Contos de Fadas, Arte e Transcendência

Trecho da obra Mito e Transformação, da autoria de Joseph Campbell.

“Vou contar algumas histórias que seguem o modelo da Jornada do Herói. Pensem nelas como se fossem imagens para meditar.

A primeira história que eu gostaria de abordar é “O Príncipe-Sapo”, a primeira dos Contos de Grimm. Começamos com uma menina – uma princesa, é claro – que tem uma bolinha de ouro.

O ouro é um metal incorruptível e a esfera é a forma perfeita. Então, a bola é ela – a bola é o círculo da sua alma. A menina gosta de passear à beira da floresta. A história se passa na Alemanha, onde a floresta equivale ao abismo, como eu já disse. Ela fica por ali brincando e há uma lagoazinha bem próxima, uma fonte pequena, que é a entrada do mundo subterrâneo. E é ali que ela gosta de brincar com a sua alma. Arremessa a bolinha e a pega, arremessa e pega, arremessa e pega, até que, enfim, não consegue pegar a bola, que cai na lagoa.

Esse é o self da garota, o seu potencial, engolido pelo mundo subterrâneo. Quando isso acontece, o poder que existe lá embaixo chama o dragãozinho que é o guardião do limiar: um sapinho feio. O sapo do fundo da lagoa é uma variante do dragão dos contos de fada.

A menina perdeu a bola e começa a chorar; ela perdeu a alma. Ou seja, isso é depressão, é perda de energia e alegria de viver; algo crucial lhe escapou. Esse tipo de perda tem uma equivalência na Ilíada, o rapto de Helena de Tróia, que põe em movimento toda essa aventura épica, já que os príncipes e os guerreiros da Grécia foram obrigados a resgatá-la.

Nessa história, a bolinha de ouro afundou, e da lagoa emerge o sapo, o habitante do mundo subterrâneo, que diz: “Qual o problema, menina?”
Ela responde: “Perdi minha bola de ouro”.
O sapo diz com toda a bondade: “Vou pegá-la para ti”.
“Seria muita gentileza”.
Por ser sensato, o sapo pergunta: “E o que vou ganhar em troca?”

Por uma dádiva como a que ela espera, é preciso desistir de algo; deve ser feita alguma espécie de troca. Então a princesinha diz: “Vou dar-te a minha coroa de ouro”.
Ele balança a cabeça verde. “Não quero tua coroa de ouro”.fairy_tale_Frog
“Vou dar-te o meu lindo vestido de seda”.
“Não quero teu lindo vestido de seda”.
“Então”, aflige-se ela, “o que queres?”
“Quero comer contigo à mesa, quero ser teu companheiro e quero dormir contigo em sua cama”.
Subestimando o sapo ela diz: “Está bem, pode ser”.
O sapo mergulha e traz a bola de volta. O curioso aqui é que ele também é o herói da aventura. Ele traz a bugiganga para dar a princesa. Ela, sem muito mais que um obrigado, pega a bola e volta saltitante para casa. O sapo a segue aos saltos, dizendo: “Espere por mim!” Infelizmente, ele é muito lento e a princesa chega a sua casa bem antes dele, achando que o deixou para trás.

Naquela noite, a princesinha, o Rei Papai e a Rainha Mamãe estão jantando. Parece que nesse palácio a mesa de jantar era bem próxima da porta da frente. Eles estão comendo em pratos requintados quando aquela coisa viscosa entra saltando pelos degraus, e a menina fica pálida.
Diz o pai: “Qual o problema querida? O que há?”
Responde ela: “Ora, é só um sapinho que conheci”.
O Rei por ser sábio, diz: “Fizeste alguma promessa?”

Aí entra o princípio moral, o complexo da persona – você sabe que é preciso correlacionar todas essas coisas. Claro que a princesa é obrigada a dizer que fez mesmo uma promessa. Então o Rei afirma: “Abre a porta e deixa-o entrar”.
O sapo entra. A princesa, um pouco embaraçada, arruma um lugarzinho para o sapo debaixo da mesa, mas ele não quer nem saber. Diz o sapo: Não, quero sentar-me à mesa. Quero comer no teu prato de ouro”. Como se pode imaginar, isso estraga o jantar da jovem dama.

Terminada a refeição, ela se prepara para dormir. E lá vem o sapo de novo, pulando os degraus atrás dela e batendo na porta: “Quero entrar”.
Ela abre a porta e o deixa entrar.
“Quero dormir na cama contigo”.
Os freudianos adoram essa história.
Isso ela não consegue aturar. Essa história tem finais diferentes, e o mais famoso é aquele em que ela beija o sapo, e ele é transformado. Mas o que eu gosto mais é o que ela o pega neste momento e o atira contra a parede. E o sapo se despedaça e dele sai um lindo príncipe com cílios longos como os de um camelo.

Acabamos descobrindo que ele também estava numa enrascada. Ele havia sido amaldiçoado e transformado num sapo por uma bruxa. Eis um menino que não se arriscou a entrar na vida adulta. Ela é a menina quase entrando na vida adulta, e ambos a vêm rejeitando, mas agora um ajuda o outro a superar essa estagnação neurótica. Claro, eles se apaixonam de imediato trocando a anima pelo animus.

Conta a história que na manhã seguinte, depois de ter apresentado o príncipe ao Papai e à Mamãe, depois de terem se casado, uma carruagem real pára diante da porta da frente. Sabe-se então que ele é mesmo um príncipe, e essa é sua carruagem que veio buscá-lo para levá-lo de volta ao seu reino, que estava desolado desde a época que o rapaz foi transformado em sapo. Esse é o tema da terra desolada, imagem central das novelas do Graal, durante a Idade Média. O rei é o coração da terra e, enquanto ele está incompleto, a terra segue desolada.

Assim, a noiva e o noivo entram na carruagem e, quando partem, ouve-se um estouro. O príncipe pergunta ao cocheiro: “Qual o problema Heinrich? O que aconteceu?”
O cheiro responde: “Desde que o senhor partiu, digníssimo príncipe, havia quatro cintas de ferro em torno do meu coração, e uma delas acaba de arrebentar”.

Aí, é claro, à medida que eles seguem o caminho, há mais três estouros, e o coração do cocheiro volta a bater do modo correto. Obviamente, o próprio cocheiro simboliza a terra, que precisa do príncipe como poder gerador e governante. Mas o jovem falhara no seu dever ao recusar o chamado. Ele desceu ao outro mundo contra sua vontade, mas lá encontrou a sua noiva. Então está tudo bem.

Gosto bastante dessa história porque os dois estão em apuros, no fundo do poço, e um ajuda o outro. E, nesse ínterim, o mundo aqui em cima aguarda o retorno do seu príncipe.

Outra história que segue esse modelo de modo interessante é dos navajos. Chama-se “Where the two came to their father”, tema principal do primeiro livro em que trabalhei, editando e fazendo comentários para a antropóloga Maud Oakes.

As histórias como essa dos índios norte-americanos apresentam quase sempre heróis gêmeos. Um é o ativo e o outro, o contemplativo – o extrovertido e o introvertido.

O primeiro jovem chama-se Matador de Inimigos. Esse é o extrovertido, o energético. O segundo chama-se Filho da Água. É o mago. A mãe deles, a Mulher Mutante (Changing Woman), engravidou dos dois quando o Sol a fecundou no seu curso pelo céu.

Há monstros nas redondezas, e mãe diz aos filhos: “Não se afastem muito de casa. Vocês podem se dirigir para o leste, o sul e o oeste, mas nunca para o norte”. Claro, eles vão para o norte. Como mudar uma situação senão desobedecendo às regras? A proibição dela é o chamado à aventura.

Eles querem ir ao seu pai, conseguir armas para ajudar a mãe e derrotar todos os monstros. O Homem Arco-Íris os transporta até a beira do mundo conhecido, o limiar. Em cada ponto cardeal, o caminho está obstruído por um guardião do limiar: o Menino das Areias Azuis, o Menino das Areias Vermelhas, o Menino das Areias Pretas e o Menino das Areias Brancas. Eles conseguem convencer esses ogros fazendo adulações e dizendo a eles que vão pegar armas com seu pai, o Sol. Os guardiões os deixam passar.

Agora eles estão além do mundo conhecido; numa espécie de deserto, onde não há nenhum traço reconhecível na paisagem. Os gêmeos topam com uma senhora baixinha, chamada Velhice. Pergunta ela: “O que fazem aqui, garotos?” Eles dizem que vão ao seu pai, o Sol. E ela: “É muito, muito longe. Vocês ficarão velhos e morrerão antes de chegar lá. Vou dar-lhes um conselho. Não andem pelo meu caminho. Andem pela direita”.

Os gêmeos saem caminhando, esquecem-se e andam pelo caminho dela. Então sentem-se cansados e velhos. Têm de se apoiar em paus e mal conseguem andar direito. Ela aparece e diz: “Ah, ah, ah, eu avisei”.
“Será que a senhora não consegue dar um jeito na gente?”
Então ela esfrega as mãos nas axilas e nas costas e depois no corpo dos garotos. Eles voltam à vida. Aí a Velhice diz: “Agora sigam em frente e, desta vez, fiquem fora do meu caminho”.
Eles estão perambulando pela lateral do caminho quando vêem uma fumacinha sair do chão, o fogo da Mulher-Aranha. Ela é outra auxiliar mágica, uma encarnação da Mãe-Terra. Ela os convida a entrar no seu buraquinho no chão e lhes oferece a comida certa para lhes dar forças. Conta quais são os perigos no caminho a ser percorrido, dá-lhes um amuleto mágico – uma pena – e os manda seguir viagem.

Os gêmeos topam com as três provações que bloqueiam o caminho: um cacto que espeta, rochas que se chocam e juncos que cortam. A Mulher-Aranha lhes deus uma pena para protegê-los de todas as coisas, e assim eles conseguem passar sãos e salvos.

Por fim eles chegam ao mar que circunda o mundo – existem planos diferentes nesse mundo desconhecido. Agora é a vez da travessia do mar, que eles cruzam voando com a pena. Há um lugar em que o mar e o céu se juntam, e é azul sobre azul, no ponto exato em que se encontra a casa do Sol, no leste. Agora eles chegam ao local das provações da aventura – até esse momento houve apenas provas preliminares.

Junto à casa do Sol está sua filha – o Sol, claro, está fora, na sua viagem diária. A filha pergunta aos gêmeos: “Quem são vocês?”
Eles respondem: “Somos os filhos do Sol”.
Surpresa, ela diz: “Ah, é? Quando meu pai voltar vai ficar bem bravo. Acho melhor eu esconder vocês”. Então ela os envolve em nuvens das quatro cores e os guarda sobre duas portas diferentes.

À noite, o Sol chega e desmonta do seu cavalo. Seu escudo é o disco solar. Ele pendura o escudo na parede, que fica batendo contra ela – blém, blém, blém. O Sol se vira para a filha e diz: “Quem são aqueles dois jovens que vi vindo para cá hoje?”
Diz a filha: “Você sempre me disse que é bem comportado quando está dando a volta ao mundo. Esses dois garotos dizem que são filhos seus”.
“Bem” – diz ele. “Vamos tirar isso a limpo”.
Então o Sol os encontra, os faz descer e dá início a um procedimento importante que se encontra em muitas, muitas histórias: o pai pondo o filho à prova – ou, nesse, os filhos. E trata-os com a sorte de brutalidades. Joga-os contra pontas enormes nas quatro direções; os gêmeos se agarram firmemente à pena da Mulher-Aranha. Dá-lhes tabaco para fumar; eles se agarram firmemente à pena. Coloca-os num local de suadouro para que morram no vapor; eles se agarram firmemente à pena. Enfim, o Sol diz: “Vocês são de fato meus filhos. Vamos passar para a sala ao lado”.

Lá ele estende no chão duas mantas de búfalo e coloca um menino em cada uma. Os poderes do trovão se apresentam, ouve-se um grande estrondo e eles recebem um nome apropriado. O Sol lhes diz como eles se chamam. Eles assumem sua altura apropriada, e o pai lhes entrega as armas de que necessitam.

Lightning Armor House_navajo_twin_warriors

Essa é a reconciliação com o pai e a conquista da dádiva. Agora eles precisam voltar para casa. O Sol os leva para o buraco no céu e, ao chegarem ali, passa-lhes a prova derradeira: qual é o nome de vocês? Como se chama a Montanha do Norte? E a Montanha do Leste? E a Montanha Central?

Eles respondem a todas essas perguntas porque dois espíritos minúsculos sussurram todas as respostas em seus ouvidos. Um se chama Mosca Negra e o outro, Vento Pequeno. Contaram-me que, quando caminhamos pelo deserto, aparece uma mosca grande que pousa no nosso ombro – talvez vocês já saibam disso. Diz-se que essa mosca é o Espírito Santo. Trata-se de uma visita do espírito, e é ele quem sopra todas as respostas.

Os gêmeos passam na prova e descem para a Montanha Central – o axis mundi -, que para os navajos é o Monte Taylor, no Novo México. No sopé da montanha há um lago enorme, à margem do qual vive um monstro arquetípico – não se consegue matar um monstro de carne e osso enquanto não se mata o arquétipo. O nome do arquétipo é Grande Monstro Solitário. Curiosamente, ele também é filho do Sol.

A característica dos monstros é que eles confundem sombra com matérias. O monstro vê os meninos refletidos no lago e acha que os reflexos são o inimigo. Então ele decide beber o lago e digerir os meninos até matá-los. Bebe o lago e fica digerindo por muito tempo; depois, cospe o lago de volta. E lá estão eles de novo, na margem contrária, refletidos na água. O monstro faz o mesmo quatro vezes. A essa altura, até o Grande Monstro Solitário se sente exausto.

Os garotos se aproximam para matá-lo e, com a ajuda do Sol, aniquilam o Grande Monstro Solitário – taí, o pai sempre os amou mais.

Tendo matado o monstro, os gêmeos iniciam enfim o caminho para casa. E retornam através do limiar.

Aí surge um detalhe muito, muito interessante – um pequeno tema que se encontra em diversas mitologias: a perda da dádiva. Os gêmeos têm de cruzar o limiar de volta para casa. Eles estiveram no campo do puro poder solar. Agora precisam voltar para o domínio do poder feminino, onde a energia intensa do Sol é ajustada à vida.

Você já se perguntaram por que Zeus sempre se disfarça quando visitava as mulheres mortais? A aparição de um Deus em toda a sua glória teria matado tudo e não haveria mais vida. É preciso que haja a contrapartida da água, por assim dizer, contra o fogo solar.

Esse é o mundo em que os heróis precisaram atuar. Tendo completado seu feito mitológico, os gêmeos descem para cumprir o dever real, prático. No entanto, quando atravessam o limiar, tropeçam e as armas que o pai lhes dera se despedaçam – eles as perdem.

Aparece uma divindade que se chama Deus Falante; é o ancestral masculino de uma Talking God_najavo_twin_warriorslinhagem feminina de Deuses, assim representando os dois juntos. O nariz dele é de talo de milho; as pálpebras superiores dos olhos representam a chuva, masculina, ao passo que as pálpebras inferiores representam a névoa, feminina. Portanto, é uma figura andrógina. Ele dá aos gêmeos novas armas, novos conselhos. E assim, eles vão enfrentar os monstros que têm perturbado as redondezas da sua casa e os matam. Quando terminam o combate com os quatro monstros grandes, estão tremendamente fatigados, prestes a morrer.

Então os Deuses descem e realizam com eles um ritual de cura. E no que consiste esse ritual? É o ensaio dessa mesma história que acabei de lhes contar, a história da vida deles. É isso que o psiquiatra faz quando se aprofunda para descobrir o que ha de errado com o paciente, porque ele não está em contato com o seu inconsciente. Os Deuses conduzem os gêmeos nesse pequeno psicodrama e os colocam de volta em contato com o dinamismo do caminho da própria vida.

Esse ritual foi contado a Maud Oakes por um velho curandeiro chamado jeff King, no território navajo, no início da Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos estavam convocando jovens navajos para o exército porque a língua deles era um código indecifrável – os alemães e os japoneses não tinham ninguém que falasse navajo. Quando um rapaz era convocado, o velho Jeff King realizava esse ritual com ele para torná-lo um guerreiro. O rito durava três dias e três noites, durante os quais toda a história era reencenada com canções e pinturas – há uma série de dezoito pinturas de areia maravilhosas que mostram a história. A intenção era transformar em guerreiros esses garotos que pastoreavam ovelhas, porque ser soldado requer uma mentalidade diferente daquela de quem vive numa aldeia.

Nós não fazemos esse tipo de coisa, e temos um monte de doidos que são o resultado de psiques não muito bem preparadas. Eis aí, então, a função desse mito: é um mito do guerreiro.

O velho Jeff King está enterrado no Cemitério de Arlington. Ele foi um batedor que ajudou o exército dos Estados Unidos no tempo do combate aos apaches. Jeff usava com os jovens recrutas essa antiga cerimônia de guerra que tirara do fundo do baú. Assim, transmitia a eles o uso do ritual nos assuntos corriqueiros da vida.

Qual é a aventura desses rapazes navajos? Eles saem da vida em comunidade para atuar como guerreiros. Eles têm de se submeter a uma transformação – esse é um limiar através do qual são arrastados, pode-se dizer, pela junta de recrutamento.

A Odisséia é o oposto dessa história. A Odisséia retrata a instrução de um guerreiro ao se tornar um reservista. Ele precisa voltar para o lar, deixar para trás seus hábitos de guerreiro e retornar ao mundo de inflexão feminina – de cama e mesa. Hoje não dispomos de mitos que nos ajudem a passar por essas transições. Podemos recorrer aos cacos que sobraram dos velhos mitos ou tentar voltar-nos para a arte.

Assisti recentemente aos filmes da série Guerra nas Estrelas. George Lucas convidou minha mulher, Jean, e eu para a sua casa em Marin County para vermos os filmes, que ele disse serem baseados nos meus livros, na idéia da Jornada do Herói. Como fazia trinta anos que eu não assista a nenhum filme, fiquei maravilhado.

Foi uma experiência surreal. No primeiro dia, de manhã, vimos Guerra nas estrelas, Depois vimos, à tarde, O império contra-ataca e, à noite, O retorno de Jedi. Consegui identificar nos filmes o meu material, não resta dúvida. Acabei me tornando um fã, com enorme admiração por aquele jovem. Ele tem grande imaginação artística e senso de responsabilidade para com o seu público, mostrando algo que de fato tem valor. A quantidade enorme de galáxias com as quais podia trabalhar abriu para ele um vasto campo que os poetas de outrora costumavam ter. Por exemplo, argonautas gregos subiram para o Mar Negro, onde ninguém havia estado, podiam deparar com qualquer tipo estranho de monstro ou de gente – as amazonas, por exemplo. Nesse tipo de folha em branco, a imaginação pode correr solta.

Quando assisti a esses filmes, notei que Lucas usa sistematicamente os arquétipos que aprendeu nos meus livros – ele mesmo confirma isso. Por exemplo, em O Império contra-ataca, Luke Skywalker confronta-se com aquele que ele acha ser Darth Vader, a sombra da figura paterna. Ele mata essa figura e então vê que o rosto do homem mecânico é, na verdade, o seu próprio rosto.

Luke vs Vader _ Dagobah Cave

Então, no final de O retorno de Jedi é trabalhado de forma bastante explícita o tema da reconciliação com o pai – é para isso que se encaminha a série. Na verdade, ela é uma peça de três atos: o chamado á aventura, o caminho das provações e a provação final, com a reconciliação com o pai e o retorno através do limiar.

É muito gratificante saber que meu pequeno livro esteja fazendo o que eu de fato queria que fizesse, ou seja, inspirar um artista cuja obra está realmente emocionando o mundo. The Hero with a Thousand Faces [O Herói de Mil Faces] foi recusado por duas editoras; a segunda me perguntou: “Quem vai ler isto?”. Agora sabemos.

Os artistas são auxiliares mágicos. Evocando símbolos e temas que nos conectam ao nosso eu mais profundo, eles podem nos ajudar na jornada heróica da nossa vida.

É uma brincadeira comum entre os críticos literários e alunos de pós-graduação discutir quais são as influências de determinado escritor – de quem ele pegou o estilo e as idéias. Quando a criação se desenrola, o autor se cerca de um ambiente que contém tudo que ele viveu – todos os acidentes da infância, todas as canções que ele ouviu e, também, todos os livros, poemas e textos que ele leu. Sua imaginação criativa libera essas coisas e lhes dá forma.

Todos esses mitos que você ouviu e ressoam em você constituem os elementos com os quais você dá forma à sua vida. O que vale a pena considerar é como eles se relacionam entre si no seu contexto, não como eles se relacionam a algo fora de você – não a importância que tiveram para as pradarias da América do Norte ou para as selvas asiáticas há centenas de anos, mas como eles são relevantes agora -, a menos que, ao contemplar o significado original, você consiga ampliar seu próprio entendimento do papel que eles desempenham na sua vida.

Na subida da serpente Kundalini pela espinha – que é, notem, uma outra Jornada do Herói -, o obstáculo final por superar, na passagem do sexto chacra para o sétimo, é a barreira entre o eu e seu amado, o Senhor do Universo – o Deus que é o mundo e transcende o mundo. Mas que linha divisória é essa abaixo da qual tudo é dualidade e acima da qual não há a existência nem a não-existência? É a nossa velha amiga Maya.

A palavra “maya” vem do radical “ma”, que significa “construir” ou “medir”. Maya tem três poderes. O primeiro é o poder de iludir, obscurecendo a nossa percepção da luz pura. O segundo é o poder de projeção, que converte a luz pura nas formas do mundo sensível, tal qual um prisma transforma a luz branca nas cores do arco-íris. Esses são os poderes que transformam o transcendente no mundo temporal, espacial, que conhecemos juntos com todas as coisas.

Se você pintar diversas cores num disco e o girar, elas revelarão o branco novamente. Assim, as cores desse mundo podem ser moduladas; elas podem ser ordenadas de forma tão artística que o farão experimentar, através delas, a luz verdadeira. Esse é o poder revelador de Maya – e a função da arte é servir a esse fim. Cabe ao artista organizar os objetos desse mundo de tal forma que, por meio deles, você sinta essa luz, essa radiância que á a luz da nossa consciência na qual todas as coisas se ocultam ou, quando propriamente contempladas, revelam-se.

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A Jornada do Herói é uma jornada de padrões universais mediante a qual essa radiância se mostra com todo seu esplendor. O que julgo ser uma boa vida é aquela com uma jornada do herói após a outra. Você é chamado diversas vezes para o domínio da aventura, para os novos horizontes. Cada vez surge o mesmo problema: devo ser ousado? Se você ousar, os perigos estarão lá, assim como a ajuda e a realização ou o fiasco. Existe sempre a possibilidade do fiasco.

Mas existe também a possibilidade da bem-aventurança.”

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Sobre L. F. Barbosa

"NOSCE TE IPSUM"
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2 respostas para Contos de Fadas, Arte e Transcendência

  1. Quetz disse:

    Gostei bastante deste post. Principalmente do primeiro conto, achei interessante também a visão dele ocorrer como um processo interno do ser, sendo o sapo parte do ser que o self não aceita, e sempre esteve nas profundezas…

    • Grato pelo comentário, Quetz! Observação: Na verdade, o Self é a totalidade. A rejeição de certos aspectos da totalidade do ser ocorre por parte do Ego. O Self na história é representado pela esfera de ouro, que a princesa deixa cair no fundo da lagoa, e justamente o Sapo, aquela parte rejeitada, é que resgata o Self.

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