitologia para mitologia, mas todas são baseadas nos ciclos naturais. Podemos citar como exemplo o simbolismo natural xamânico, podemos dizer por exemplo, que o Pai é o Céu, a Mãe é a Terra, o Deus Jovem é o Sol e a Deusa Donzela é a Lua. A criação desse simbolismo é fruto das impressões que os seres humanos tiveram durante seu convívio com a natureza. O ser humano viu o Céu, o Céu para ele é imortal e não tem fim; a Terra também: imortal e infinita. Olhando para o horizonte, o Céu e a Terra parecem se unir, a chuva do Céu fertiliza a Terra e tudo se enche de vida. Logo, o Céu e a Terra são Deuses e são Marido e Mulher. Seus filhos, o Sol e a Lua, nascem todo dia do horizonte (da união dos dois), e são ambos imortais e poderosos, Deuses.

Sabendo que a psicologia pessoal de um indivíduo é, em sua maior parte, construída pelas impressões, e que essas impressões criam arquétipos naturalmente, podemos afirmar que os símbolos são ferramentas que atuam na psiquê, causando mudanças e também criando novas impressões.

Imagine que a mente humana é um grande campo, nesse campo diversas culturas podem ser plantadas: arroz, feijão, milho. Animais podem ser criados: galinhas dão ovos, vacas dão leite, cães dão amizade. E você usará determinadas ferramentas para criar mudanças nesse campo: arados, foices, martelos, baldes, a fim de moldar esse campo para que você tenha uma melhor colheita e uma vida mais saudável e plena.

Este foi um exemplo bem simples e bucólico de como você pode aplicar esse tipo de simbolismo.

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Zombie Attack

Salve!

Hoje eu vou falar um pouco sobre o arquétipo do MORTO-VIVO!

Nas mitologias, na literatura e na ficção encontramos diversas descrições para variados tipos de mortos-vivos. O tipo mais conhecido e mais comumente retratado na arte contemporânea é o zumbi, por isso durante esse texto focaremos a nossa abordagem neles e deixaremos as múmias (que não são zumbis, mas podem ser mortos-vivos) de lado.

Originalmente os relatos sobre zumbis vêm de mitologias e folclores variados de todas as partes do mundo. A palavra “zumbi” em si é proveniente de idiomas africanos e é comum à vários dialetos desse continente. A lista de dialetos é imensa, os mais comuns são de raiz Bantu, como exemplos podemos citar o Mbundu que se subdivide em Kimbundu (Mbundu do Norte) e Umbundu (Mbundu do Sul), as duas línguas Bantu mais faladas na Angola. Como sabemos, a Angola já foi uma colônia portuguesa, por conta disso é provável que muitos escravos que vieram para o Brasil tenham vindo de lá. Daí a palavra mbundu “nzumbe” que no Brasil passou a ser pronunciada “zumbi”. Zumbi dos Palmares, ao contrário do que muitos pensam, não era de origem yorubá-nagô, mas de origem bantu. No dialeto kreyòl-ayisyen falado no Haiti, “nzumbe” virou “zonbi”. Em ambos os casos, a palavra pode ser traduzida como “espírito” ou até “fantasma”. Então, originalmente, o termo se referia à um espírito, provavelmente se referia à qualquer espírito, bom ou mau. No dialeto Kikongo a palavra “nzambi” também significa “Deus”.

Existem práticas dentro do xamanismo africano pelas quais um xamã pode entrar em contato ou até obter poder sobre e usar esses espíritos. Na Grécia antiga o termo que designava essa prática era Necrosmancia, onde certos sacerdotes consultavam os mortos em busca de respostas para diversas questões. Disso surgiram diversas lendas, incluindo relatos de testemunhas abismadas que juravam de pés juntos (ba-pun-tss!) que os xamãs, feiticeiros, sacerdotes ou magos podiam inclusive reanimar o corpo do defunto.

No folclore europeu também existem diversos relatos, temos por exemplo o Vurdalak, um espírito maligno de um morto que sai da sua cova depois da meia-noite para se alimentar do sangue dos vivos. Na verdade vurdalak é a palavra eslava para vampiro, é um vampiro mas sem muita inteligência, sem o poder e a nobreza do Drácula, sem a classe do Lestat e sem a frescura dos vampiretes Crepúsculo; mas o nome soa bem mais ameaçador: Vurdalak.

De fato, o Vampiro é uma espécie de Zumbi, afinal ele é um morto-vivo e se ele te morde você também vira um morto-vivo, diferente da múmia, se uma múmia te morde o máximo que você consegue é morrer com uma infecção terrível. No extremo oriente também existem lendas sobre mortos-vivos, na China eles usam o I-Ching como amuleto contra os Jiangshi; no Japão não existem lendas nativas sobre vampiros que bebem sangue, mas certamente existem muitas lendas sobre espíritos malignos que voltam dos mortos para azucrinar os vivos. Nas Américas também temos alguns exemplos: o povo Mapuche do Chile usa a babosa para se defender do Peuchen e na América do Norte o povo Wyandot fala sobre o Hooh-Strah-Dooh, espírito maligno que invade corpos mortos e os reanima. Entre os povos Árabes existem diversas lendas sobre cadáveres que ressuscitam e demônios que bebem sangue e devoram a carne humana. Nos escritos judaicos e cristãos também existem vários relatos sobre contatos com os espíritos dos mortos e ressureições.

Os mortos-vivos começaram a fazer sucesso na arte com os romances góticos Frankenstein: or the Modern Prometheus (1818) de Mary Shelley e Drácula (1897) de Bram Stoker; em 1920, com o filme expressionista Das Cabinet des Dr. Caligari, do diretor alemão Robert Wiene, que conta a história de um homem que sofria um grave problema de sonambulismo e era mantido sob controle por um psiquiatra maluco obcecado por histórias sobre hipnose e homicídio; e com o filme White Zombie, de 1932, dirigido e produzido pelos irmãos Halperin, no qual Bela Lugosi interpreta um especialista em vodu haitiano que usa suas técnicas malignas para transformar uma inocente jovem em uma morta-viva. Como vimos, esses ainda não eram os zumbis que conhecemos hoje.

Em 1968, com Night of the Living Dead, George Romero começa o Apocalipse Zumbi nas telas dos cinemas. Nesse filme a zumbificação se dá através de um vírus que é passado através das mordidas das criaturas. A causa permanece um mistério uma vez que os cientistas e os militares não conseguem descobrir a origem do vírus; um dos cientistas menciona a explosão de uma sonda espacial que retornava do planeta Vênus como a possível causa de uma contaminação radioativa na atmosfera do planeta e como a provável origem.

Romero queria trabalhar com o arquétipo do morto-vivo, mas sabia que naquela época uma explicação científica seria necessária. Para abaixar as defesas psíquicas da audiência e tornar a história mais plausível só a feitiçaria não era o suficiente, ou como diria o Pica-Pau “vudu é pra jacú”. Ele precisava fazer as pessoas sentirem medo dos mortos-vivos, e para isso ele precisava criar a possibilidade real de um apocalipse zumbi, e fez isso usando o maior objeto de terror da guerra-fria: a radioatividade.

Chegamos no ponto em que faremos a transição do contexto histórico para a parte psicológica da coisa: afinal, por que diabos as pessoas teriam medo de mortos-vivos? O que os mortos-vivos representam? Qual o poder desse símbolo, para que ele tomasse um lugar de destaque na cultura contemporânea, a ponto de explicações céticas serem formuladas para que a zumbificação seja de alguma forma crível?

O morto-vivo representa o medo da morte e o vazio da vida puramente material. A carne apodrecendo com o passar do tempo, enquanto aquela criatura vaga a esmo e se alimenta de outros restos mortais. Um cadáver que se ergue e busca alimento para manter durante o maior tempo possível a sua existência decadente e sem propósito. O corpo material se move, mas a criatura não tem alma (sentimentos) e nem consciência (capacidade de raciocinar e aprender).

Em seu Dawn of the Dead (1978), George Romero representa isso na cena clássica em que os mortos que ainda não estão num estado avançado de putrefação caminham pelo shopping center, sobem e descem as escadas rolantes, carregam suas compras, olham as vitrines; a programação mental retida no cérebro reproduz mecanicamente seus costumes mundanos, mas o olhar vazio mostra a inexistência de propósito da não-vida.

O morto-vivo é um símbolo que trás à consciência daqueles que entram em contato com ele uma série de questões. Como a questão da vida após a morte. Se não existe vida consciente após a morte, o que move aqueles corpos mortos é apenas o instinto animalesco de sobrevivência proveniente dos processos elétricos e químicos de um cérebro ainda em atividade. Mas se é desse modo, por que o cérebro suprimiu outras atividades mais sublimes e só dá vazão às atividades concretas como o movimento e a fome? Se existe vida consciente após a morte, fica claro que a consciência humana não está no cérebro, mas em algo além, sendo o cérebro um órgão bem mais mecânico e ligado ao corpo material do que um órgão que detém o total poder sobre o ser como um todo. Poderia um processo de feitiçaria, de hipnose ou químico fazer essa separação entre o corpo e a alma-consciência-espírito de um ser vivo. Poderia de alguma forma acontecer o processo inverso?

Todas essas perguntas surgem na mente de uma pessoa (mesmo que de forma não totalmente consciente) só dela ver um morto-vivo se arrastando e gemendo “Céereebroo…”.

Outra sacada genial, dessa vez do diretor e roteirista Dan O’Bannon, foi esse negócio do cérebro. Ele dirigiu um filme de black comedy claramente inspirado nos trabalhos do George Romero chamado The Return of the Living Dead (1985) no qual os zumbis têm uma fixação perturbadora em devorar o cérebro das suas vítimas. O cérebro é tido como a morada da consciência, com certeza um elemento a mais que formou a imagem do zumbi na cultura popular. Agora o zumbi vai direto ao ponto, como o Vampiro mitológico do folclore antigo que vai direto na jugular em busca do sangue (a morada da alma).

Como vimos, é realmente um símbolo muito forte e um arquétipo e tanto, não é à toa que faz parte da cultura humana desde tempos imemoriais e é usado em diversas formas de narrativa. Inclusive na literatura fantásticas vemos muitas espécies de mortos-vivos, é o caso dos Espectros do Anel da obra de Tolkien, os White Walkers do George R. R. Martin, certamente alguns inimigos do Conan… Quando o Herói enfrenta e vence o morto-vivo ele está enfrentando e destruindo tudo aquilo que é relativo à esse símbolo: o vazio da vida material, o medo da morte, a matéria decadente e pútrida que tenta se opor e devorar o sentimento e a consciência, e assim por diante. É realmente um tipo de vilão adorável e nós com certeza ficamos contentes em arrancar suas cabeças com nossas espingardas calibre 12, tacos de baseball, motosserras e espadas samurai. Grroovy!

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Tolkien Talk

Publico aqui um trecho traduzido para o português, de uma famosa entrevista do grande escritor e professor J.R.R. Tolkien. Há muita confusão em torno dessa entrevista, existem quatro versões, a mais longa tem cerca de trinta minutos de duração, e todas começam e acabam de repente. A gravação foi concedida ao jornalista Dennis Gueroult em 1964, mas só foi exibida pela primeira vez pela BBC em 1971.

Traduzi com base principalmente no áudio, de outro modo, sem a entonação e os maneirismos, não entenderia totalmente algumas expressões. Para ajudar-me a entender alguns trechos mais difíceis, recorri a uma versão transcrita para o inglês publicada no site Tolkien Library. Procurei ser fiel ao máximo aos termos usados originalmente.

Divirtam-se.

J.R.R. Tolkien: Muito antes eu escrevi O Hobbit e muito antes de eu tê-lo escrito eu havia construído a mitologia desse mundo.

D. Gueroult: Então você tinha algum tipo de plano no qual isto poderia ser trabalhado?

J.R.R. Tolkien: Imensas sagas, sim… Eu fui sugado para dentro disto como o próprio Hobbit foi. Como você sabe, O Hobbit era originalmente sobre esses anões e uma vez que ele se colocou em movimento dentro desse mundo, ele seguiu adiante e foi puxado para dentro dele.

D. Gueroult: Então seus personagens e sua história realmente tiveram um custo. (silêncio) Eu digo “tiveram um peso”*; eu não quero dizer que você estava completamente sob seu feitiço ou nenhuma coisa desse gênero.

*Nota de Tradução: no original took charge. Charge, em inglês, pode ser entendido como preço, custo, e também como carga.

J.R.R. Tolkien: Oh, não, não. Eu não me perco sobre sonhos de modo algum, não (risos), não, não. Isto não era uma obsessão, de maneira alguma. Você tem esta sensação, que neste momento (risca seu cachimbo) A, B, C, D, somente A ou uma das opções está correta e você tem que esperar até você ver. Eu tenho mapas é claro. Se você vai ter uma história complicada você deve trabalhar por um mapa, de outro modo você nunca poderá fazer um mapa dela posteriormente. As luas, eu penso, finalmente estavam as luas e o pôr do sol funcionando de acordo ao que lhes cabia nesta parte do mundo em 1942, efetivamente. Deve ter sido alguma coisa por volta disto.

D. Gueroult: Você começou em 42 não é, a escrever este livro?

J.R.R. Tolkien: Oh não… Eu comecei assim que O Hobbit fora publicado. Nos anos 30.

D. Gueroult: Este estava finalmente terminado pouco antes de ser publicado.

J.R.R. Tolkien: Eu escrevi o último… por volta de 1949. Eu me lembro que eu, verdadeiramente, derramei lágrimas ao desfecho. Mas então, é claro, havia uma tremenda parte para a revisão. Eu digitei todo aquele trabalho duas vezes e mais, muitas vezes, numa cama em um sótão. Eu não poderia ceder, é claro, a digitação. Há alguns erros ainda e também me diverte dizer, como eu suponho, que eu estou em uma posição onde não importa o que as pessoas pensam de mim agora. Haviam alguns erros de gramática assustadores, os quais para um Professor de Língua Inglesa e Literatura são bem chocantes.

D. Gueroult: Eu não notei nenhum.

J.R.R. Tolkien: Teve um onde eu usei “montou” como um passado particípio de “cavalgar”! (Risos)*

*Nota de Tradução: No original, “There was one where I used bestrode as the past participle of bestride!bestrode significa sentar ou ficar em pé em posição de montaria, bestride, cavalgar.

D. Gueroult: Você sente algum senso de culpa de algum modo por, como um filologista, como um Professor de Língua Inglesa, que estava preocupado com as fontes factuais do idioma, ter devotado uma grande parte da sua vida à uma ficção?

J.R.R. Tolkien: Não. Estou certo de que, verdadeiramente, isto fez muito bem ao idioma! Certamente há muito de sabedoria linguística nisto. Eu não sinto nenhum complexo de culpa sobre O Senhor dos Anéis.

D. Gueroult: Teria você um particular carinho por essas coisas confortáveis e caseiras daJRR Tolkien vida que o Condado incorpora: a casa e o cachimbo e o fogo e a cama… As virtudes caseiras?

J.R.R. Tolkien: Você não?

D. Gueroult: Você não, Professor Tolkien?

J.R.R. Tolkien: É claro… sim, sim, sim.

D. Gueroult: Você tem então um carinho particular pelos Hobbits?

J.R.R. Tolkien: Isto é o porquê eu me sinto em casa… olhe, O Condado é muito parecido com o tipo de mundo no qual pela primeira vez eu fiquei ciente das coisas. O que era, talvez, mais agudo para mim pois eu não havia nascido nele. Eu nasci em Bloomsdale, na África do Sul. Eu era muito jovem quando eu voltei, mas ao mesmo tempo isso morde a sua memória e a sua imaginação, mesmo se você não pensa que isso o faz. Se a sua árvore de Natal é um eucalipto e se você normalmente é incomodado pelo calor e pela areia… então, ter exatamente a idade na qual a imaginação está se abrindo, e de repente você se encontra numa calma vila em Warwickshire, eu creio que isso engendra um amor particular pelo que você pode chamar de terras médias do interior inglês (*Midlands English Countryside). Baseadas em boa água, pedras e olmos e pequenos rios silenciosos e assim por diante, e é claro, pessoas rústicas.

D. Gueroult: Com que idade você veio para a Inglaterra?

J.R.R. Tolkien: Eu suponho… que tinha uns três anos e meio. Muito marcante é claro, porque é uma das coisas que as pessoas dizem que não se lembram. É como fotografar constantemente a mesma coisa sobre a mesma chapa. Leves mudanças simplesmente fazem um borrão. Mas se uma criança passa por uma ruptura repentina como essa, isso é consciente. O que se tenta fazer é encaixar as novas memórias nas velhas. Eu tenho a perfeitamente clara e vívida imagem de uma casa, que agora eu sei que é de fato um belo trabalho em pastiche da minha própria casa em Bloemfontein e da casa da minha avó em Birmingham. Eu ainda posso me lembrar de descer a estrada em Birmingham imaginando o que teria acontecido à grande galeria, o que teria acontecido à varanda. Consequentemente eu me lembro das coisas extremamente bem; posso me lembrar de tomar banho no Oceano Índico, eu ainda não tinha dois anos e eu me lembro disso claramente.

D. Gueroult: Frodo aceita o fardo do Anel e ele incorpora, como um personagem, as virtudes do longo sofrimento e da perseverança, e pelas suas ações alguém poderia dizer, em um sentido budista, que ele “adquire mérito”. Ele se torna, de fato, quase uma figura crística. Por que você escolheu um halfling, um Hobbit, para este papel?

J.R.R. Tolkien: Eu não fiz isso. Eu não fiz muitas escolhas. Eu escrevi O Hobbit, entende… tudo que eu estava tentando fazer era continuar do ponto onde O Hobbit havia terminado. Eu tinha Hobbits nas minhas mãos, não tinha?

D. Gueroult: De fato, mas não havia nada particularmente “crístico” sobre Bilbo?

J.R.R. Tolkien: Oh, não.

D. Gueroult: Não?

J.R.R. Tolkien: Não.

D. Gueroult: Mas face ao mais apavorante perigo ele continua lutando e segue em frente, e vence.

J.R.R. Tolkien: Mas isso parece, eu suponho, mais como uma alegoria à raça humana. Eu sempre fiquei impressionado por nós estarmos aqui sobrevivendo por causa da indomável coragem de pessoas bem pequenas contra obstáculos impossíveis: selvas, vulcões, bestas selvagens… elas continuam lutando, quase que cegamente, de certo modo.

D. Gueroult: Eu pensei que, concebivelmente, Midgard poderia ser a Terra-Média ou ter alguma conexão.

J.R.R. Tolkien: Oh sim, elas são a mesma palavra. A maioria das pessoas tem cometido esse erro de pensar que a Terra-Média é um particular tipo de Terra ou é outro planeta de algum tipo de ficção científica, mas é somente uma palavra à moda antiga para esse mundo no qual vivemos, como imaginado, cercado pelo Oceano.

J  R  R Tolkien

D. Gueroult: Me pareceu que a Terra-Média era em algum sentido, como você diz, este mundo no qual vivemos, mas este mundo no qual vivemos numa diferente era.

J.R.R. Tolkien: Não. Um diferente estágio de imaginação, sim.

D. Gueroult: Era a sua intenção que certas raças de O Senhor dos Anéis incorporassem certos princípios: a sabedoria dos Elfos, a perícia no ofício dos Anões, a prática da pecuária e da agricultura e a batalha para os Homens, e assim por diante?

J.R.R. Tolkien: Eu não tive a intenção. Mas quando você tem esses povos em suas mãos, você tem que fazê-los diferentes, não tem? Bem, é claro, como todos nós sabemos, ultimamente nós temos somente a humanidade para trabalhar. Nós só temos argila. Nós todos deveríamos… ou ao menos uma grande parte da raça humana… gostaria de ter um maior poder mental, um maior poder de arte, pelos quais a fenda entre a concepção e o poder de execução poderia ser encurtada. E nós poderíamos gostar de um tempo mais longo, se não um tempo indefinido, no qual seguir adiante, sabendo mais e fazendo mais. Portanto fizemos os Elfos imortais, em certo sentido. Eu tive que usar imortal, eu não quis dizer que eles eram eternamente imortais, meramente que eles são bem longevos e que sua longevidade provavelmente dura tanto tempo quanto a habitabilidade da Terra. Os Anões, é claro que é bem obvio, sim. Você não poderia dizer que eles te lembram os Judeus? Suas palavras são obviamente semíticas, construídas para serem semíticas. Hobbits são somente o rústico povo inglês, feitos em tamanho menor pois isto reflete, em geral, o pequeno alcance da imaginação deles. Não o pequeno alcance da sua coragem ou do talento potencial.

D. Gueroult: Esta parece ser uma das maiores forças do livro, este enorme conglomerado de nomes. Alguém não fica perdido? Ao menos depois da primeira leitura, depois da segunda leitura do livro…

J.R.R. Tolkien: Eu fico muito grato por você ter me dito isso, porque eu tive um grande problema. Isso também me dá grande prazer, um bom nome. Eu sempre começo a escrever com um nome; me dê um nome e isso cria uma história, não do jeito inverso, normalmente.

D. Gueroult: Das línguas que você conhece, qual era de maior ajuda para você durante a escrita de O Senhor dos Anéis?

J.R.R. Tolkien: Oh, Senhor… Sim… obviamente as línguas modernas. Eu deveria ter dito que o Galês sempre me atraiu pelo seu estilo e sonoridade mais do que qualquer outra, sempre, desde a primeira vez que a vi em caminhões de carvão, eu sempre quis saber do que se tratava.

D. Gueroult: Me parece que certamente a música de Gales vem através dos nomes que você escolheu para as montanhas e para os lugares em geral. Você reconhece isto?

J.R.R. Tolkien: Muito. Mas uma mais rara no entanto potente influência sobre mim tem sido o Finlandês.

D. Gueroult: O livro pode ser considerado como uma alegoria?

J.R.R. Tolkien: Não. Eu repugno alegorias, sempre que eu farejo uma.

D. Gueroult: Você considera o declínio do mundo como o declínio da Terceira Era em seu livro? E você vê uma Quarta Era para o mundo neste momento; nosso mundo?

J.R.R. Tolkien: Na minha idade eu sou exatamente o tipo de pessoa que já passou por um dos mais rápidos períodos de mudança conhecidos pela História. Certamente nunca poderia ter acontecido tanta mudança em dezessete anos.

D. Gueroult: Há uma qualidade outonal permeando todo O Senhor dos Anéis, em um caso um personagem diz que a história continua mas eu pareço ter caído fora dela… De todo modo, todas as coisas declinam, apagam, ao menos a respeito do fim da Terceira Era. Toda escolha tende à perturbação de alguma tradição. Agora isso me parece ser de alguma forma como Tennyson: “a velha ordem mudou, cedendo lugar à nova, e Deus completa a si mesmo de muitas formas”. Onde está Deus em O Senhor dos Anéis?

J.R.R. Tolkien: Ele é mencionado uma ou duas vezes.

D. Gueroult: Ele é o Um?

J.R.R. Tolkien: Sim. O Um.

D. Gueroult: Você é, de fato, um teísta?

J.R.R. Tolkien: Oh, eu sou um Católico Romano. Um devoto Católico Romano.

D. Gueroult: Você deseja ser lembrado principalmente pelos seus escritos de filologia e outras matérias ou pelo Senhor dos Anéis e O Hobbit?

J.R.R. Tolkien: Eu não deveria ter pensado que havia muita escolha nesse assunto. Se eu for lembrado de todo, será através de O Senhor dos Anéis, eu escolho isso. Não será um pouco como no caso de Longfellow? Pessoas lembram que Longfellow escreveu Hiawatha, geralmente esquecem que ele era um Professor de Línguas Modernas!

Caso queira escutar o áudio da entrevista, em inglês, aqui está o link.

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Se quer tirar mel, não espante a colmeia.

Excertos do primeiro capítulo do livro Como fazer amigos e influenciar pessoas, de Dale Carnegie.

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No dia 7 de maio de 1931 a cidade de Nova York testemunhou a mais sensacional caçada humana de que a velha metrópole já teve notícia. Depois de semanas de procura, Crowley – alcunhado “Two Gun”, o assassino que não fumava nem bebia – fora localizado e cercado no apartamento de sua namorada em West End Avenue. Cento e cinqüenta policiais e detetives dirigiram o cerco ao seu esconderijo no último andar do prédio. Depois de abrirem buracos no teto, procuraram alcançar Crowley, “o rei dos matadores”, com gás lacrimogêneo. Armaram então suas metralhadoras nos edifícios vizinhos, e por mais de uma hora uma das zonas residenciais mais finas de Nova York esteve em rebuliço com os tiros de pistolas e o ra-tá-tá das metralhadoras. Crowley, agachado atrás de uma cadeira estofada, atirava incessantemente contra a polícia. Dez mil pessoas emocionadas assistiam à batalha. Nada parecido havia sido visto antes nas ruas de Nova York.

Quando Crowley foi capturado, o comissário de polícia Mulrooney declarou que o celerado “Two Gun” era um dos elementos mais perigosos na história do crime em Nova York. “Ele matará”, disse o comissário, “no cair de uma pena”. Mas como Crowley, o “Two Gun”, se considerava a ‘si mesmo? Nós o sabemos, porque enquanto a polícia estava atirando contra o seu apartamento ele escreveu uma carta endereçada “a quem possa interessar”. E, ao escrevê-Ia, o sangue que corria de um dos seus ferimentos deixou um rastro carmesim no papel. Nesta missiva Crowley disse: “Debaixo do meu casaco há um coração fatigado, mas bondoso – um coração incapaz de fazer mal a qualquer pessoa”.

Pouco tempo antes, estava Crowley namorando a garota numa estrada no campo em Long Island. Subitamente um policial dirigiu-se para o carro estacionado e pediu: “Deixe-me ver sua licença”. Sem dizer uma só palavra, Crowley sacou sua arma e derrubou o policial com um tiro. Quando a moribunda autoridade caiu, Crowley saltou do carro, tirou o revólver do policial e deu outro tiro no corpo, que se achava prostrado. E era este assassino quem dizia: “Debaixo do meu casaco há um coração fatigado, mas bondoso – um coração incapaz de fazer mal a qualquer pessoa”.

Crowley foi condenado à cadeira elétrica. Ao chegar à câmara da morte, na prisão de Sing-Sing, teria ele exclamado: “Isto é o que consegui por matar pessoas“? Em absoluto, ele disse: “É o que consegui por defender-me”.

0 ponto interessante do caso é o seguinte: “Two Gun” não se culpava por coisa alguma. Será esta atitude pouco comum entre os criminosos? Se pensa assim, leia o seguinte:

“Passei os melhores anos da minha vida proporcionando os mais verdadeiros prazeres ao povo, ajudando-o a divertir-se, e tudo o que consegui com este meu gesto foi insultos e a existência de um homem caçado”.

Foi Al Capone quem falou assim. Sim, o até então Inimigo Público Número Um da América do Norte, o mais sinistro chefe de gangsters que apareceu em Chicago. Capone não se condena. Julga-se um benfeitor público – um benfeitor público mal apreciado e mal compreendido.

E o mesmo fez Dutch Schultz antes de baquear atingido pelas balas dos gangsters em Newark. Dutch Schultz, um dos mais notáveis larápios de Nova York, declarou numa entrevista aos jornais que ele era um benfeitor público. E acreditava nisto. Mantive uma interessante correspondência sobre o assunto com Lewis Lawes, o diretor da infamante prisão de Sing-Sing durante anos. Afirmou-me ele que “poucos criminosos em Sing-Sing se consideram más pessoas. São tão humanos como você e eu. Por isso justificam e explicam. Eles podem dizer-lhe por que foram rápidos no apertar o dedo no gatilho. A maioria deles tenta, por uma forma de raciocínio, falsa ou lógica, justificar seus atos anti-sociais para si mesmos e, conseqüentemente, sustentam com arrogância que não deviam estar presos”.

Se Al Capone, Crowley, o “Two Gun”, Dutch Schultz e os homens e mulheres desesperados que se acham atrás das grades da prisão não se recriminam por coisa alguma – que diremos acerca das pessoas com as quais vocês e eu diariamente estamos em contato?

0 falecido John Wanamaker confessou certa feita: “Eu aprendi há trinta anos que é uma loucura a crítica. já não são pequenos os meus esforços para vencer minhas próprias limitações sem me amofinar com o fato de que Deus não realizou igualmente a distribuição dos dons de inteligência”.

Wanamaker aprendeu esta lição muito cedo; mas, quanto a mim, errei por este velho mundo durante um terço de século até que ele mesmo começou a ensinar-me que, noventa e nove vezes em cem nenhum homem já se criticou por coisa alguma, não importando quanto possa ela estar errada.

A critica é fútil porque coloca um homem na defensiva e, usualmente, faz com que ele se esforce para justificar-se. A crítica é perigosa porque fere o precioso orgulho do indivíduo, alcança o seu senso de importância e gera o ressentimento.

B. F. Skinner, o mundialmente famoso psicólogo, através de seus experimentos demonstrou que um animal que é recompensado por bom comportamento aprenderá com maior rapidez e reterá o conteúdo aprendido com muito maior habilidade que  um animal que é castigado por mau comportamento. Estudos recentes mostram que o mesmo se aplica ao homem.

Através da crítica não operamos mudanças duradouras e amiúde ocorre o ressentimento.

Hans Selye, outro notável psicólogo, afirmou: “Com a mesma intensidade da sede que nós temos de aprovação, tememos a condenação”.

George B. Johnston, de Enid, Oklahoma, trabalha como coordenador da segurança de uma empresa de engenharia. Entre as suas responsabilidades, está a fiscalização que busca garantir que todos os empregados, ao trabalharem no campo, usem seus capacetes. Segundo ele, ao deparar com os trabalhadores sem capacete impunha-lhes sua autoridade ao falar sobre o regulamento e exigia-lhes que o cumprissem rigorosamente. Como resultado, obtinha obediência imediata, mas tão logo se afastava os operários retiravam seus capacetes.

Decidiu por isso experimentar uma abordagem diferente. Na primeira oportunidade em que viu alguns dos trabalhadores infringindo os regulamentos, perguntou-lhes se o capacete era desconfortável ou se ele não se ajustava às suas cabeças. Em seguida lembrou-lhes, empregando um tom de voz agradável, que os capacetes tinham a função de prevenir acidentes e sugeriu que eles os usassem, para seu próprio bem, durante o período de trabalho. 0 resultado foi um aumento da observância do regulamento, sem que surgissem ressentimentos ou perturbações emocionais.

[…]

Na manhã de um sábado, 15 de abril de 1865, agonizava Abraham Lincoln num quarto de modesta casa de cômodos que ficava em frente ao Teatro Ford, onde John Wilkes Booth o alvejara.

0 enorme corpo de Lincoln estava estendido diagonalmente em uma desconjuntada cama, muito pequena para ele. Uma reprodução barata do famoso quadro de Rosa Bonheur, The Horse Fair, estava à cabeceira da cama e a pálida chama amarela do bico de gás iluminava veladamente o ambiente. Quando Lincoln agonizava, disse o Sr. Stanton, ministro da Guerra: “Aqui está o mais perfeito governante que o mundo já viu”.

Qual o segredo de Lincoln no seu êxito no trato com os homens? Estudei a vida de Abraham Lincoln durante dez anos, dediquei três anos inteiros escrevendo e reescrevendo um livro intitulado: Lincoln, esse desconhecido. Creio ser este o mais detalhado e exaustivo estudo sobre a personalidade de Lincoln e sua vida no lar que um ser humano podia realizar. Fiz um estudo especial do método de Lincoln lidar com os homens. Gostava ele da crítica? Oh, sim. Quando ainda jovem, no Pigeon Creek Valley, de Indiana, não somente criticou mas escreveu cartas e poemas ridicularizando e jogando essas cartas nas estradas, em pontos onde tinha a certeza de que seriam encontradas. Uma delas provocou ressentimentos que duraram toda a vida. Mesmo depois de estar advogando em Springfield, Illinois, Lincoln atacava seus adversários abertamente em cartas que publicava nos jornais. Fez isso por muitas vezes.

No outono de 1842, ridicularizou um belicoso politico irlandês chamado James Shields. Lincoln satirizou-o numa carta anônima publicada no Springfield Journal. A cidade riu às gargalhadas. Shields, sensível e orgulhoso, foi presa fácil da indignação. Descobriu o autor da carta, montou no seu cavalo, procurou Lincoln e desafiou-o para um duelo. Lincoln não queria lutar. Era contra os duelos, mas não pôde recusar, pois se tratava de sua honra. Coube a Lincoln escolher a arma. Confiando na extensão de seus braços, escolheu as compridas espadas de cavalaria; tomou lições no manejo da mesma com um graduado de West Point. No dia designado, ele e Shields se encontraram num trecho de areia do rio Mississipi, dispostos a lutar até a morte; no último minuto, porém, os padrinhos resolveram suspender o duelo. Este foi o mais triste incidente pessoal da vida de Lincoln. Foi, porém, para ele, uma valiosa lição na arte de tratar as pessoas. Nunca mais escreveu uma carta insultuosa. Nunca mais ridictaarizou ninguém. E, desde então, jamais criticou qualquer pessoa por coisa alguma.

De tempos em tempos, durante a Guerra Civil, Lincoln colocou sucessivamente, à testa do exército do Potomac, vários generais, e todos eles – McClellan, Pope, Burnside, Hooker, Meade – erraram tragicamente, levando Lincoln a andar de um lado para outro em desespero. Metade da nação condenava rancorosamente os incompetentes generais, mas Lincoln, “com malignidade para nenhum e com caridade para todos”, manteve-se em paz. Uma das máximas que sempre repetia era: “Não julgueis, se não quiserdes ser julgados”.

E, quando a Sra. Lincoln e outros falavam asperamente dos sulistas, Lincoln replicava: “Não os critiquem; são eles exatamente o que nós seríamos sob idênticas condições”. Contudo, se algum homem teve oportunidade para criticar, certamente este homem foi Lincoln. Tomemos apenas um exemplo:

A batalha de Gettysburg foi travada durante os três primeiros dias de julho de 1863. Durante a noite de 4 de julho, Lee começou a retirar-se para o sul, enquanto tempestades de chuva inundavam todo o país. Quando Lee, com o seu exército vencido, chegou ao Potomac, deparou com um rio transbordante, impossível de ser transposto, e o exército vitorioso da União à retaguarda. Lee caíra numa armadilha. Não podia escapar. Lincoln viu isso. Era uma oportunidade única, concedida pelos céus – a oportunidade para capturar o exército de Lee e pôr, imediatamente, um ponto final na guerra. Assim, empolgado pela realização da grande esperança, Lincoln ordenou a Meade atacasse Lee sem demora, sem mesmo ouvir um conselho de guerra para tomar tal decisão. Lincoln mandou suas ordens pelo telégrafo e um mensageiro especial foi enviado a Meade, pedindo uma ação imediata. E que fez o general Meade? Justamente o oposto. Convocou um conselho de guerra, em flagrante violação às ordens de Lincoln. Hesitou. Retardou. Telegrafou toda espécie de desculpas. Recusou atender à ordem de atacar Lee. Finalmente, as águas baixaram e Lee escapou pelo Potom, com suas forças.

Lincoln ficou furioso. “Que significa isso?”, gritou para seu filho Robert. “Grande Deus! Que significa isso? Tivemos os inimigos em nossas mãos, apenas precisávamos apertar o cerco para que se rendessem; além disso, nada do que eu disse ou fiz pôde fazer o exército movimentar-se. Em tais condições qualquer general teria derrotado Lee. Se eu tivesse ido lá, eu mesmo o surraria.”

Tomado do maior desapontamento, Lincoln sentou-se e escreveu a Meade. Convém notar que, neste período de sua vida, Lincoln já era extremamente prudente e muito comedido na sua linguagem. Desse modo, a carta que se segue, escrita por Lincoln, em 1863, era uma evidência de sua mais severa censura.

“Meu caro general: Não posso acreditar que o senhor haja compreendido a extensão do infortúnio no tocante a fuga de Lee. Ele esteve nas suas mãos e se tivesse apertado o cerco, com os seus últimos sucessos, o de agora representaria o fim da guerra. Mas, depois do que sucedeu, a guerra prolongar-se-á indefinidamente. Se o senhor não pôde atacar Lee, segunda-feira passada, com certeza de vitória, como poderá fazê-lo no sul do rio, quando poderá contar com muito menor força – apenas dois terços da tropa que estava em suas mãos? Nada justifica tal esperança e eu não acredito que o senhor possa agir com eficiência. Sua oportunidade áurea já passou, e eu me confesso verdadeiramente sentido com isso”.

Que supõe o leitor haver feito Meade ao ler tal carta? Meade nunca viu esta missiva. Lincoln nunca a enviou ao seu destinatário. Ela foi encontrada entre os papéis de Lincoln, depois de sua morte.

Minha opinião é que – e é apenas uma opinião -, depois de escrever a carta, Lincoln olhou para fora das janelas e disse para si mesmo: “Espere um minuto. Talvez eu não deva se rtão temerário. É muito fácil para mim, comandante, sentado aqui na Casa Branca, dar ordens a Meade para atacar; mas se eu estivesse lá em Gettysburg, e tivesse visto tanto sangue como Meade viu durante a última semana, e os meus ouvidos estivessem ainda cheios de gritos e gemidos dos feridos e dos moribundos, talvez eu não sentisse tanta ânsia _para atacar. Se eu tivesse o temperamento tímido de Meade, talvez fizesse justamente o que ele fez. De qualquer modo, a água já está embaixo da ponte. Se eu mando esta carta, ela aliviará meus sentimentos, mas fará também com que Meade procure justificar-se. Fará Meade condenar-me. A carta provocará ressentimentos incompatíveis com a sua qualidade de comandante e poderá forçá-lo a renunciar ao seu posto no exército”. Assim, como eu já disse, Lincoln atirou a carta para o lado, porque aprendera, numa dura experiência, que as críticas violentas e as repreensões redundam sempre em futilidade.

Theodore Roosevelt disse que quando, como presidente, se defrontava com certos problemas complexos, costumava virar-se para trás e olhar para um grande retrato de Lincoln que fica atrás da cadeira presidencial na Casa Branca e perguntar a si mesmo: “Que faria Lincoln se estivesse em meu lugar? Como resolveria ele este problema?” A próxima vez que estivermos tentados a “passar um sabão” em alguém, façamos o seguinte: tiremos uma nota de cinco dólares do bolso e perguntemos, olhando a efígie de Lincoln impressa na cédula: “Como Lincoln resolveria este problema? Que faria ele em meu lugar?”

Mark Twain às vezes perdia a calma e escrevia cartas cujo conteúdo chegava a deixar o papel enrubescido. Para dar um exemplo, certa vez ele escreveu a um homem que o provocara: “Está me solicitando os seus próprios funerais. Eu os providenciarei assim que você voltar a abrir a boca contra mim”. Em outra ocasião escreveu a um editor a respeito das tentativas de um revisor de “melhorar minha ortografia e pontuação”. Ele determinou o seguinte: “Doravante encerre essa questão seguindo à risca meus manuscritos e certifique-se de que o revisor conservará as sugestões dele na papa do cérebro deteriorado que só a ele pertence”.

Mark Twain sentia-se aliviado depois de tais provocações por carta. As cartas permitiam-lhe desabafar-se e, ademais, não causavam dano real algum, uma vez que a esposa de Mark, secretamente, as retirava dentre a correspondência postal. Assim, jamais chegaram a ser enviadas.

Você conhece alguém a quem deseja modificar, aconselhar e melhorar? Excelente! Isso é muito bom. Estou inteiramente a favor. Mas por que não começar por si mesmo? De um ponto de vista eminentemente egoísta é muito mais proveitoso do que experimentar melhorar os outros – sim, e um pouco menos perigoso. “Não se queixe da neve no telhado da casa do seu vizinho, quando a soleira da sua porta não está limpa”, disse Confúcio.

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A Kind of Magic…

Friso ainda que futuramente, se for possível, gostaríamos de iniciar uma experiência social semelhante à de Crowley em Céfalu.”

Paulo Coelho para Euclydes Lacerda – 18/04/1974

A RECOMPENSA DO GIGANTE

A filosofia de Thelema (Θελεμα, em grego, “vontade”) de Edward Alexander “Aleister” Crowley foi inspirada em um dos capítulos da fantasiosa crônica “Cinco Livros sobre as vidas, feitos heróicos e ditos de Gargantua e seu Filho Pantagruel”, obra do francês François Rabelais[7] na segunda metade do século XVI.

No fim do livro I, o autor narra que ao derrotar um rei inimigo, o gigante conquistador Gargantua oferece a seus principais ajudantes enormes recompensas em terras e dinheiro. A um monge que participara da guerra a seu lado, oferece o controle de toda abadia sob seus domínios, que se estendem até perder de vista. O monge, porém, recusa-se a governar outros religiosos.

Como posso ser capaz de comandar os outros se nem tenho controle total sobre mim mesmo?”, rebate, e pede que Gargantua permita a construção de uma abadia diferente de todas as outras, onde as pessoas não seriam obrigadas a votos de castidade, pobreza e obediência e poderiam juntar-se ao monastério e abandoná-lo de acordo com sua vontade.

A primeira referência aparece no capítulo 52, “Como Gargantua fez ser construída para o Monge a “Abadia de Thelema”. Em seguida, Rabelais conta “Como a abadia dos Thelemitas foi construída e guarnecida” (capítulo 53), descrevendo em minúcias as belezas e riquezas da construção e mostra “A inscrição colocada sobre o grande portão de Thelema” (capítulo 54), que, em forma de poema, trata jocosamente das diversas personas cujas presenças seriam bem-vindas à abadia ou banidas dela. As duas listas são longas.

O autor conta “Que maneira de viver os thelemitas tinham” (capítulo 55), repletas de imagens de abundância, “Como os homens e mulheres da ordem religiosa de Thelema estavam vestidos” (capítulo 56), onde prosseguem as descrições de belezas e riquezas infindáveis. Por fim, “Como os thelemitas eram governados, e de sua maneira de viver”. Lá, proclamava Rabelais, a vida não seria “gasta em leis, estatutos, ou regras”. Não havia horários pré-estabelecidos para dormir, beber, comer, trabalhar ou dormir, nem poderia haver relógios, pois gastar tempo contando-o era um exemplo perfeito de futilidade.

Só havia uma cláusula a ser observada:

Faze o que tu queres.

Pois homens que são bem nascidos, bem criados, e acostumados a companhias honestas, têm naturalmente um instinto que as impele a ações virtuosas e os afasta dos vícios, que é chamado honra.

O resultado deste sistema libertário, segundo a descrição do médico e escritor francês, idealizada em meio à sátira aos costumes pródigos de determinados monges do século XVI, seria uma versão ainda mais romantizada da mítica Camelot dos bretões. “Nunca foram vistos cavaleiros tão valorosos, tão nobres e dignos (…) Nunca foram vistas mulheres tão apropriadas e belas”. A partir de 1904, as palavras de Rabelais ecoariam e se tornaram realidade – não tão romântica quanto em sua obra – justamente na Inglaterra. Seu realizador, no entanto, estava longe dos ideais de nobre cavaleiro medieval preconizados pelo Monge que recebeu a recompensa de Gargantua.

Simpatia pela Besta

A história de Crowley é amplamente documentada e frequentemente lida sob vieses negativos. Foi uma personalidade escandalosa para sua época e habitat, a então sisuda e puritana Inglaterra do fim do século 19 – nasceu em 12 de outubro de 1875 – e começo do século 20 – morreu em 1 de dezembro de 1947. Enquanto era vivo, já pesava sobre ele a acusação de satanista, que ora refutava ora incentivava. A definição se tornou indelével depois que suas práticas inspiraram cultos deturpados de suas teses originais, como o da família Manson, responsáveis por crimes bárbaros na década de 1960, e a Igreja de Satã de Anton Szandor La Vey[8], ícone do hedonismo narcisista que encantou alguns hollywoodianos.

Herdeiro de uma pequena fortuna ao ficar órfão, Crowley chegou à juventude dando provas de voracidade espiritual, intelectual e sexual incomuns. Em Trinity College, Cambridge, onde estudou, conheceu dois jovens que o levaram a conhecer a Ordem Hermética da Aurora Dourada[9] (Hermetic Order of Golden Dawn). Juntou-se em 1898 ao clube secreto de nobres e intelectuais europeus que se dedicava a estudar os mistérios antigos do Egito e práticas de meditação orientais com ramificações filosóficas.

Em pouco tempo, Crowley se destacou no grupo, alcançando os graus mais elevados. Ao chegar no topo, entrou em conflito com os mais antigos da ordem, especialmente com o líder do grupo, o escocês Samuel Liddell Mathers[10]. Expulso, tomou uma atitude impensável nos meios ocultistas, no qual o conhecimento é geralmente considerado como algo reservado a poucos “capazes de lidar com as enormes complexidades da existência”. Publicou, em uma compilação intitulada The Equinox[11] (O Equinócio) todos os rituais da Aurora Dourada, descritos em detalhes, eliminando para sempre o caráter “secreto” de que a ordem até então dispunha.

Não foi uma simples vingança, como muitos sugeriram, mas o princípio de uma mudança de paradigma. Àquela época, a transmissão de conhecimentos básicos, como as relações numéricas entre as letras hebraicas e os números, base da Cabala, era reservado aos “merecedores”. Crowley foi o primeiro a tornar transparente uma organização secreta, cujo maior “ativo” por definição é o sigilo de palavras e gestos de identificação (“de passe”, as populares senhas) e os rituais que praticava.

Insatisfeito com a experiência da Golden Dawn, Crowley criou seu próprio grupo, a Astrum Argentum, com uma estrutura diferente. Os iniciados não mantém contato como grupo, não há reuniões e cada integrante conhece apenas seu iniciador e seus iniciados – pelo menos, em tese. Na organização, aplicava o conceito de Thelema e de magick, que formulou a partir de 1904, em uma viagem ao Egito com a primeira esposa, Rose Kelly. De volta à Inglaterra, Crowley apresentou ao seu instrutor, George Cecil Jones, um livro que disse ter sido comunicado a ele por uma entidade “preternatural” intitulada Aiwass (um fundamental trocadilho com “I was”, eu era) ditado pela essência do escriba dos deuses do Egito, Ankh-f-n-Khonsu, refletindo as palavras dos próprios Ísis, Osíris e Hórus. Jones recebeu a obra com desdém: ”Eu não aprecio poesia”. Algum tempo se passaria até que adotassem a lei de thelema.

O próprio título tinha uma explicação que desafiava os que ousassem lê-lo: “Liber AL vel Legis sub figurâ CCXX [220], como entregue por XCIII [93] = 418 a DCLXVI [666]”. O número 220 aludia à quantidade de versos espalhados ao longo dos três capítulos que descrevem as diferentes eras (æons, em grego) da humanidade. O 93 se tornaria um número precioso para os nascentes thelemitas, representando a soma da palavra da Lei, Thelema (Vontade, em grego), e passando a ser usado como saudação. O 418 representava um personagem-chave da trama, e o 666 era o novo título de Crowley, perfeito para chocar a sociedade vitoriana.

A frase tão repetida nas músicas de Raul Seixas, via de regra, é citada fora de seu contexto. Encontra-se no primeiro capítulo do Livro da Lei, na “manifestação de Nuit” (Ísis), o primeiro æon, da energia feminina, que anuncia ser Thelema a “palavra da lei”. Ela afirma que chamá-los (os seguidores desta, presume-se) de “thelemitas” não seria um erro, mas alerta que a palavra conteria três graus, ou facetas: o eremita, o amante e o homem da terra. No original, a frase em questão é Do what thou wilt shall be the whole of the Law. Na tradução de Marcelo Ramos Motta, Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Nuit/Ísis explica que se a palavra da Lei é Vontade, a do Pecado é a Restrição. Incentiva os maridos a não recusarem suas esposas, e os amantes a partirem, se assim quiserem. “Não há laço que possa unir os que estão divididos a não ser o amor. Todo o resto é maldição”, sentencia, seguido de um praguejar contra os “malditos”. A deusa continua, dizendo que uma pessoa não tem direito a não ser fazer o que quiser, e que, fazendo isto, não seria contrariado por ninguém. “Pois a vontade pura, desembaraçada de propósito e livre do desejo de resultado, é todavia perfeita”, condiciona, estabelecendo os elementos básicos para que a vontade seja considerada verdadeira dentro do sistema. Pura, desembaraçada de propósito e livre do desejo de resultado.

No segundo capítulo, sob a manifestação de Hadit (Osíris), as palavras se tornam mais ásperas. Neste æon, o poder masculino torna-se proeminente. Surge a divisão entre fortes e fracos, servos e escravos. Surge então outra frase que ecoaria nos ouvidos da juventude de 1970 em diante: “Nada temos com o pária e o incapaz: deixe-os morrer em sua miséria. Pois eles não sentem. Compaixão é vício de reis: pisai o retorcido e o fraco: esta é a lei do forte: esta é a nossa lei e alegria do mundo.”

Adiante, apesar de confirmar que existe uma divisão incontornável entre dominante e dominado, alerta para a possível falsidade das aparências: “Portanto os reis da terra serão Reis para sempre: os escravos servirão. Não há o que deva ser rebaixado ou elevado: tudo é como sempre foi. No entanto, há mascarados, meus servos: pode ser que aquele mendigo seja um Rei. Um Rei pode escolher sua vestimenta como quiser: não há teste seguro: mas um mendigo não consegue esconder sua pobreza”.

O terceiro æon, de Ra-Hoor Khuit (Hórus), é sem dúvida onde se encontram as palavras mais duras. “Que primeiro seja compreendido que sou um deus da Guerra e da Vingança. Eu lidarei duramente com eles”, proclama. Adiante, depois de uma série de instruções de acordo com o espírito enunciado, o irado deus falcão faz uma advertência:

Não recuses ninguém, mas tu deverás conhecer & destruir os traidores. Eu sou Ra-Hoor-Khuit; e eu sou poderoso para proteger meus servos. Sucesso é tua prova: não discutas; não convertas; não fales demais! Eles que procuram te emboscar, te suplantar, ataca-os sem piedade ou misericórdia; & destrua-os inteiramente. Suave como uma serpente enrodilhada, vire-se e ataque! Seja mais mortal ele! Arraste suas almas para eterno tormento: ria do medo deles, cuspa neles!

Ao fim do livro, um recado ameaçador, o Comentário. Nele, o mesmo escriba dos deuses que acabara de colocar no papel todas essas mensagens proibia o estudo do Livro, dizendo ser prudente destruir a cópia após a primeira leitura. “Quem desconsidera isto o faz por seu próprio risco e perigo. Estes são os mais terríveis. Todos os que discutem os conteúdos deste livro devem ser evitados por todos, como focos de pestilência”.

Apesar da proibição, ou talvez por causa dela, Crowley foi recebido pelos ocultistas como o “profeta, vate e apóstolo” que se intitulava, supostamente de forma retórica, no Livro da Lei. Passou a comportar-se como tal. Criou sua ordem, a Astrum Argentum (A∴A∴), em 1907. Três anos depois, ao publicar um livro em que insinuava, metaforicamente, a utilização da energia gerada pelo ato sexual para a realização de um objetivo específico, dentro de um ritual mágico, foi convidado a ingressar na Ordo Templi Orientis (O.T.O.), organização de origem alemã cujos níveis mais elevados desembocavam na magia sexual.

Para Euclydes, o Livro da Lei marcava, simbolicamente, a época em que o ser humano devia assumir responsabilidade por seus atos, em vez de atribuí-los a poderes superiores. O desenvolvimento completamente novo era uma espécie de religião baseada não no temor do castigo divino ou universal, mas na expressão daquilo que representasse a verdadeira vontade de cada um. Era o segundo rompimento de Crowley com a “velha ordem” da magia, do segredo. O juramento da A∴ A∴, explicou-me, continha a frase “mistério é inimigo da verdade”. “Na primeira vez que li, eu realmente destruí o livro, coloquei fogo. Aí, liguei para o Marcelo e contei o que tinha feito. Ele riu e disse: Vou te mandar outra cópia.”

Assim como ocorreu na Aurora Dourada, Crowley rapidamente dominou o que a O.T.O tinha a oferecer. Tornou-se líder da ordem na Inglaterra, e depois, passou a ameaçar o poder dos prussianos Theodor Reuss e Carl Kellner, que iniciaram a ordem em 1902, adquirindo permissões para estabelecer grupos com base em dois ramos da Maçonaria: os ritos de Mênfis e Misraim e o Rito Escocês Antigo e Aceito. Não demorou até que houvesse um rompimento com o grupo que se recusou a aceitar a Lei de Thelema como base dos trabalhos iniciáticos, e ele reivindicasse para si o título de Cabeça Externa da Ordem (OHO, na sigla em inglês).

Os detratores do bruxo inglês sequer precisavam se esforçar para fuçar motivos para condená-lo como herege, pervertido sexual, drogado. Ele mesmo fornecia os elementos para as acusações, em seus muitos escritos. Sua extensa aubiografia, reveladoramente denominada “Confissões” (Confessions of Aleister Crowley, sem tradução em português), traz detalhamento e distanciamento talvez jamais vistos numa autobiografia. Ou, como ele debochadamente a classificou, uma “auto-hagiografia”, tomando emprestado o termo usado pelos católicos para as biografias de beatos, santos, mártires e demais devotos fervorosos.

Era uma personalidade desafiadora da religião desde a infância, conforme seu próprio relato minucioso. Criado por pais ultrarreligiosos integrantes da seita protestante Irmandade de Plymouth, Crowley se rebelava constantemente e acabou ganhando da mãe a alcunha da qual viria a se “gabar” no meio ocultista décadas depois: a Grande Besta do Apocalipse. Nome perfeito para provocar a sociedade vitoriana, ao qual ele acrescentou camadas e camadas de simbolismos mágicos e numerológicos, relacionando-a ao signo de Leão, outro componente astrológico da famosa “Era de Aquário”, na qual supostamente ocorreria a iluminação espiritual da humanidade.

Na Itália, montou sua versão da Abadia de Thelema, numa vila portuária chamada Céfalu, na Sicília, banhada pelo mar Tirreno. A população, que hoje provavelmente não passa dos 15 mil habitantes, certamente era bem menor em 1920. O local era denominado oficialmente Collegium ad Spiritum Sanctum, onde Crowley e sua então esposa, Leah Hirsig, preconizavam adorações ao sol, exercícios de yoga e outras práticas rituais – algumas envolvendo atos sexuais e outras envolvendo algum tipo de substância inebriante, ainda que fosse o álcool do vinho.

Três anos depois de instalada, já malvista pela comunidade local, a congregação libertária foi abatida pela morte de um de seus estudantes, Frederick Charles Loveday. Retornando à Grã-Bretanha, a esposa dele, Betty Mae Sedgewick, contou ao tablóide (sim, os tabloides já eram o mesmo que hoje na Inglaterra) The Sunday Express a história que todo jornalista sabe que vende: sexo, drogas, magia negra e morte. Ainda que a morte tenha sido causada por uma febre entérica contraída da água de um riacho e o sexo tenha sido consensual entre maiores de idade. Foi expulso da Itália por Benito Mussolini, imediatamente.

Betty Mae lançou ainda um livro, The laughing torso, acusando Crowley de praticar “magia negra”. Crowley respondeu processando-a, bem como os editores e os impressores do livro, mas perdeu. Em 1934, dirigindo-se ao júri, segundo o relato do Sunday Express, o juiz ironicamente chamado Justice Swift (“justiça suave”) foi duríssimo:

Tenho estado há mais de quarenta anos engajado na aplicação da lei de uma maneira ou de outra. Pensei que conhecia toda forma concebível de perversão. Pensei que tudo que era sórdido e ruim haviam sido apresentadas diante de mim uma vez ou outra. Aprendi, neste caso, que sempre podemos aprender algo mais se vivermos o suficiente. Nunca ouvi coisas tão tenebrosas, horríveis, blasfemas e abomináveis como as apresentadas pelo homem que se descreveu para vocês como o maior poeta vivo”.

Crowley acabou considerado culpado de pagar cinco libras por cartas de Betty Sedgewick que poderiam conter informações importantes a serem usadas no tribunal. Resumindo as palavras do juiz, passou a se intitular “o homem mais pervertido do mundo”. Uma explicação para este tipo de comportamento encontra-se no capítulo 53 de sua autobiografia, quando fala sobre o Bagh-i-Muattar, escrito em 1905, no qual inventou o poeta muçulmano do século 17 Abdullah al Haji, suposto autor do livro, bem como um major anglo-indiano que o traduziu e comentou, o editor que completou o trabalho do militar, que teria sido morto na África do Sul, e até um clérigo anglicano para discutir os temas da obra. Sempre imodesto, ele comentou:

Este espasmo de gênio é um eloquente retrato de minha mente nesta época. Eu estava absolutamente convencido da suprema importância de devotar a minha vida a obter Samadhi, a comunhão consciente com a Alma Imanente do Universo. Eu acreditava no misticismo. Entendia perfeitamente a essência de seu método e a importância de sua obtenção, mas me sentia compelido a me expressar de formar satírica e (pode parecer a alguns) quase escandalosa. Eu dava testemunho da tremenda verdade eu empilhava ficção em cima de ficção. Eu não sabia. Eu não suspeitava, mas o Bagh-i-Muattar é um sintoma de suprema significância. Eu estava à beira de um desenvolvimento completamente novo.”

Ao morrer, em 1 de dezembro de 1947, seus discípulos na O.T.O. entraram em disputas explícitas e aguerridas pelo poder. Crowley foi ambíguo em suas declarações sobre quem deveria sucedê-lo. Karl Germer, seu secretário particular, era apontado em um documento como seu “agente e representante”. Grady Louis McMurtry e Kenneth Grant, alunos destacados, foram em diferentes momentos apontados como possíveis continuadores do trabalho mágico.

Germer e o suíço Herman Joseph Metzger, líder do grupo da O.T.O. que não havia aceitado a lei de Thelema, promoveram a reunião das duas correntes. Apesar de recusar, em sua correspondência particular, que Grant o considerasse como superior na ordem, Germer se enfurecer com a aproximação deste a outra corrente e expulsou-o, provocou mais um cisma na ordem. Surgia a OTO do ramo ‘tifoniano’, liderado por Grant.

Para simplificar bastante uma longa e complicada história contada com documentos por Peter König em seu site The OTO Phenomenon[12], após a morte de Germer, houve nova rodada de disputas de poder, das quais Marcelo Motta participou, opondo-se à facção comandada por Grady McMurtry, denominada Califado. Houve ainda uma intrincada disputa pelos direitos autorais das obras de Crowley, constantemente reeditadas mundo afora até o advento da internet, que resultaram, na década de 1980, em processo judicial contra o brasileiro e processo dele contra outros executores literários do inglês. Além dos livros doutrinários de Thelema, a maioria dos quais se encontra disponível gratuitamente online, Crowley legou itens de sucesso comercial, como o baralho de Tarô

Na introdução publicado ao seu Liber 418, trabalho realizado em 1909 com o qual confirmava o Livro da Lei como resultado de uma visão inspirada, Crowley foi taxativo:

Admito que minhas visões possam não significar a outros o mesmo que significaram para mim. Não lamento este fato. Tudo que peço é que meus resultados convençam os buscadores da verdade de que existe algo realmente digno de ser alcançado, podendo usar métodos mais ou menos parecidos com os meus. Eu não quero liderar rebanhos, ser objeto de admiração de tolos e fanáticos ou o fundador de uma fé cujos seguidores são ecos de minhas opiniões. Eu quero que cada homem abra o seu próprio caminho mata adentro”.

Segundo um integrante inativo de um grupo de caráter thelêmico brasileiro, que pediu anonimato, Crowley escondeu a essência do seu pensamento com camadas e camadas de práticas místicas que, realizadas sem o rigor apropriado, podem até ser prejudiciais.

Tem de tudo, porque ele fazia uma grande miscelânea de conhecimentos. A comparação pode parecer esdrúxula, mas Crowley aplicava ao ocultismo e às religiões o que o Bruce Lee faria décadas depois nas artes marciais, absorva o útil, rejeite o inútil. Então, tem meditação, controle da mente, da respiração e da fisiologia, mas tem coisas também que os cristãos podem chamar de demoníaco, as invocações da Goécia, por exemplo, apesar de terem um significado complexo. O pessoal se contenta normalmente em parar nas frases de efeito, mas Crowley deixou as pistas dele espalhadas ao longo de seus trabalhos. É preciso aprender a lê-lo”, afirmou.

A mais equilibrada e precisa definição do sistema aperfeiçoado por Crowley foi provavelmente escrita pelo jornalista Mick Wall, biógrafo da banda de rock Led Zeppelin, criada por Page. Em Quando os gigantes caminhavam sobre a Terra (Editora Larousse), ele explica:

Não estamos falando de bruxaria simples, do tipo que costuma ser encontrado nos romances de Stephen King ou nos filmes de abracadabra de Harry Potter (embora muitos outros livros, filmes e outras famosas obras de arte incorporem elementos do ritual mágicko genuíno. Segundo Eliphas Levi, mágico e escritor do século 19, o conhecimento do oculto – isto é, o conhecimento oculto dos séculos que remonta à era pré-cristã, até a serpente e o Jardim do Éden – é um produto de equações filosóficas e religiosas tão exatas quanto as de qualquer ciência. Além disso, quem for capaz de adquirir tal conhecimento conseguir usá-lo de maneira correta se tornara imediatamente mestre dos outros que não têm a mesma habilidade.

Paracelso, um dos primeiros defensores da arte dos magos, escreveu no século 16: “A magia é uma grande sabedoria escondida… não há armadura que consiga dar proteção, pois ela atinge o espírito da vida. Disso podemos estar certos”. Ou, como Aleister Crowley – talvez o ocultista mais famoso depois de Merlin – afirmou em 1928, em seu Magick in theory and practice, o primeiro livro a despertar a atenção de Jimmy Page para as possibilidades do oculto: “A Magicka é a arte e ciência da mudança em conformidade com a vontade. (O K foi acrescentado por Crowley à palavra “magic” não só para diferenciar o que ele estava falando dos truques simples empregados pelos feiticeiros, mas também por questões ligadas ao ocultismo: as seis letras da palavra “magick” em inglês representavam um equilíbrio em relação à palavra original de cinco letras “magic”, equilibrando o hexagrama e o pentagrama, 5+6=11, o número geral da mágicka, ou energia que tende a mudar, como ele afirmou em seu livro de 1909, 777.)  

A partir da década de 1960, parte de seus conceitos foram absorvidos pela contracultura. Sua clássica careca aparece na ilustração do disco dos Beatles, Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967), entre as figuras históricas e populares escolhidas pelo quarteto de Liverpool. Os Rolling Stones também tiveram seu flerte com as ideias  dos excessos sexuais. Os exemplos mais notórios de artistas que fizeram trabalhos de fato inspirados nele são o guitarrista Jimmy Page, o cineasta Kenneth Anger e, obviamente, Raul Seixas e Paulo Coelho. Sua mensagem se popularizou, mas não sem ruídos.

[…]

Depois da conversa inicial, em que abordamos superficialmente diversos assuntos, perguntei a Euclydes o que significava Thelema, na concepção dele. A resposta:

Psicologia pura. É o conhecimento do homem, de si próprio. É mexer com certos arquétipos que existem na psique humana. colocá-los para fora, entrar em contato com esses eles e aprender. Isso vem de longa data, através da genética. Temos um conhecimento muito profundo, mas não entramos em contato com ele. Por que? Porque a mente material, a mente mundana foi criada e o subconsciente ficou lá atrás. Quando você sonha, quem fala com você é o seu subconsciente. Ele te dá instruções, diz se você tá doente ou não. A mente que nós usamos no dia a dia é uma mente artificial, para a sociedade. Criada pelos costumes, pelos tabus. O homem não é isso. O homem é aquilo que está lá dentro”.

Excerto de um trabalho publicado em: Thelema – Espaço Novo Aeon.

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I’ll be your mirror…

Recentemente tem se falado muito sobre preconceito, homofobia, racismo e fanatismo religioso. Todos nós sabemos que esse tipo de comportamento é fruto da ignorância. Mas, como se dá o processo psicológico interno das pessoas que tomam partido de ideologias tão débeis, alienantes e, graças à Deus, já moribundas? Vamos misturar um pouco de psicanálise e psicologia analítica no nosso caldeirão para descobrir à luz do conhecimento o que acontece com essas infelizes criaturas?

Podemos dizer que, num nível primário, as pessoas têm três pulsões psicológica: Id, Ego e Super-Ego. O Id é o universo primitivo, é a pulsão animal, o instinto de sobrevivência, reprodução/prazer sexual e agressividade. O Ego é uma espécie de universo semi-consciente humano (mas que tem o potencial para se tornar plenamente consciente), responsável por intermediar as diversas pulsões do ser e por possibilitar o equilíbrio entre essas pulsões, mas que geralmente, quando não trabalhado de forma saudável, acaba rejeitando certos aspectos do ser e criando mecanismos de defesa como a persona para atuar contra esses aspectos rejeitados. Super-Ego seria uma espécie de eu-ideal, responsável por ditar os comportamentos adequados e leis que devem ser seguidas e intimidar ou subornar o Ego através de reforços positivos ou reforços negativos.

Esse é um quadro por demais negativo do ser humano. Existem outras possibilidades, mas na realidade, na maioria dos casos, as pessoas se limitam somente à esses aspectos. O que ocorre nesse tipo de pessoa é uma submissão nada saudável do Ego ao Super-Ego, e a criação de uma Persona terrível para subjugar e esconder as pulsões do Id. Basicamente, essas pessoas vivem em função de agradar a imagem ideal que fazem do Papai, da Mamãe, da Sociedade, do Governo e da Igreja, ou seja, vivem em função de subjugar seu próprio ser para seu Ego/Persona receber reforçadores positivos (e evitar os negativos) do próprio Super-Ego e do Ego/Persona de outras pessoas que também são subjugadas pelo próprio Super-Ego. Simples né?

Mas aqueles que não possuem equilíbrio interno ou força de vontade suficiente para não ceder aos assédios desequilibradorescom certeza não são feitos de ferro. Cedo ou tarde a pessoa que rende devoção extrema ao Super-Ego vai ceder ao Id. Nessa hora o Id aparece, sob o véu da persona, na forma de fanatismo, radicalismo, sectarismo et cetera, et cetera.

Id como abordado na psicanálise pode ter alguma identificação com a Sombra da psicologia analítica, com a diferença que, para Jung e para os estudiosos que se identificam com os seus trabalhos, a Sombra não abarca somente os aspectos animalescos e primitivos do ser, mas também aspectos sublimes e divinos.

O problema e o entrave na expansão da consciência se dá quando as pessoas perdem o controle e deixam se levar somente por uma das pulsões. Seja pelo Super-Ego ou pelo Id. Assim o Ego entra em choque e cria uma persona que irá atuar de modo a esconder os aspectos indesejados na Sombra. Esse é o caminho inverso à natureza, é um caminho destrutivo. O correto é trazer à consciência os aspectos ocultos e descobrir que eles não são tão ruins, são naturais e saudáveis.

Para a psicologia junguiana e para diversas correntes espiritualistas, quando o ser está em equilíbrio, o Ego, o Id, o Super-Ego, a Sombra, se tornam um só e deixam de existir, dando lugar ao Self, a plenitude do ser.

Geralmente o que ocorre nos fanáticos religiosos, por exemplo, na verdade não é homofobia. É self-fobia. Eles têm medo de si mesmos. Para os fanáticos religiosos, as pessoas que não partilham das suas idéias são espelhos. São reflexos do que eles mesmos poderiam ser se não cedessem ao medo: livres. Aí ocorre a projeção. Mecanismo pelo qual as pessoas dão vasão aos aspectos da Sombra através da Persona para que a mente consciente não reconheça esses aspectos como fazendo parte delas mesmas. É o famoso comportamento “shift the blame” que deu origem ao velho jargão do “macaco que não olha pro próprio rabo”.

Não sabemos ao certo quanto tempo levará para que as pessoas deixem de lado o medo, que é a origem de todas as formas de preconceito. Mas é certo que cedo ou tarde as pessoas deixarão o medo de lado, afinal, como nos ensinou o Mestre Yoda: “Fear leads to anger. Anger leads to hate. Hate leads to suffering”. Cedo ou tarde as pessoas terão consciência de que o medo só traz sofrimento e de que a origem do preconceito está no medo de conhecer a si mesmo se identificando com as outras pessoas.

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“I’ll be your mirror”

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Contos de Fadas, Arte e Transcendência

Trecho da obra Mito e Transformação, da autoria de Joseph Campbell.

“Vou contar algumas histórias que seguem o modelo da Jornada do Herói. Pensem nelas como se fossem imagens para meditar.

A primeira história que eu gostaria de abordar é “O Príncipe-Sapo”, a primeira dos Contos de Grimm. Começamos com uma menina – uma princesa, é claro – que tem uma bolinha de ouro.

O ouro é um metal incorruptível e a esfera é a forma perfeita. Então, a bola é ela – a bola é o círculo da sua alma. A menina gosta de passear à beira da floresta. A história se passa na Alemanha, onde a floresta equivale ao abismo, como eu já disse. Ela fica por ali brincando e há uma lagoazinha bem próxima, uma fonte pequena, que é a entrada do mundo subterrâneo. E é ali que ela gosta de brincar com a sua alma. Arremessa a bolinha e a pega, arremessa e pega, arremessa e pega, até que, enfim, não consegue pegar a bola, que cai na lagoa.

Esse é o self da garota, o seu potencial, engolido pelo mundo subterrâneo. Quando isso acontece, o poder que existe lá embaixo chama o dragãozinho que é o guardião do limiar: um sapinho feio. O sapo do fundo da lagoa é uma variante do dragão dos contos de fada.

A menina perdeu a bola e começa a chorar; ela perdeu a alma. Ou seja, isso é depressão, é perda de energia e alegria de viver; algo crucial lhe escapou. Esse tipo de perda tem uma equivalência na Ilíada, o rapto de Helena de Tróia, que põe em movimento toda essa aventura épica, já que os príncipes e os guerreiros da Grécia foram obrigados a resgatá-la.

Nessa história, a bolinha de ouro afundou, e da lagoa emerge o sapo, o habitante do mundo subterrâneo, que diz: “Qual o problema, menina?”
Ela responde: “Perdi minha bola de ouro”.
O sapo diz com toda a bondade: “Vou pegá-la para ti”.
“Seria muita gentileza”.
Por ser sensato, o sapo pergunta: “E o que vou ganhar em troca?”

Por uma dádiva como a que ela espera, é preciso desistir de algo; deve ser feita alguma espécie de troca. Então a princesinha diz: “Vou dar-te a minha coroa de ouro”.
Ele balança a cabeça verde. “Não quero tua coroa de ouro”.fairy_tale_Frog
“Vou dar-te o meu lindo vestido de seda”.
“Não quero teu lindo vestido de seda”.
“Então”, aflige-se ela, “o que queres?”
“Quero comer contigo à mesa, quero ser teu companheiro e quero dormir contigo em sua cama”.
Subestimando o sapo ela diz: “Está bem, pode ser”.
O sapo mergulha e traz a bola de volta. O curioso aqui é que ele também é o herói da aventura. Ele traz a bugiganga para dar a princesa. Ela, sem muito mais que um obrigado, pega a bola e volta saltitante para casa. O sapo a segue aos saltos, dizendo: “Espere por mim!” Infelizmente, ele é muito lento e a princesa chega a sua casa bem antes dele, achando que o deixou para trás.

Naquela noite, a princesinha, o Rei Papai e a Rainha Mamãe estão jantando. Parece que nesse palácio a mesa de jantar era bem próxima da porta da frente. Eles estão comendo em pratos requintados quando aquela coisa viscosa entra saltando pelos degraus, e a menina fica pálida.
Diz o pai: “Qual o problema querida? O que há?”
Responde ela: “Ora, é só um sapinho que conheci”.
O Rei por ser sábio, diz: “Fizeste alguma promessa?”

Aí entra o princípio moral, o complexo da persona – você sabe que é preciso correlacionar todas essas coisas. Claro que a princesa é obrigada a dizer que fez mesmo uma promessa. Então o Rei afirma: “Abre a porta e deixa-o entrar”.
O sapo entra. A princesa, um pouco embaraçada, arruma um lugarzinho para o sapo debaixo da mesa, mas ele não quer nem saber. Diz o sapo: Não, quero sentar-me à mesa. Quero comer no teu prato de ouro”. Como se pode imaginar, isso estraga o jantar da jovem dama.

Terminada a refeição, ela se prepara para dormir. E lá vem o sapo de novo, pulando os degraus atrás dela e batendo na porta: “Quero entrar”.
Ela abre a porta e o deixa entrar.
“Quero dormir na cama contigo”.
Os freudianos adoram essa história.
Isso ela não consegue aturar. Essa história tem finais diferentes, e o mais famoso é aquele em que ela beija o sapo, e ele é transformado. Mas o que eu gosto mais é o que ela o pega neste momento e o atira contra a parede. E o sapo se despedaça e dele sai um lindo príncipe com cílios longos como os de um camelo.

Acabamos descobrindo que ele também estava numa enrascada. Ele havia sido amaldiçoado e transformado num sapo por uma bruxa. Eis um menino que não se arriscou a entrar na vida adulta. Ela é a menina quase entrando na vida adulta, e ambos a vêm rejeitando, mas agora um ajuda o outro a superar essa estagnação neurótica. Claro, eles se apaixonam de imediato trocando a anima pelo animus.

Conta a história que na manhã seguinte, depois de ter apresentado o príncipe ao Papai e à Mamãe, depois de terem se casado, uma carruagem real pára diante da porta da frente. Sabe-se então que ele é mesmo um príncipe, e essa é sua carruagem que veio buscá-lo para levá-lo de volta ao seu reino, que estava desolado desde a época que o rapaz foi transformado em sapo. Esse é o tema da terra desolada, imagem central das novelas do Graal, durante a Idade Média. O rei é o coração da terra e, enquanto ele está incompleto, a terra segue desolada.

Assim, a noiva e o noivo entram na carruagem e, quando partem, ouve-se um estouro. O príncipe pergunta ao cocheiro: “Qual o problema Heinrich? O que aconteceu?”
O cheiro responde: “Desde que o senhor partiu, digníssimo príncipe, havia quatro cintas de ferro em torno do meu coração, e uma delas acaba de arrebentar”.

Aí, é claro, à medida que eles seguem o caminho, há mais três estouros, e o coração do cocheiro volta a bater do modo correto. Obviamente, o próprio cocheiro simboliza a terra, que precisa do príncipe como poder gerador e governante. Mas o jovem falhara no seu dever ao recusar o chamado. Ele desceu ao outro mundo contra sua vontade, mas lá encontrou a sua noiva. Então está tudo bem.

Gosto bastante dessa história porque os dois estão em apuros, no fundo do poço, e um ajuda o outro. E, nesse ínterim, o mundo aqui em cima aguarda o retorno do seu príncipe.

Outra história que segue esse modelo de modo interessante é dos navajos. Chama-se “Where the two came to their father”, tema principal do primeiro livro em que trabalhei, editando e fazendo comentários para a antropóloga Maud Oakes.

As histórias como essa dos índios norte-americanos apresentam quase sempre heróis gêmeos. Um é o ativo e o outro, o contemplativo – o extrovertido e o introvertido.

O primeiro jovem chama-se Matador de Inimigos. Esse é o extrovertido, o energético. O segundo chama-se Filho da Água. É o mago. A mãe deles, a Mulher Mutante (Changing Woman), engravidou dos dois quando o Sol a fecundou no seu curso pelo céu.

Há monstros nas redondezas, e mãe diz aos filhos: “Não se afastem muito de casa. Vocês podem se dirigir para o leste, o sul e o oeste, mas nunca para o norte”. Claro, eles vão para o norte. Como mudar uma situação senão desobedecendo às regras? A proibição dela é o chamado à aventura.

Eles querem ir ao seu pai, conseguir armas para ajudar a mãe e derrotar todos os monstros. O Homem Arco-Íris os transporta até a beira do mundo conhecido, o limiar. Em cada ponto cardeal, o caminho está obstruído por um guardião do limiar: o Menino das Areias Azuis, o Menino das Areias Vermelhas, o Menino das Areias Pretas e o Menino das Areias Brancas. Eles conseguem convencer esses ogros fazendo adulações e dizendo a eles que vão pegar armas com seu pai, o Sol. Os guardiões os deixam passar.

Agora eles estão além do mundo conhecido; numa espécie de deserto, onde não há nenhum traço reconhecível na paisagem. Os gêmeos topam com uma senhora baixinha, chamada Velhice. Pergunta ela: “O que fazem aqui, garotos?” Eles dizem que vão ao seu pai, o Sol. E ela: “É muito, muito longe. Vocês ficarão velhos e morrerão antes de chegar lá. Vou dar-lhes um conselho. Não andem pelo meu caminho. Andem pela direita”.

Os gêmeos saem caminhando, esquecem-se e andam pelo caminho dela. Então sentem-se cansados e velhos. Têm de se apoiar em paus e mal conseguem andar direito. Ela aparece e diz: “Ah, ah, ah, eu avisei”.
“Será que a senhora não consegue dar um jeito na gente?”
Então ela esfrega as mãos nas axilas e nas costas e depois no corpo dos garotos. Eles voltam à vida. Aí a Velhice diz: “Agora sigam em frente e, desta vez, fiquem fora do meu caminho”.
Eles estão perambulando pela lateral do caminho quando vêem uma fumacinha sair do chão, o fogo da Mulher-Aranha. Ela é outra auxiliar mágica, uma encarnação da Mãe-Terra. Ela os convida a entrar no seu buraquinho no chão e lhes oferece a comida certa para lhes dar forças. Conta quais são os perigos no caminho a ser percorrido, dá-lhes um amuleto mágico – uma pena – e os manda seguir viagem.

Os gêmeos topam com as três provações que bloqueiam o caminho: um cacto que espeta, rochas que se chocam e juncos que cortam. A Mulher-Aranha lhes deus uma pena para protegê-los de todas as coisas, e assim eles conseguem passar sãos e salvos.

Por fim eles chegam ao mar que circunda o mundo – existem planos diferentes nesse mundo desconhecido. Agora é a vez da travessia do mar, que eles cruzam voando com a pena. Há um lugar em que o mar e o céu se juntam, e é azul sobre azul, no ponto exato em que se encontra a casa do Sol, no leste. Agora eles chegam ao local das provações da aventura – até esse momento houve apenas provas preliminares.

Junto à casa do Sol está sua filha – o Sol, claro, está fora, na sua viagem diária. A filha pergunta aos gêmeos: “Quem são vocês?”
Eles respondem: “Somos os filhos do Sol”.
Surpresa, ela diz: “Ah, é? Quando meu pai voltar vai ficar bem bravo. Acho melhor eu esconder vocês”. Então ela os envolve em nuvens das quatro cores e os guarda sobre duas portas diferentes.

À noite, o Sol chega e desmonta do seu cavalo. Seu escudo é o disco solar. Ele pendura o escudo na parede, que fica batendo contra ela – blém, blém, blém. O Sol se vira para a filha e diz: “Quem são aqueles dois jovens que vi vindo para cá hoje?”
Diz a filha: “Você sempre me disse que é bem comportado quando está dando a volta ao mundo. Esses dois garotos dizem que são filhos seus”.
“Bem” – diz ele. “Vamos tirar isso a limpo”.
Então o Sol os encontra, os faz descer e dá início a um procedimento importante que se encontra em muitas, muitas histórias: o pai pondo o filho à prova – ou, nesse, os filhos. E trata-os com a sorte de brutalidades. Joga-os contra pontas enormes nas quatro direções; os gêmeos se agarram firmemente à pena da Mulher-Aranha. Dá-lhes tabaco para fumar; eles se agarram firmemente à pena. Coloca-os num local de suadouro para que morram no vapor; eles se agarram firmemente à pena. Enfim, o Sol diz: “Vocês são de fato meus filhos. Vamos passar para a sala ao lado”.

Lá ele estende no chão duas mantas de búfalo e coloca um menino em cada uma. Os poderes do trovão se apresentam, ouve-se um grande estrondo e eles recebem um nome apropriado. O Sol lhes diz como eles se chamam. Eles assumem sua altura apropriada, e o pai lhes entrega as armas de que necessitam.

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Essa é a reconciliação com o pai e a conquista da dádiva. Agora eles precisam voltar para casa. O Sol os leva para o buraco no céu e, ao chegarem ali, passa-lhes a prova derradeira: qual é o nome de vocês? Como se chama a Montanha do Norte? E a Montanha do Leste? E a Montanha Central?

Eles respondem a todas essas perguntas porque dois espíritos minúsculos sussurram todas as respostas em seus ouvidos. Um se chama Mosca Negra e o outro, Vento Pequeno. Contaram-me que, quando caminhamos pelo deserto, aparece uma mosca grande que pousa no nosso ombro – talvez vocês já saibam disso. Diz-se que essa mosca é o Espírito Santo. Trata-se de uma visita do espírito, e é ele quem sopra todas as respostas.

Os gêmeos passam na prova e descem para a Montanha Central – o axis mundi -, que para os navajos é o Monte Taylor, no Novo México. No sopé da montanha há um lago enorme, à margem do qual vive um monstro arquetípico – não se consegue matar um monstro de carne e osso enquanto não se mata o arquétipo. O nome do arquétipo é Grande Monstro Solitário. Curiosamente, ele também é filho do Sol.

A característica dos monstros é que eles confundem sombra com matérias. O monstro vê os meninos refletidos no lago e acha que os reflexos são o inimigo. Então ele decide beber o lago e digerir os meninos até matá-los. Bebe o lago e fica digerindo por muito tempo; depois, cospe o lago de volta. E lá estão eles de novo, na margem contrária, refletidos na água. O monstro faz o mesmo quatro vezes. A essa altura, até o Grande Monstro Solitário se sente exausto.

Os garotos se aproximam para matá-lo e, com a ajuda do Sol, aniquilam o Grande Monstro Solitário – taí, o pai sempre os amou mais.

Tendo matado o monstro, os gêmeos iniciam enfim o caminho para casa. E retornam através do limiar.

Aí surge um detalhe muito, muito interessante – um pequeno tema que se encontra em diversas mitologias: a perda da dádiva. Os gêmeos têm de cruzar o limiar de volta para casa. Eles estiveram no campo do puro poder solar. Agora precisam voltar para o domínio do poder feminino, onde a energia intensa do Sol é ajustada à vida.

Você já se perguntaram por que Zeus sempre se disfarça quando visitava as mulheres mortais? A aparição de um Deus em toda a sua glória teria matado tudo e não haveria mais vida. É preciso que haja a contrapartida da água, por assim dizer, contra o fogo solar.

Esse é o mundo em que os heróis precisaram atuar. Tendo completado seu feito mitológico, os gêmeos descem para cumprir o dever real, prático. No entanto, quando atravessam o limiar, tropeçam e as armas que o pai lhes dera se despedaçam – eles as perdem.

Aparece uma divindade que se chama Deus Falante; é o ancestral masculino de uma Talking God_najavo_twin_warriorslinhagem feminina de Deuses, assim representando os dois juntos. O nariz dele é de talo de milho; as pálpebras superiores dos olhos representam a chuva, masculina, ao passo que as pálpebras inferiores representam a névoa, feminina. Portanto, é uma figura andrógina. Ele dá aos gêmeos novas armas, novos conselhos. E assim, eles vão enfrentar os monstros que têm perturbado as redondezas da sua casa e os matam. Quando terminam o combate com os quatro monstros grandes, estão tremendamente fatigados, prestes a morrer.

Então os Deuses descem e realizam com eles um ritual de cura. E no que consiste esse ritual? É o ensaio dessa mesma história que acabei de lhes contar, a história da vida deles. É isso que o psiquiatra faz quando se aprofunda para descobrir o que ha de errado com o paciente, porque ele não está em contato com o seu inconsciente. Os Deuses conduzem os gêmeos nesse pequeno psicodrama e os colocam de volta em contato com o dinamismo do caminho da própria vida.

Esse ritual foi contado a Maud Oakes por um velho curandeiro chamado jeff King, no território navajo, no início da Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos estavam convocando jovens navajos para o exército porque a língua deles era um código indecifrável – os alemães e os japoneses não tinham ninguém que falasse navajo. Quando um rapaz era convocado, o velho Jeff King realizava esse ritual com ele para torná-lo um guerreiro. O rito durava três dias e três noites, durante os quais toda a história era reencenada com canções e pinturas – há uma série de dezoito pinturas de areia maravilhosas que mostram a história. A intenção era transformar em guerreiros esses garotos que pastoreavam ovelhas, porque ser soldado requer uma mentalidade diferente daquela de quem vive numa aldeia.

Nós não fazemos esse tipo de coisa, e temos um monte de doidos que são o resultado de psiques não muito bem preparadas. Eis aí, então, a função desse mito: é um mito do guerreiro.

O velho Jeff King está enterrado no Cemitério de Arlington. Ele foi um batedor que ajudou o exército dos Estados Unidos no tempo do combate aos apaches. Jeff usava com os jovens recrutas essa antiga cerimônia de guerra que tirara do fundo do baú. Assim, transmitia a eles o uso do ritual nos assuntos corriqueiros da vida.

Qual é a aventura desses rapazes navajos? Eles saem da vida em comunidade para atuar como guerreiros. Eles têm de se submeter a uma transformação – esse é um limiar através do qual são arrastados, pode-se dizer, pela junta de recrutamento.

A Odisséia é o oposto dessa história. A Odisséia retrata a instrução de um guerreiro ao se tornar um reservista. Ele precisa voltar para o lar, deixar para trás seus hábitos de guerreiro e retornar ao mundo de inflexão feminina – de cama e mesa. Hoje não dispomos de mitos que nos ajudem a passar por essas transições. Podemos recorrer aos cacos que sobraram dos velhos mitos ou tentar voltar-nos para a arte.

Assisti recentemente aos filmes da série Guerra nas Estrelas. George Lucas convidou minha mulher, Jean, e eu para a sua casa em Marin County para vermos os filmes, que ele disse serem baseados nos meus livros, na idéia da Jornada do Herói. Como fazia trinta anos que eu não assista a nenhum filme, fiquei maravilhado.

Foi uma experiência surreal. No primeiro dia, de manhã, vimos Guerra nas estrelas, Depois vimos, à tarde, O império contra-ataca e, à noite, O retorno de Jedi. Consegui identificar nos filmes o meu material, não resta dúvida. Acabei me tornando um fã, com enorme admiração por aquele jovem. Ele tem grande imaginação artística e senso de responsabilidade para com o seu público, mostrando algo que de fato tem valor. A quantidade enorme de galáxias com as quais podia trabalhar abriu para ele um vasto campo que os poetas de outrora costumavam ter. Por exemplo, argonautas gregos subiram para o Mar Negro, onde ninguém havia estado, podiam deparar com qualquer tipo estranho de monstro ou de gente – as amazonas, por exemplo. Nesse tipo de folha em branco, a imaginação pode correr solta.

Quando assisti a esses filmes, notei que Lucas usa sistematicamente os arquétipos que aprendeu nos meus livros – ele mesmo confirma isso. Por exemplo, em O Império contra-ataca, Luke Skywalker confronta-se com aquele que ele acha ser Darth Vader, a sombra da figura paterna. Ele mata essa figura e então vê que o rosto do homem mecânico é, na verdade, o seu próprio rosto.

Luke vs Vader _ Dagobah Cave

Então, no final de O retorno de Jedi é trabalhado de forma bastante explícita o tema da reconciliação com o pai – é para isso que se encaminha a série. Na verdade, ela é uma peça de três atos: o chamado á aventura, o caminho das provações e a provação final, com a reconciliação com o pai e o retorno através do limiar.

É muito gratificante saber que meu pequeno livro esteja fazendo o que eu de fato queria que fizesse, ou seja, inspirar um artista cuja obra está realmente emocionando o mundo. The Hero with a Thousand Faces [O Herói de Mil Faces] foi recusado por duas editoras; a segunda me perguntou: “Quem vai ler isto?”. Agora sabemos.

Os artistas são auxiliares mágicos. Evocando símbolos e temas que nos conectam ao nosso eu mais profundo, eles podem nos ajudar na jornada heróica da nossa vida.

É uma brincadeira comum entre os críticos literários e alunos de pós-graduação discutir quais são as influências de determinado escritor – de quem ele pegou o estilo e as idéias. Quando a criação se desenrola, o autor se cerca de um ambiente que contém tudo que ele viveu – todos os acidentes da infância, todas as canções que ele ouviu e, também, todos os livros, poemas e textos que ele leu. Sua imaginação criativa libera essas coisas e lhes dá forma.

Todos esses mitos que você ouviu e ressoam em você constituem os elementos com os quais você dá forma à sua vida. O que vale a pena considerar é como eles se relacionam entre si no seu contexto, não como eles se relacionam a algo fora de você – não a importância que tiveram para as pradarias da América do Norte ou para as selvas asiáticas há centenas de anos, mas como eles são relevantes agora -, a menos que, ao contemplar o significado original, você consiga ampliar seu próprio entendimento do papel que eles desempenham na sua vida.

Na subida da serpente Kundalini pela espinha – que é, notem, uma outra Jornada do Herói -, o obstáculo final por superar, na passagem do sexto chacra para o sétimo, é a barreira entre o eu e seu amado, o Senhor do Universo – o Deus que é o mundo e transcende o mundo. Mas que linha divisória é essa abaixo da qual tudo é dualidade e acima da qual não há a existência nem a não-existência? É a nossa velha amiga Maya.

A palavra “maya” vem do radical “ma”, que significa “construir” ou “medir”. Maya tem três poderes. O primeiro é o poder de iludir, obscurecendo a nossa percepção da luz pura. O segundo é o poder de projeção, que converte a luz pura nas formas do mundo sensível, tal qual um prisma transforma a luz branca nas cores do arco-íris. Esses são os poderes que transformam o transcendente no mundo temporal, espacial, que conhecemos juntos com todas as coisas.

Se você pintar diversas cores num disco e o girar, elas revelarão o branco novamente. Assim, as cores desse mundo podem ser moduladas; elas podem ser ordenadas de forma tão artística que o farão experimentar, através delas, a luz verdadeira. Esse é o poder revelador de Maya – e a função da arte é servir a esse fim. Cabe ao artista organizar os objetos desse mundo de tal forma que, por meio deles, você sinta essa luz, essa radiância que á a luz da nossa consciência na qual todas as coisas se ocultam ou, quando propriamente contempladas, revelam-se.

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A Jornada do Herói é uma jornada de padrões universais mediante a qual essa radiância se mostra com todo seu esplendor. O que julgo ser uma boa vida é aquela com uma jornada do herói após a outra. Você é chamado diversas vezes para o domínio da aventura, para os novos horizontes. Cada vez surge o mesmo problema: devo ser ousado? Se você ousar, os perigos estarão lá, assim como a ajuda e a realização ou o fiasco. Existe sempre a possibilidade do fiasco.

Mas existe também a possibilidade da bem-aventurança.”

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