A Kind of Magic…

Friso ainda que futuramente, se for possível, gostaríamos de iniciar uma experiência social semelhante à de Crowley em Céfalu.”

Paulo Coelho para Euclydes Lacerda – 18/04/1974

A RECOMPENSA DO GIGANTE

A filosofia de Thelema (Θελεμα, em grego, “vontade”) de Edward Alexander “Aleister” Crowley foi inspirada em um dos capítulos da fantasiosa crônica “Cinco Livros sobre as vidas, feitos heróicos e ditos de Gargantua e seu Filho Pantagruel”, obra do francês François Rabelais[7] na segunda metade do século XVI.

No fim do livro I, o autor narra que ao derrotar um rei inimigo, o gigante conquistador Gargantua oferece a seus principais ajudantes enormes recompensas em terras e dinheiro. A um monge que participara da guerra a seu lado, oferece o controle de toda abadia sob seus domínios, que se estendem até perder de vista. O monge, porém, recusa-se a governar outros religiosos.

Como posso ser capaz de comandar os outros se nem tenho controle total sobre mim mesmo?”, rebate, e pede que Gargantua permita a construção de uma abadia diferente de todas as outras, onde as pessoas não seriam obrigadas a votos de castidade, pobreza e obediência e poderiam juntar-se ao monastério e abandoná-lo de acordo com sua vontade.

A primeira referência aparece no capítulo 52, “Como Gargantua fez ser construída para o Monge a “Abadia de Thelema”. Em seguida, Rabelais conta “Como a abadia dos Thelemitas foi construída e guarnecida” (capítulo 53), descrevendo em minúcias as belezas e riquezas da construção e mostra “A inscrição colocada sobre o grande portão de Thelema” (capítulo 54), que, em forma de poema, trata jocosamente das diversas personas cujas presenças seriam bem-vindas à abadia ou banidas dela. As duas listas são longas.

O autor conta “Que maneira de viver os thelemitas tinham” (capítulo 55), repletas de imagens de abundância, “Como os homens e mulheres da ordem religiosa de Thelema estavam vestidos” (capítulo 56), onde prosseguem as descrições de belezas e riquezas infindáveis. Por fim, “Como os thelemitas eram governados, e de sua maneira de viver”. Lá, proclamava Rabelais, a vida não seria “gasta em leis, estatutos, ou regras”. Não havia horários pré-estabelecidos para dormir, beber, comer, trabalhar ou dormir, nem poderia haver relógios, pois gastar tempo contando-o era um exemplo perfeito de futilidade.

Só havia uma cláusula a ser observada:

Faze o que tu queres.

Pois homens que são bem nascidos, bem criados, e acostumados a companhias honestas, têm naturalmente um instinto que as impele a ações virtuosas e os afasta dos vícios, que é chamado honra.

O resultado deste sistema libertário, segundo a descrição do médico e escritor francês, idealizada em meio à sátira aos costumes pródigos de determinados monges do século XVI, seria uma versão ainda mais romantizada da mítica Camelot dos bretões. “Nunca foram vistos cavaleiros tão valorosos, tão nobres e dignos (…) Nunca foram vistas mulheres tão apropriadas e belas”. A partir de 1904, as palavras de Rabelais ecoariam e se tornaram realidade – não tão romântica quanto em sua obra – justamente na Inglaterra. Seu realizador, no entanto, estava longe dos ideais de nobre cavaleiro medieval preconizados pelo Monge que recebeu a recompensa de Gargantua.

Simpatia pela Besta

A história de Crowley é amplamente documentada e frequentemente lida sob vieses negativos. Foi uma personalidade escandalosa para sua época e habitat, a então sisuda e puritana Inglaterra do fim do século 19 – nasceu em 12 de outubro de 1875 – e começo do século 20 – morreu em 1 de dezembro de 1947. Enquanto era vivo, já pesava sobre ele a acusação de satanista, que ora refutava ora incentivava. A definição se tornou indelével depois que suas práticas inspiraram cultos deturpados de suas teses originais, como o da família Manson, responsáveis por crimes bárbaros na década de 1960, e a Igreja de Satã de Anton Szandor La Vey[8], ícone do hedonismo narcisista que encantou alguns hollywoodianos.

Herdeiro de uma pequena fortuna ao ficar órfão, Crowley chegou à juventude dando provas de voracidade espiritual, intelectual e sexual incomuns. Em Trinity College, Cambridge, onde estudou, conheceu dois jovens que o levaram a conhecer a Ordem Hermética da Aurora Dourada[9] (Hermetic Order of Golden Dawn). Juntou-se em 1898 ao clube secreto de nobres e intelectuais europeus que se dedicava a estudar os mistérios antigos do Egito e práticas de meditação orientais com ramificações filosóficas.

Em pouco tempo, Crowley se destacou no grupo, alcançando os graus mais elevados. Ao chegar no topo, entrou em conflito com os mais antigos da ordem, especialmente com o líder do grupo, o escocês Samuel Liddell Mathers[10]. Expulso, tomou uma atitude impensável nos meios ocultistas, no qual o conhecimento é geralmente considerado como algo reservado a poucos “capazes de lidar com as enormes complexidades da existência”. Publicou, em uma compilação intitulada The Equinox[11] (O Equinócio) todos os rituais da Aurora Dourada, descritos em detalhes, eliminando para sempre o caráter “secreto” de que a ordem até então dispunha.

Não foi uma simples vingança, como muitos sugeriram, mas o princípio de uma mudança de paradigma. Àquela época, a transmissão de conhecimentos básicos, como as relações numéricas entre as letras hebraicas e os números, base da Cabala, era reservado aos “merecedores”. Crowley foi o primeiro a tornar transparente uma organização secreta, cujo maior “ativo” por definição é o sigilo de palavras e gestos de identificação (“de passe”, as populares senhas) e os rituais que praticava.

Insatisfeito com a experiência da Golden Dawn, Crowley criou seu próprio grupo, a Astrum Argentum, com uma estrutura diferente. Os iniciados não mantém contato como grupo, não há reuniões e cada integrante conhece apenas seu iniciador e seus iniciados – pelo menos, em tese. Na organização, aplicava o conceito de Thelema e de magick, que formulou a partir de 1904, em uma viagem ao Egito com a primeira esposa, Rose Kelly. De volta à Inglaterra, Crowley apresentou ao seu instrutor, George Cecil Jones, um livro que disse ter sido comunicado a ele por uma entidade “preternatural” intitulada Aiwass (um fundamental trocadilho com “I was”, eu era) ditado pela essência do escriba dos deuses do Egito, Ankh-f-n-Khonsu, refletindo as palavras dos próprios Ísis, Osíris e Hórus. Jones recebeu a obra com desdém: ”Eu não aprecio poesia”. Algum tempo se passaria até que adotassem a lei de thelema.

O próprio título tinha uma explicação que desafiava os que ousassem lê-lo: “Liber AL vel Legis sub figurâ CCXX [220], como entregue por XCIII [93] = 418 a DCLXVI [666]”. O número 220 aludia à quantidade de versos espalhados ao longo dos três capítulos que descrevem as diferentes eras (æons, em grego) da humanidade. O 93 se tornaria um número precioso para os nascentes thelemitas, representando a soma da palavra da Lei, Thelema (Vontade, em grego), e passando a ser usado como saudação. O 418 representava um personagem-chave da trama, e o 666 era o novo título de Crowley, perfeito para chocar a sociedade vitoriana.

A frase tão repetida nas músicas de Raul Seixas, via de regra, é citada fora de seu contexto. Encontra-se no primeiro capítulo do Livro da Lei, na “manifestação de Nuit” (Ísis), o primeiro æon, da energia feminina, que anuncia ser Thelema a “palavra da lei”. Ela afirma que chamá-los (os seguidores desta, presume-se) de “thelemitas” não seria um erro, mas alerta que a palavra conteria três graus, ou facetas: o eremita, o amante e o homem da terra. No original, a frase em questão é Do what thou wilt shall be the whole of the Law. Na tradução de Marcelo Ramos Motta, Faze o que tu queres há de ser tudo da Lei.

Nuit/Ísis explica que se a palavra da Lei é Vontade, a do Pecado é a Restrição. Incentiva os maridos a não recusarem suas esposas, e os amantes a partirem, se assim quiserem. “Não há laço que possa unir os que estão divididos a não ser o amor. Todo o resto é maldição”, sentencia, seguido de um praguejar contra os “malditos”. A deusa continua, dizendo que uma pessoa não tem direito a não ser fazer o que quiser, e que, fazendo isto, não seria contrariado por ninguém. “Pois a vontade pura, desembaraçada de propósito e livre do desejo de resultado, é todavia perfeita”, condiciona, estabelecendo os elementos básicos para que a vontade seja considerada verdadeira dentro do sistema. Pura, desembaraçada de propósito e livre do desejo de resultado.

No segundo capítulo, sob a manifestação de Hadit (Osíris), as palavras se tornam mais ásperas. Neste æon, o poder masculino torna-se proeminente. Surge a divisão entre fortes e fracos, servos e escravos. Surge então outra frase que ecoaria nos ouvidos da juventude de 1970 em diante: “Nada temos com o pária e o incapaz: deixe-os morrer em sua miséria. Pois eles não sentem. Compaixão é vício de reis: pisai o retorcido e o fraco: esta é a lei do forte: esta é a nossa lei e alegria do mundo.”

Adiante, apesar de confirmar que existe uma divisão incontornável entre dominante e dominado, alerta para a possível falsidade das aparências: “Portanto os reis da terra serão Reis para sempre: os escravos servirão. Não há o que deva ser rebaixado ou elevado: tudo é como sempre foi. No entanto, há mascarados, meus servos: pode ser que aquele mendigo seja um Rei. Um Rei pode escolher sua vestimenta como quiser: não há teste seguro: mas um mendigo não consegue esconder sua pobreza”.

O terceiro æon, de Ra-Hoor Khuit (Hórus), é sem dúvida onde se encontram as palavras mais duras. “Que primeiro seja compreendido que sou um deus da Guerra e da Vingança. Eu lidarei duramente com eles”, proclama. Adiante, depois de uma série de instruções de acordo com o espírito enunciado, o irado deus falcão faz uma advertência:

Não recuses ninguém, mas tu deverás conhecer & destruir os traidores. Eu sou Ra-Hoor-Khuit; e eu sou poderoso para proteger meus servos. Sucesso é tua prova: não discutas; não convertas; não fales demais! Eles que procuram te emboscar, te suplantar, ataca-os sem piedade ou misericórdia; & destrua-os inteiramente. Suave como uma serpente enrodilhada, vire-se e ataque! Seja mais mortal ele! Arraste suas almas para eterno tormento: ria do medo deles, cuspa neles!

Ao fim do livro, um recado ameaçador, o Comentário. Nele, o mesmo escriba dos deuses que acabara de colocar no papel todas essas mensagens proibia o estudo do Livro, dizendo ser prudente destruir a cópia após a primeira leitura. “Quem desconsidera isto o faz por seu próprio risco e perigo. Estes são os mais terríveis. Todos os que discutem os conteúdos deste livro devem ser evitados por todos, como focos de pestilência”.

Apesar da proibição, ou talvez por causa dela, Crowley foi recebido pelos ocultistas como o “profeta, vate e apóstolo” que se intitulava, supostamente de forma retórica, no Livro da Lei. Passou a comportar-se como tal. Criou sua ordem, a Astrum Argentum (A∴A∴), em 1907. Três anos depois, ao publicar um livro em que insinuava, metaforicamente, a utilização da energia gerada pelo ato sexual para a realização de um objetivo específico, dentro de um ritual mágico, foi convidado a ingressar na Ordo Templi Orientis (O.T.O.), organização de origem alemã cujos níveis mais elevados desembocavam na magia sexual.

Para Euclydes, o Livro da Lei marcava, simbolicamente, a época em que o ser humano devia assumir responsabilidade por seus atos, em vez de atribuí-los a poderes superiores. O desenvolvimento completamente novo era uma espécie de religião baseada não no temor do castigo divino ou universal, mas na expressão daquilo que representasse a verdadeira vontade de cada um. Era o segundo rompimento de Crowley com a “velha ordem” da magia, do segredo. O juramento da A∴ A∴, explicou-me, continha a frase “mistério é inimigo da verdade”. “Na primeira vez que li, eu realmente destruí o livro, coloquei fogo. Aí, liguei para o Marcelo e contei o que tinha feito. Ele riu e disse: Vou te mandar outra cópia.”

Assim como ocorreu na Aurora Dourada, Crowley rapidamente dominou o que a O.T.O tinha a oferecer. Tornou-se líder da ordem na Inglaterra, e depois, passou a ameaçar o poder dos prussianos Theodor Reuss e Carl Kellner, que iniciaram a ordem em 1902, adquirindo permissões para estabelecer grupos com base em dois ramos da Maçonaria: os ritos de Mênfis e Misraim e o Rito Escocês Antigo e Aceito. Não demorou até que houvesse um rompimento com o grupo que se recusou a aceitar a Lei de Thelema como base dos trabalhos iniciáticos, e ele reivindicasse para si o título de Cabeça Externa da Ordem (OHO, na sigla em inglês).

Os detratores do bruxo inglês sequer precisavam se esforçar para fuçar motivos para condená-lo como herege, pervertido sexual, drogado. Ele mesmo fornecia os elementos para as acusações, em seus muitos escritos. Sua extensa aubiografia, reveladoramente denominada “Confissões” (Confessions of Aleister Crowley, sem tradução em português), traz detalhamento e distanciamento talvez jamais vistos numa autobiografia. Ou, como ele debochadamente a classificou, uma “auto-hagiografia”, tomando emprestado o termo usado pelos católicos para as biografias de beatos, santos, mártires e demais devotos fervorosos.

Era uma personalidade desafiadora da religião desde a infância, conforme seu próprio relato minucioso. Criado por pais ultrarreligiosos integrantes da seita protestante Irmandade de Plymouth, Crowley se rebelava constantemente e acabou ganhando da mãe a alcunha da qual viria a se “gabar” no meio ocultista décadas depois: a Grande Besta do Apocalipse. Nome perfeito para provocar a sociedade vitoriana, ao qual ele acrescentou camadas e camadas de simbolismos mágicos e numerológicos, relacionando-a ao signo de Leão, outro componente astrológico da famosa “Era de Aquário”, na qual supostamente ocorreria a iluminação espiritual da humanidade.

Na Itália, montou sua versão da Abadia de Thelema, numa vila portuária chamada Céfalu, na Sicília, banhada pelo mar Tirreno. A população, que hoje provavelmente não passa dos 15 mil habitantes, certamente era bem menor em 1920. O local era denominado oficialmente Collegium ad Spiritum Sanctum, onde Crowley e sua então esposa, Leah Hirsig, preconizavam adorações ao sol, exercícios de yoga e outras práticas rituais – algumas envolvendo atos sexuais e outras envolvendo algum tipo de substância inebriante, ainda que fosse o álcool do vinho.

Três anos depois de instalada, já malvista pela comunidade local, a congregação libertária foi abatida pela morte de um de seus estudantes, Frederick Charles Loveday. Retornando à Grã-Bretanha, a esposa dele, Betty Mae Sedgewick, contou ao tablóide (sim, os tabloides já eram o mesmo que hoje na Inglaterra) The Sunday Express a história que todo jornalista sabe que vende: sexo, drogas, magia negra e morte. Ainda que a morte tenha sido causada por uma febre entérica contraída da água de um riacho e o sexo tenha sido consensual entre maiores de idade. Foi expulso da Itália por Benito Mussolini, imediatamente.

Betty Mae lançou ainda um livro, The laughing torso, acusando Crowley de praticar “magia negra”. Crowley respondeu processando-a, bem como os editores e os impressores do livro, mas perdeu. Em 1934, dirigindo-se ao júri, segundo o relato do Sunday Express, o juiz ironicamente chamado Justice Swift (“justiça suave”) foi duríssimo:

Tenho estado há mais de quarenta anos engajado na aplicação da lei de uma maneira ou de outra. Pensei que conhecia toda forma concebível de perversão. Pensei que tudo que era sórdido e ruim haviam sido apresentadas diante de mim uma vez ou outra. Aprendi, neste caso, que sempre podemos aprender algo mais se vivermos o suficiente. Nunca ouvi coisas tão tenebrosas, horríveis, blasfemas e abomináveis como as apresentadas pelo homem que se descreveu para vocês como o maior poeta vivo”.

Crowley acabou considerado culpado de pagar cinco libras por cartas de Betty Sedgewick que poderiam conter informações importantes a serem usadas no tribunal. Resumindo as palavras do juiz, passou a se intitular “o homem mais pervertido do mundo”. Uma explicação para este tipo de comportamento encontra-se no capítulo 53 de sua autobiografia, quando fala sobre o Bagh-i-Muattar, escrito em 1905, no qual inventou o poeta muçulmano do século 17 Abdullah al Haji, suposto autor do livro, bem como um major anglo-indiano que o traduziu e comentou, o editor que completou o trabalho do militar, que teria sido morto na África do Sul, e até um clérigo anglicano para discutir os temas da obra. Sempre imodesto, ele comentou:

Este espasmo de gênio é um eloquente retrato de minha mente nesta época. Eu estava absolutamente convencido da suprema importância de devotar a minha vida a obter Samadhi, a comunhão consciente com a Alma Imanente do Universo. Eu acreditava no misticismo. Entendia perfeitamente a essência de seu método e a importância de sua obtenção, mas me sentia compelido a me expressar de formar satírica e (pode parecer a alguns) quase escandalosa. Eu dava testemunho da tremenda verdade eu empilhava ficção em cima de ficção. Eu não sabia. Eu não suspeitava, mas o Bagh-i-Muattar é um sintoma de suprema significância. Eu estava à beira de um desenvolvimento completamente novo.”

Ao morrer, em 1 de dezembro de 1947, seus discípulos na O.T.O. entraram em disputas explícitas e aguerridas pelo poder. Crowley foi ambíguo em suas declarações sobre quem deveria sucedê-lo. Karl Germer, seu secretário particular, era apontado em um documento como seu “agente e representante”. Grady Louis McMurtry e Kenneth Grant, alunos destacados, foram em diferentes momentos apontados como possíveis continuadores do trabalho mágico.

Germer e o suíço Herman Joseph Metzger, líder do grupo da O.T.O. que não havia aceitado a lei de Thelema, promoveram a reunião das duas correntes. Apesar de recusar, em sua correspondência particular, que Grant o considerasse como superior na ordem, Germer se enfurecer com a aproximação deste a outra corrente e expulsou-o, provocou mais um cisma na ordem. Surgia a OTO do ramo ‘tifoniano’, liderado por Grant.

Para simplificar bastante uma longa e complicada história contada com documentos por Peter König em seu site The OTO Phenomenon[12], após a morte de Germer, houve nova rodada de disputas de poder, das quais Marcelo Motta participou, opondo-se à facção comandada por Grady McMurtry, denominada Califado. Houve ainda uma intrincada disputa pelos direitos autorais das obras de Crowley, constantemente reeditadas mundo afora até o advento da internet, que resultaram, na década de 1980, em processo judicial contra o brasileiro e processo dele contra outros executores literários do inglês. Além dos livros doutrinários de Thelema, a maioria dos quais se encontra disponível gratuitamente online, Crowley legou itens de sucesso comercial, como o baralho de Tarô

Na introdução publicado ao seu Liber 418, trabalho realizado em 1909 com o qual confirmava o Livro da Lei como resultado de uma visão inspirada, Crowley foi taxativo:

Admito que minhas visões possam não significar a outros o mesmo que significaram para mim. Não lamento este fato. Tudo que peço é que meus resultados convençam os buscadores da verdade de que existe algo realmente digno de ser alcançado, podendo usar métodos mais ou menos parecidos com os meus. Eu não quero liderar rebanhos, ser objeto de admiração de tolos e fanáticos ou o fundador de uma fé cujos seguidores são ecos de minhas opiniões. Eu quero que cada homem abra o seu próprio caminho mata adentro”.

Segundo um integrante inativo de um grupo de caráter thelêmico brasileiro, que pediu anonimato, Crowley escondeu a essência do seu pensamento com camadas e camadas de práticas místicas que, realizadas sem o rigor apropriado, podem até ser prejudiciais.

Tem de tudo, porque ele fazia uma grande miscelânea de conhecimentos. A comparação pode parecer esdrúxula, mas Crowley aplicava ao ocultismo e às religiões o que o Bruce Lee faria décadas depois nas artes marciais, absorva o útil, rejeite o inútil. Então, tem meditação, controle da mente, da respiração e da fisiologia, mas tem coisas também que os cristãos podem chamar de demoníaco, as invocações da Goécia, por exemplo, apesar de terem um significado complexo. O pessoal se contenta normalmente em parar nas frases de efeito, mas Crowley deixou as pistas dele espalhadas ao longo de seus trabalhos. É preciso aprender a lê-lo”, afirmou.

A mais equilibrada e precisa definição do sistema aperfeiçoado por Crowley foi provavelmente escrita pelo jornalista Mick Wall, biógrafo da banda de rock Led Zeppelin, criada por Page. Em Quando os gigantes caminhavam sobre a Terra (Editora Larousse), ele explica:

Não estamos falando de bruxaria simples, do tipo que costuma ser encontrado nos romances de Stephen King ou nos filmes de abracadabra de Harry Potter (embora muitos outros livros, filmes e outras famosas obras de arte incorporem elementos do ritual mágicko genuíno. Segundo Eliphas Levi, mágico e escritor do século 19, o conhecimento do oculto – isto é, o conhecimento oculto dos séculos que remonta à era pré-cristã, até a serpente e o Jardim do Éden – é um produto de equações filosóficas e religiosas tão exatas quanto as de qualquer ciência. Além disso, quem for capaz de adquirir tal conhecimento conseguir usá-lo de maneira correta se tornara imediatamente mestre dos outros que não têm a mesma habilidade.

Paracelso, um dos primeiros defensores da arte dos magos, escreveu no século 16: “A magia é uma grande sabedoria escondida… não há armadura que consiga dar proteção, pois ela atinge o espírito da vida. Disso podemos estar certos”. Ou, como Aleister Crowley – talvez o ocultista mais famoso depois de Merlin – afirmou em 1928, em seu Magick in theory and practice, o primeiro livro a despertar a atenção de Jimmy Page para as possibilidades do oculto: “A Magicka é a arte e ciência da mudança em conformidade com a vontade. (O K foi acrescentado por Crowley à palavra “magic” não só para diferenciar o que ele estava falando dos truques simples empregados pelos feiticeiros, mas também por questões ligadas ao ocultismo: as seis letras da palavra “magick” em inglês representavam um equilíbrio em relação à palavra original de cinco letras “magic”, equilibrando o hexagrama e o pentagrama, 5+6=11, o número geral da mágicka, ou energia que tende a mudar, como ele afirmou em seu livro de 1909, 777.)  

A partir da década de 1960, parte de seus conceitos foram absorvidos pela contracultura. Sua clássica careca aparece na ilustração do disco dos Beatles, Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band (1967), entre as figuras históricas e populares escolhidas pelo quarteto de Liverpool. Os Rolling Stones também tiveram seu flerte com as ideias  dos excessos sexuais. Os exemplos mais notórios de artistas que fizeram trabalhos de fato inspirados nele são o guitarrista Jimmy Page, o cineasta Kenneth Anger e, obviamente, Raul Seixas e Paulo Coelho. Sua mensagem se popularizou, mas não sem ruídos.

[…]

Depois da conversa inicial, em que abordamos superficialmente diversos assuntos, perguntei a Euclydes o que significava Thelema, na concepção dele. A resposta:

Psicologia pura. É o conhecimento do homem, de si próprio. É mexer com certos arquétipos que existem na psique humana. colocá-los para fora, entrar em contato com esses eles e aprender. Isso vem de longa data, através da genética. Temos um conhecimento muito profundo, mas não entramos em contato com ele. Por que? Porque a mente material, a mente mundana foi criada e o subconsciente ficou lá atrás. Quando você sonha, quem fala com você é o seu subconsciente. Ele te dá instruções, diz se você tá doente ou não. A mente que nós usamos no dia a dia é uma mente artificial, para a sociedade. Criada pelos costumes, pelos tabus. O homem não é isso. O homem é aquilo que está lá dentro”.

Excerto de um trabalho publicado em: Thelema – Espaço Novo Aeon.

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I’ll be your mirror…

Recentemente tem se falado muito sobre preconceito, homofobia, racismo e fanatismo religioso. Todos nós sabemos que esse tipo de comportamento é fruto da ignorância. Mas, como se dá o processo psicológico interno das pessoas que tomam partido de ideologias tão débeis, alienantes e, graças à Deus, já moribundas? Vamos misturar um pouco de psicanálise e psicologia analítica no nosso caldeirão para descobrir à luz do conhecimento o que acontece com essas infelizes criaturas?

Podemos dizer que, num nível primário, as pessoas têm três pulsões psicológica: Id, Ego e Super-Ego. O Id é o universo primitivo, é a pulsão animal, o instinto de sobrevivência, reprodução/prazer sexual e agressividade. O Ego é uma espécie de universo semi-consciente humano (mas que tem o potencial para se tornar plenamente consciente), responsável por intermediar as diversas pulsões do ser e por possibilitar o equilíbrio entre essas pulsões, mas que geralmente, quando não trabalhado de forma saudável, acaba rejeitando certos aspectos do ser e criando mecanismos de defesa como a persona para atuar contra esses aspectos rejeitados. Super-Ego seria uma espécie de eu-ideal, responsável por ditar os comportamentos adequados e leis que devem ser seguidas e intimidar ou subornar o Ego através de reforços positivos ou reforços negativos.

Esse é um quadro por demais negativo do ser humano. Existem outras possibilidades, mas na realidade, na maioria dos casos, as pessoas se limitam somente à esses aspectos. O que ocorre nesse tipo de pessoa é uma submissão nada saudável do Ego ao Super-Ego, e a criação de uma Persona terrível para subjugar e esconder as pulsões do Id. Basicamente, essas pessoas vivem em função de agradar a imagem ideal que fazem do Papai, da Mamãe, da Sociedade, do Governo e da Igreja, ou seja, vivem em função de subjugar seu próprio ser para seu Ego/Persona receber reforçadores positivos (e evitar os negativos) do próprio Super-Ego e do Ego/Persona de outras pessoas que também são subjugadas pelo próprio Super-Ego. Simples né?

Mas aqueles que não possuem equilíbrio interno ou força de vontade suficiente para não ceder aos assédios desequilibradorescom certeza não são feitos de ferro. Cedo ou tarde a pessoa que rende devoção extrema ao Super-Ego vai ceder ao Id. Nessa hora o Id aparece, sob o véu da persona, na forma de fanatismo, radicalismo, sectarismo et cetera, et cetera.

Id como abordado na psicanálise pode ter alguma identificação com a Sombra da psicologia analítica, com a diferença que, para Jung e para os estudiosos que se identificam com os seus trabalhos, a Sombra não abarca somente os aspectos animalescos e primitivos do ser, mas também aspectos sublimes e divinos.

O problema e o entrave na expansão da consciência se dá quando as pessoas perdem o controle e deixam se levar somente por uma das pulsões. Seja pelo Super-Ego ou pelo Id. Assim o Ego entra em choque e cria uma persona que irá atuar de modo a esconder os aspectos indesejados na Sombra. Esse é o caminho inverso à natureza, é um caminho destrutivo. O correto é trazer à consciência os aspectos ocultos e descobrir que eles não são tão ruins, são naturais e saudáveis.

Para a psicologia junguiana e para diversas correntes espiritualistas, quando o ser está em equilíbrio, o Ego, o Id, o Super-Ego, a Sombra, se tornam um só e deixam de existir, dando lugar ao Self, a plenitude do ser.

Geralmente o que ocorre nos fanáticos religiosos, por exemplo, na verdade não é homofobia. É self-fobia. Eles têm medo de si mesmos. Para os fanáticos religiosos, as pessoas que não partilham das suas idéias são espelhos. São reflexos do que eles mesmos poderiam ser se não cedessem ao medo: livres. Aí ocorre a projeção. Mecanismo pelo qual as pessoas dão vasão aos aspectos da Sombra através da Persona para que a mente consciente não reconheça esses aspectos como fazendo parte delas mesmas. É o famoso comportamento “shift the blame” que deu origem ao velho jargão do “macaco que não olha pro próprio rabo”.

Não sabemos ao certo quanto tempo levará para que as pessoas deixem de lado o medo, que é a origem de todas as formas de preconceito. Mas é certo que cedo ou tarde as pessoas deixarão o medo de lado, afinal, como nos ensinou o Mestre Yoda: “Fear leads to anger. Anger leads to hate. Hate leads to suffering”. Cedo ou tarde as pessoas terão consciência de que o medo só traz sofrimento e de que a origem do preconceito está no medo de conhecer a si mesmo se identificando com as outras pessoas.

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“I’ll be your mirror”

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Contos de Fadas, Arte e Transcendência

Trecho da obra Mito e Transformação, da autoria de Joseph Campbell.

“Vou contar algumas histórias que seguem o modelo da Jornada do Herói. Pensem nelas como se fossem imagens para meditar.

A primeira história que eu gostaria de abordar é “O Príncipe-Sapo”, a primeira dos Contos de Grimm. Começamos com uma menina – uma princesa, é claro – que tem uma bolinha de ouro.

O ouro é um metal incorruptível e a esfera é a forma perfeita. Então, a bola é ela – a bola é o círculo da sua alma. A menina gosta de passear à beira da floresta. A história se passa na Alemanha, onde a floresta equivale ao abismo, como eu já disse. Ela fica por ali brincando e há uma lagoazinha bem próxima, uma fonte pequena, que é a entrada do mundo subterrâneo. E é ali que ela gosta de brincar com a sua alma. Arremessa a bolinha e a pega, arremessa e pega, arremessa e pega, até que, enfim, não consegue pegar a bola, que cai na lagoa.

Esse é o self da garota, o seu potencial, engolido pelo mundo subterrâneo. Quando isso acontece, o poder que existe lá embaixo chama o dragãozinho que é o guardião do limiar: um sapinho feio. O sapo do fundo da lagoa é uma variante do dragão dos contos de fada.

A menina perdeu a bola e começa a chorar; ela perdeu a alma. Ou seja, isso é depressão, é perda de energia e alegria de viver; algo crucial lhe escapou. Esse tipo de perda tem uma equivalência na Ilíada, o rapto de Helena de Tróia, que põe em movimento toda essa aventura épica, já que os príncipes e os guerreiros da Grécia foram obrigados a resgatá-la.

Nessa história, a bolinha de ouro afundou, e da lagoa emerge o sapo, o habitante do mundo subterrâneo, que diz: “Qual o problema, menina?”
Ela responde: “Perdi minha bola de ouro”.
O sapo diz com toda a bondade: “Vou pegá-la para ti”.
“Seria muita gentileza”.
Por ser sensato, o sapo pergunta: “E o que vou ganhar em troca?”

Por uma dádiva como a que ela espera, é preciso desistir de algo; deve ser feita alguma espécie de troca. Então a princesinha diz: “Vou dar-te a minha coroa de ouro”.
Ele balança a cabeça verde. “Não quero tua coroa de ouro”.fairy_tale_Frog
“Vou dar-te o meu lindo vestido de seda”.
“Não quero teu lindo vestido de seda”.
“Então”, aflige-se ela, “o que queres?”
“Quero comer contigo à mesa, quero ser teu companheiro e quero dormir contigo em sua cama”.
Subestimando o sapo ela diz: “Está bem, pode ser”.
O sapo mergulha e traz a bola de volta. O curioso aqui é que ele também é o herói da aventura. Ele traz a bugiganga para dar a princesa. Ela, sem muito mais que um obrigado, pega a bola e volta saltitante para casa. O sapo a segue aos saltos, dizendo: “Espere por mim!” Infelizmente, ele é muito lento e a princesa chega a sua casa bem antes dele, achando que o deixou para trás.

Naquela noite, a princesinha, o Rei Papai e a Rainha Mamãe estão jantando. Parece que nesse palácio a mesa de jantar era bem próxima da porta da frente. Eles estão comendo em pratos requintados quando aquela coisa viscosa entra saltando pelos degraus, e a menina fica pálida.
Diz o pai: “Qual o problema querida? O que há?”
Responde ela: “Ora, é só um sapinho que conheci”.
O Rei por ser sábio, diz: “Fizeste alguma promessa?”

Aí entra o princípio moral, o complexo da persona – você sabe que é preciso correlacionar todas essas coisas. Claro que a princesa é obrigada a dizer que fez mesmo uma promessa. Então o Rei afirma: “Abre a porta e deixa-o entrar”.
O sapo entra. A princesa, um pouco embaraçada, arruma um lugarzinho para o sapo debaixo da mesa, mas ele não quer nem saber. Diz o sapo: Não, quero sentar-me à mesa. Quero comer no teu prato de ouro”. Como se pode imaginar, isso estraga o jantar da jovem dama.

Terminada a refeição, ela se prepara para dormir. E lá vem o sapo de novo, pulando os degraus atrás dela e batendo na porta: “Quero entrar”.
Ela abre a porta e o deixa entrar.
“Quero dormir na cama contigo”.
Os freudianos adoram essa história.
Isso ela não consegue aturar. Essa história tem finais diferentes, e o mais famoso é aquele em que ela beija o sapo, e ele é transformado. Mas o que eu gosto mais é o que ela o pega neste momento e o atira contra a parede. E o sapo se despedaça e dele sai um lindo príncipe com cílios longos como os de um camelo.

Acabamos descobrindo que ele também estava numa enrascada. Ele havia sido amaldiçoado e transformado num sapo por uma bruxa. Eis um menino que não se arriscou a entrar na vida adulta. Ela é a menina quase entrando na vida adulta, e ambos a vêm rejeitando, mas agora um ajuda o outro a superar essa estagnação neurótica. Claro, eles se apaixonam de imediato trocando a anima pelo animus.

Conta a história que na manhã seguinte, depois de ter apresentado o príncipe ao Papai e à Mamãe, depois de terem se casado, uma carruagem real pára diante da porta da frente. Sabe-se então que ele é mesmo um príncipe, e essa é sua carruagem que veio buscá-lo para levá-lo de volta ao seu reino, que estava desolado desde a época que o rapaz foi transformado em sapo. Esse é o tema da terra desolada, imagem central das novelas do Graal, durante a Idade Média. O rei é o coração da terra e, enquanto ele está incompleto, a terra segue desolada.

Assim, a noiva e o noivo entram na carruagem e, quando partem, ouve-se um estouro. O príncipe pergunta ao cocheiro: “Qual o problema Heinrich? O que aconteceu?”
O cheiro responde: “Desde que o senhor partiu, digníssimo príncipe, havia quatro cintas de ferro em torno do meu coração, e uma delas acaba de arrebentar”.

Aí, é claro, à medida que eles seguem o caminho, há mais três estouros, e o coração do cocheiro volta a bater do modo correto. Obviamente, o próprio cocheiro simboliza a terra, que precisa do príncipe como poder gerador e governante. Mas o jovem falhara no seu dever ao recusar o chamado. Ele desceu ao outro mundo contra sua vontade, mas lá encontrou a sua noiva. Então está tudo bem.

Gosto bastante dessa história porque os dois estão em apuros, no fundo do poço, e um ajuda o outro. E, nesse ínterim, o mundo aqui em cima aguarda o retorno do seu príncipe.

Outra história que segue esse modelo de modo interessante é dos navajos. Chama-se “Where the two came to their father”, tema principal do primeiro livro em que trabalhei, editando e fazendo comentários para a antropóloga Maud Oakes.

As histórias como essa dos índios norte-americanos apresentam quase sempre heróis gêmeos. Um é o ativo e o outro, o contemplativo – o extrovertido e o introvertido.

O primeiro jovem chama-se Matador de Inimigos. Esse é o extrovertido, o energético. O segundo chama-se Filho da Água. É o mago. A mãe deles, a Mulher Mutante (Changing Woman), engravidou dos dois quando o Sol a fecundou no seu curso pelo céu.

Há monstros nas redondezas, e mãe diz aos filhos: “Não se afastem muito de casa. Vocês podem se dirigir para o leste, o sul e o oeste, mas nunca para o norte”. Claro, eles vão para o norte. Como mudar uma situação senão desobedecendo às regras? A proibição dela é o chamado à aventura.

Eles querem ir ao seu pai, conseguir armas para ajudar a mãe e derrotar todos os monstros. O Homem Arco-Íris os transporta até a beira do mundo conhecido, o limiar. Em cada ponto cardeal, o caminho está obstruído por um guardião do limiar: o Menino das Areias Azuis, o Menino das Areias Vermelhas, o Menino das Areias Pretas e o Menino das Areias Brancas. Eles conseguem convencer esses ogros fazendo adulações e dizendo a eles que vão pegar armas com seu pai, o Sol. Os guardiões os deixam passar.

Agora eles estão além do mundo conhecido; numa espécie de deserto, onde não há nenhum traço reconhecível na paisagem. Os gêmeos topam com uma senhora baixinha, chamada Velhice. Pergunta ela: “O que fazem aqui, garotos?” Eles dizem que vão ao seu pai, o Sol. E ela: “É muito, muito longe. Vocês ficarão velhos e morrerão antes de chegar lá. Vou dar-lhes um conselho. Não andem pelo meu caminho. Andem pela direita”.

Os gêmeos saem caminhando, esquecem-se e andam pelo caminho dela. Então sentem-se cansados e velhos. Têm de se apoiar em paus e mal conseguem andar direito. Ela aparece e diz: “Ah, ah, ah, eu avisei”.
“Será que a senhora não consegue dar um jeito na gente?”
Então ela esfrega as mãos nas axilas e nas costas e depois no corpo dos garotos. Eles voltam à vida. Aí a Velhice diz: “Agora sigam em frente e, desta vez, fiquem fora do meu caminho”.
Eles estão perambulando pela lateral do caminho quando vêem uma fumacinha sair do chão, o fogo da Mulher-Aranha. Ela é outra auxiliar mágica, uma encarnação da Mãe-Terra. Ela os convida a entrar no seu buraquinho no chão e lhes oferece a comida certa para lhes dar forças. Conta quais são os perigos no caminho a ser percorrido, dá-lhes um amuleto mágico – uma pena – e os manda seguir viagem.

Os gêmeos topam com as três provações que bloqueiam o caminho: um cacto que espeta, rochas que se chocam e juncos que cortam. A Mulher-Aranha lhes deus uma pena para protegê-los de todas as coisas, e assim eles conseguem passar sãos e salvos.

Por fim eles chegam ao mar que circunda o mundo – existem planos diferentes nesse mundo desconhecido. Agora é a vez da travessia do mar, que eles cruzam voando com a pena. Há um lugar em que o mar e o céu se juntam, e é azul sobre azul, no ponto exato em que se encontra a casa do Sol, no leste. Agora eles chegam ao local das provações da aventura – até esse momento houve apenas provas preliminares.

Junto à casa do Sol está sua filha – o Sol, claro, está fora, na sua viagem diária. A filha pergunta aos gêmeos: “Quem são vocês?”
Eles respondem: “Somos os filhos do Sol”.
Surpresa, ela diz: “Ah, é? Quando meu pai voltar vai ficar bem bravo. Acho melhor eu esconder vocês”. Então ela os envolve em nuvens das quatro cores e os guarda sobre duas portas diferentes.

À noite, o Sol chega e desmonta do seu cavalo. Seu escudo é o disco solar. Ele pendura o escudo na parede, que fica batendo contra ela – blém, blém, blém. O Sol se vira para a filha e diz: “Quem são aqueles dois jovens que vi vindo para cá hoje?”
Diz a filha: “Você sempre me disse que é bem comportado quando está dando a volta ao mundo. Esses dois garotos dizem que são filhos seus”.
“Bem” – diz ele. “Vamos tirar isso a limpo”.
Então o Sol os encontra, os faz descer e dá início a um procedimento importante que se encontra em muitas, muitas histórias: o pai pondo o filho à prova – ou, nesse, os filhos. E trata-os com a sorte de brutalidades. Joga-os contra pontas enormes nas quatro direções; os gêmeos se agarram firmemente à pena da Mulher-Aranha. Dá-lhes tabaco para fumar; eles se agarram firmemente à pena. Coloca-os num local de suadouro para que morram no vapor; eles se agarram firmemente à pena. Enfim, o Sol diz: “Vocês são de fato meus filhos. Vamos passar para a sala ao lado”.

Lá ele estende no chão duas mantas de búfalo e coloca um menino em cada uma. Os poderes do trovão se apresentam, ouve-se um grande estrondo e eles recebem um nome apropriado. O Sol lhes diz como eles se chamam. Eles assumem sua altura apropriada, e o pai lhes entrega as armas de que necessitam.

Lightning Armor House_navajo_twin_warriors

Essa é a reconciliação com o pai e a conquista da dádiva. Agora eles precisam voltar para casa. O Sol os leva para o buraco no céu e, ao chegarem ali, passa-lhes a prova derradeira: qual é o nome de vocês? Como se chama a Montanha do Norte? E a Montanha do Leste? E a Montanha Central?

Eles respondem a todas essas perguntas porque dois espíritos minúsculos sussurram todas as respostas em seus ouvidos. Um se chama Mosca Negra e o outro, Vento Pequeno. Contaram-me que, quando caminhamos pelo deserto, aparece uma mosca grande que pousa no nosso ombro – talvez vocês já saibam disso. Diz-se que essa mosca é o Espírito Santo. Trata-se de uma visita do espírito, e é ele quem sopra todas as respostas.

Os gêmeos passam na prova e descem para a Montanha Central – o axis mundi -, que para os navajos é o Monte Taylor, no Novo México. No sopé da montanha há um lago enorme, à margem do qual vive um monstro arquetípico – não se consegue matar um monstro de carne e osso enquanto não se mata o arquétipo. O nome do arquétipo é Grande Monstro Solitário. Curiosamente, ele também é filho do Sol.

A característica dos monstros é que eles confundem sombra com matérias. O monstro vê os meninos refletidos no lago e acha que os reflexos são o inimigo. Então ele decide beber o lago e digerir os meninos até matá-los. Bebe o lago e fica digerindo por muito tempo; depois, cospe o lago de volta. E lá estão eles de novo, na margem contrária, refletidos na água. O monstro faz o mesmo quatro vezes. A essa altura, até o Grande Monstro Solitário se sente exausto.

Os garotos se aproximam para matá-lo e, com a ajuda do Sol, aniquilam o Grande Monstro Solitário – taí, o pai sempre os amou mais.

Tendo matado o monstro, os gêmeos iniciam enfim o caminho para casa. E retornam através do limiar.

Aí surge um detalhe muito, muito interessante – um pequeno tema que se encontra em diversas mitologias: a perda da dádiva. Os gêmeos têm de cruzar o limiar de volta para casa. Eles estiveram no campo do puro poder solar. Agora precisam voltar para o domínio do poder feminino, onde a energia intensa do Sol é ajustada à vida.

Você já se perguntaram por que Zeus sempre se disfarça quando visitava as mulheres mortais? A aparição de um Deus em toda a sua glória teria matado tudo e não haveria mais vida. É preciso que haja a contrapartida da água, por assim dizer, contra o fogo solar.

Esse é o mundo em que os heróis precisaram atuar. Tendo completado seu feito mitológico, os gêmeos descem para cumprir o dever real, prático. No entanto, quando atravessam o limiar, tropeçam e as armas que o pai lhes dera se despedaçam – eles as perdem.

Aparece uma divindade que se chama Deus Falante; é o ancestral masculino de uma Talking God_najavo_twin_warriorslinhagem feminina de Deuses, assim representando os dois juntos. O nariz dele é de talo de milho; as pálpebras superiores dos olhos representam a chuva, masculina, ao passo que as pálpebras inferiores representam a névoa, feminina. Portanto, é uma figura andrógina. Ele dá aos gêmeos novas armas, novos conselhos. E assim, eles vão enfrentar os monstros que têm perturbado as redondezas da sua casa e os matam. Quando terminam o combate com os quatro monstros grandes, estão tremendamente fatigados, prestes a morrer.

Então os Deuses descem e realizam com eles um ritual de cura. E no que consiste esse ritual? É o ensaio dessa mesma história que acabei de lhes contar, a história da vida deles. É isso que o psiquiatra faz quando se aprofunda para descobrir o que ha de errado com o paciente, porque ele não está em contato com o seu inconsciente. Os Deuses conduzem os gêmeos nesse pequeno psicodrama e os colocam de volta em contato com o dinamismo do caminho da própria vida.

Esse ritual foi contado a Maud Oakes por um velho curandeiro chamado jeff King, no território navajo, no início da Segunda Guerra Mundial. Os Estados Unidos estavam convocando jovens navajos para o exército porque a língua deles era um código indecifrável – os alemães e os japoneses não tinham ninguém que falasse navajo. Quando um rapaz era convocado, o velho Jeff King realizava esse ritual com ele para torná-lo um guerreiro. O rito durava três dias e três noites, durante os quais toda a história era reencenada com canções e pinturas – há uma série de dezoito pinturas de areia maravilhosas que mostram a história. A intenção era transformar em guerreiros esses garotos que pastoreavam ovelhas, porque ser soldado requer uma mentalidade diferente daquela de quem vive numa aldeia.

Nós não fazemos esse tipo de coisa, e temos um monte de doidos que são o resultado de psiques não muito bem preparadas. Eis aí, então, a função desse mito: é um mito do guerreiro.

O velho Jeff King está enterrado no Cemitério de Arlington. Ele foi um batedor que ajudou o exército dos Estados Unidos no tempo do combate aos apaches. Jeff usava com os jovens recrutas essa antiga cerimônia de guerra que tirara do fundo do baú. Assim, transmitia a eles o uso do ritual nos assuntos corriqueiros da vida.

Qual é a aventura desses rapazes navajos? Eles saem da vida em comunidade para atuar como guerreiros. Eles têm de se submeter a uma transformação – esse é um limiar através do qual são arrastados, pode-se dizer, pela junta de recrutamento.

A Odisséia é o oposto dessa história. A Odisséia retrata a instrução de um guerreiro ao se tornar um reservista. Ele precisa voltar para o lar, deixar para trás seus hábitos de guerreiro e retornar ao mundo de inflexão feminina – de cama e mesa. Hoje não dispomos de mitos que nos ajudem a passar por essas transições. Podemos recorrer aos cacos que sobraram dos velhos mitos ou tentar voltar-nos para a arte.

Assisti recentemente aos filmes da série Guerra nas Estrelas. George Lucas convidou minha mulher, Jean, e eu para a sua casa em Marin County para vermos os filmes, que ele disse serem baseados nos meus livros, na idéia da Jornada do Herói. Como fazia trinta anos que eu não assista a nenhum filme, fiquei maravilhado.

Foi uma experiência surreal. No primeiro dia, de manhã, vimos Guerra nas estrelas, Depois vimos, à tarde, O império contra-ataca e, à noite, O retorno de Jedi. Consegui identificar nos filmes o meu material, não resta dúvida. Acabei me tornando um fã, com enorme admiração por aquele jovem. Ele tem grande imaginação artística e senso de responsabilidade para com o seu público, mostrando algo que de fato tem valor. A quantidade enorme de galáxias com as quais podia trabalhar abriu para ele um vasto campo que os poetas de outrora costumavam ter. Por exemplo, argonautas gregos subiram para o Mar Negro, onde ninguém havia estado, podiam deparar com qualquer tipo estranho de monstro ou de gente – as amazonas, por exemplo. Nesse tipo de folha em branco, a imaginação pode correr solta.

Quando assisti a esses filmes, notei que Lucas usa sistematicamente os arquétipos que aprendeu nos meus livros – ele mesmo confirma isso. Por exemplo, em O Império contra-ataca, Luke Skywalker confronta-se com aquele que ele acha ser Darth Vader, a sombra da figura paterna. Ele mata essa figura e então vê que o rosto do homem mecânico é, na verdade, o seu próprio rosto.

Luke vs Vader _ Dagobah Cave

Então, no final de O retorno de Jedi é trabalhado de forma bastante explícita o tema da reconciliação com o pai – é para isso que se encaminha a série. Na verdade, ela é uma peça de três atos: o chamado á aventura, o caminho das provações e a provação final, com a reconciliação com o pai e o retorno através do limiar.

É muito gratificante saber que meu pequeno livro esteja fazendo o que eu de fato queria que fizesse, ou seja, inspirar um artista cuja obra está realmente emocionando o mundo. The Hero with a Thousand Faces [O Herói de Mil Faces] foi recusado por duas editoras; a segunda me perguntou: “Quem vai ler isto?”. Agora sabemos.

Os artistas são auxiliares mágicos. Evocando símbolos e temas que nos conectam ao nosso eu mais profundo, eles podem nos ajudar na jornada heróica da nossa vida.

É uma brincadeira comum entre os críticos literários e alunos de pós-graduação discutir quais são as influências de determinado escritor – de quem ele pegou o estilo e as idéias. Quando a criação se desenrola, o autor se cerca de um ambiente que contém tudo que ele viveu – todos os acidentes da infância, todas as canções que ele ouviu e, também, todos os livros, poemas e textos que ele leu. Sua imaginação criativa libera essas coisas e lhes dá forma.

Todos esses mitos que você ouviu e ressoam em você constituem os elementos com os quais você dá forma à sua vida. O que vale a pena considerar é como eles se relacionam entre si no seu contexto, não como eles se relacionam a algo fora de você – não a importância que tiveram para as pradarias da América do Norte ou para as selvas asiáticas há centenas de anos, mas como eles são relevantes agora -, a menos que, ao contemplar o significado original, você consiga ampliar seu próprio entendimento do papel que eles desempenham na sua vida.

Na subida da serpente Kundalini pela espinha – que é, notem, uma outra Jornada do Herói -, o obstáculo final por superar, na passagem do sexto chacra para o sétimo, é a barreira entre o eu e seu amado, o Senhor do Universo – o Deus que é o mundo e transcende o mundo. Mas que linha divisória é essa abaixo da qual tudo é dualidade e acima da qual não há a existência nem a não-existência? É a nossa velha amiga Maya.

A palavra “maya” vem do radical “ma”, que significa “construir” ou “medir”. Maya tem três poderes. O primeiro é o poder de iludir, obscurecendo a nossa percepção da luz pura. O segundo é o poder de projeção, que converte a luz pura nas formas do mundo sensível, tal qual um prisma transforma a luz branca nas cores do arco-íris. Esses são os poderes que transformam o transcendente no mundo temporal, espacial, que conhecemos juntos com todas as coisas.

Se você pintar diversas cores num disco e o girar, elas revelarão o branco novamente. Assim, as cores desse mundo podem ser moduladas; elas podem ser ordenadas de forma tão artística que o farão experimentar, através delas, a luz verdadeira. Esse é o poder revelador de Maya – e a função da arte é servir a esse fim. Cabe ao artista organizar os objetos desse mundo de tal forma que, por meio deles, você sinta essa luz, essa radiância que á a luz da nossa consciência na qual todas as coisas se ocultam ou, quando propriamente contempladas, revelam-se.

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A Jornada do Herói é uma jornada de padrões universais mediante a qual essa radiância se mostra com todo seu esplendor. O que julgo ser uma boa vida é aquela com uma jornada do herói após a outra. Você é chamado diversas vezes para o domínio da aventura, para os novos horizontes. Cada vez surge o mesmo problema: devo ser ousado? Se você ousar, os perigos estarão lá, assim como a ajuda e a realização ou o fiasco. Existe sempre a possibilidade do fiasco.

Mas existe também a possibilidade da bem-aventurança.”

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O Guerreiro

Hail, Heroes!

Hoje iremos estudar o arquétipo do Guerreiro. Caso você ainda não esteja familiarizado ao conceito de arquétipo, recomendo, para uma melhor compreensão, que leia o texto Introdução ao Monomito e à Arquetipologia antes de prosseguir.

Warrior

O culto ao arquétipo do guerreiro está presente em todas as formas de mitologia e religiosidade. Atributos como força, agressividade, coragem e persistência são aspectos inerentes aos seres humanos e extremamente necessários para a sobrevivência. Sobretudo nas épocas e nos lugares onde a qualquer momento a sua vila poderia ser invadida por uma horda bárbara. Se você quisesse manter a sua cabeça no lugar era melhor saber como manejar uma espada ou uma lança.

A arma de guerra mais primitiva da qual temos conhecimento é a lança. Evidências arqueológicas encontradas na Alemanha, provam que lanças de madeira eram usadas para a caça e pesca há cerca de 400 mil anos. É provável (e lógico) que esse tipo de artefato também fosse usado em combates e na defesa de território. Estudos sugerem que essa tecnologia foi desenvolvida pela primeira vez há 500 mil anos por indivíduos da espécie Homo Heidelbergensis, ancestrais do Homo Sapiens e do Homo Neanderthalensis, sendo estes os primeiros a fabricar lanças com pontas de pedra há cerca de 300-250 mil anos.

As primeiras espadas começaram a ser desenvolvidas na Era do Bronze, por volta do terceiro milênio antes de Cristo. A arma mais antiga parecida com uma espada foi encontrada na região de Arslantepe, Turquia, em 3.300 a.C., no entanto é geralmente considerada uma espécie de adaga longa. Espadas de bronze eram raras e não muito práticas, uma vez que quando mais longo, mais o bronze tende a se curvar. Na China a produção de espadas começa na Dinastia Shang (1600 a.C. – 1046 a.C.) e a tecnologia de manufatura  em bronze alcança seu auge nas guerras entre os estados na Dinastia Qin (221 a.C. – 207 b.C.), sendo substituída pelo ferro somente da Dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.). Ainda na Era do Bronze, machados começaram a ser introduzidos como arma de infantaria, sendo usados principalmente quando se sabia que o oponente vestiria armaduras pesadas. sword-forgingO uso de ferro nas armas de guerra tornou-se comum durante a Antiguidade Clássica. A espada grega Xiphos e a Gladius romana são exemplos de espadas do período. Só na Idade Média espadas de aço temperado começaram a ser fabricadas, se popularizando a partir do século X na Europa e na Escandinávia. Nessa mesma época as espadas japonesas começam a ganhar sua forma definitiva de manufatura no período Jokoto (900 a.C.), embora o nome Katana só venha a ser usado pela primeira vez no século XII. E assim a espada foi evoluindo até chegarmos aos Sabres de Luz dos Cavaleiros Jedi. Pra quem quiser saber mais sobre a história da espada, esgrima e forja eu recomendo o documentário Reclaiming the Blade.

Me alonguei um pouco falando sobre a história do desenvolvimento da espada porque, afinal, esta arma é o maior símbolo do herói guerreiro. A espada é o símbolo de que o Guerreiro tem o poder de proteger, de governar e de destruir qualquer obstáculo que se coloque em seu caminho. A espada tem o poder sobre a vida e a morte. Poder que deve ser utilizado com muita sabedoria e responsabilidade. Por isso é comum em todas as épocas e lugares que os guerreiros mais importantes e os oficiais dos exércitos fossem instruídos não só nas artes da guerra, mas também em filosofia, história, religião, geografia, economia, eloquência e legislação. Ou seja, todas as artes necessárias para manter a ordem e conduzir o estado. É comum que os Deuses da Guerra também sejam Deuses das Leis e da Estratégia. Stratos em grego significa “Exército” e Agos significa “Liderança”. Desse modo vemos que, para superar as dificuldades, o guerreiro não utiliza somente a força bruta, mas também seu poder de raciocínio para organizar o seu método de ação e utilizar seus recursos com a maior eficácia possível.

Vamos conhecer algumas divindades de mitologias distintas que representam simbolicamente o arquétipo do guerreiro.

Ares, era o Deus Olímpico da Guerra, mas durante a antiguidade na Grécia seu culto era mais associado à Batalha em si. Sendo os trâmites legais, a diplomacia e a estratégia Marteatributos de Atena. Enquanto Atena era invocada pelos políticos e estrategistas, Ares era invocado pelos generais e pelos soldados no campo de batalha.

O equivalente romano para o Ares grego é Marte. No entanto o Marte romano também tinha outros atributos além do poder de destruição. Era também considerado um Deus da agricultura, da fertilidade e da virilidade. Enquanto o Ares grego era visto somente como um guerreiro bruto e excessivamente violento, o Marte romano era visto como uma deidade mais sublime. A estratégia e as leis também faziam parte dos seus domínios. Para os romanos Marte era o segundo Deus mais importante, depois de Júpiter.

Ainda em Roma temos o culto à Mithra, uma divindade solar persa que viria a ser adotada pelos romanos. O culto iniciático dos mistérios de Mithra se difundiu amplamente entre os militares.

Na Mitologia Nórdica/Germânica/Escandinava podemos colocar Thor e Tyr como os principais Deuses associados à batalha e à guerra. Thor é o Deus do Trovão, do Relâmpago, das Tempestades, do Carvalho, da Cura e da Fertilidade, sendo também considerado o protetor da raça humana, pois é o responsável pela destruição dos gigantes. Tyr é o Deus da Lei, da Glória na Batalha e do Heroísmo, por ter sacrificado sua mão direita para que o lobo Fenrir pudesse ser aprisionado. Numa tentativa de sincretizar os Deuses Romanos com os Deuses Germânicos, Tacitus comparou Odin com Mercúrio, Thor com Hércules e Tyr com Marte. Mas o fato é que na hora da batalha os guerreiros nórdicos invocavam essas três divindades com clamor pedindo proteção, força e vitória.

Divindades femininas relacionadas à guerra também são comuns. Além da já citada Atena dos gregos, temos na Mitologia Nórdica as Valquírias, que decidiam quais soldados viveriam, quais morreriam e aos quais seria permitida a entra em Valhalla. No Egito, Sekhmet, a Deusa Leoa da Guerra e da Cura, também considerada uma Deusa Solar, conta-se que sua respiração criou o deserto. Na Mitologia Celta temos Morrighan, Senhora dos Corvos e dos Lobos, que é frequentemente associada à morte violenta e à batalha.

Na Mitologia Africana o arquétipo do guerreiro é representado por Ogum, Orixá do Fogo, dos Metais e das Lutas. Considerado aquele que executa as leis divinas.

Nas mitologias orientais é comum o culto aos ancestrais. Além dos Deuses que geralmente representam forças da natureza antropomorfizadas, vemos com frequência o culto a guerreiros que viveram entre os humanos e que após a sua morte ascenderam à níveis divinos.

No Japão, existe o culto a Hachiman, Protetor dos Arqueiros e dos Guerreiros. É um culto Hachimanque mescla a religiosidade xintoísta e budista, entre os budistas ele é cultuado como um Bodhisatva, um Iluminado. Hachiman era um ancestral do clã Minamoto. Seu nome era Minamoto no Yoshiie, mais tarde adotou o pseudônimo de Hachiman Taro Yoshiie. Graças a sua capacidade de liderança e o poder militar que alcançou, tornou-se conhecido e admirado por todos, sendo homenageado nos rituais xintoístas de culto aos ancestrais. Quando Minamoto no Yoritomo tornou-se shogun, a popularidade de Hachiman cresceu entre a classe samurai, sobretudo entre os guerreiros que serviam diretamente ao shogun. Mais tarde seu culto se espalhou por todo o Japão, sendo invocado não só por guerreiros, mas também por camponeses que buscavam sua proteção. Hoje existem 25 mil templos xintoístas no Japão dedicados à Hachiman.

Na China temos o culto a Guan Yu, ou Kwan Kung, um dos guerreiros mais conhecidos da China Antiga. Protetor das Irmandades e das Artes Marciais e inventor do Guan Dao, uma das armas mais comuns nas escolas de Kung Fu, que segundo a lenda pesava 50 quilos na sua forma original.

Ainda hoje é comum nas escolas tradicionais de artes marciais manter um altar dedicado ao(s) mestre(s) fundador(es) do estilo ali ensinado.

Na ficção temos inúmeros exemplos que se encaixam no arquétipo do guerreiro. Conan, o Bárbaro Cimério e Rei da Aquilônia. Os Cavaleiros de Rohan e o Guerreiro e Rei Aragorn, da mitologia de Tolkien. O Rei Arthur e Os Cavaleiros da Távola Redonda. E muitos outros.

Quais as características que esses mitos têm em comum? A coragem, a força, a resistência, a estratégia, o poder de liderança, o poder de governar, o poder de executar a lei e principalmente o poder de destruir os obstáculos.

Aragorn

Como vimos no post A Força Interior, todos nós temos a capacidade de trazer à consciência e manifestar qualquer arquétipo que desejarmos. Todos nós temos um guerreiro dentro de nós. O papel da mitologia é nos dar símbolos e caminhos para conhecer essa parte de nós mesmos. Se você tiver a necessidade e quiser, você pode invocar e manifestar o poder de Thor para derrotar um gigante de gelo. Ou pode invocar e manifestar Marte para organizar seus recursos, fazer um plano de ação, destruir os obstáculos que te atrapalham e executar esse plano, atingindo o seu objetivo. O símbolo é só uma maneira de te ajudar a ter consciência de uma força que já existe em você mesmo.

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A Força Interior

“O repugnante e rejeitado sapo ou dragão do conto de fadas traz a bola do sol na boca; pois o sapo, a serpente, o rejeitado, é o representante daquela profunda camada inconsciente Golden-Dragon(“tão profunda que não é possível ver-lhe o fundo”) em que são guardados todos os fatores, leis e elementos da existência rejeitados, não admitidos, não reconhecidos, desconhecidos ou subdesenvolvidos. Essas são as pérolas dos palácios submarinos das fábulas, cheios de gênios, trintões e guardiães das águas; as jóias que iluminam as cidades demoníacas do mundo interior; as sementes de fogo do oceano de imortalidade, que suporta a terra e a cerca como uma cobra; as estrelas do firmamento da noite imortal. São elas as pepitas de ouro do tesouro do dragão; as maçãs guardadas pelas Hespérides; os filamentos do Velocino de Ouro. O arauto ou agente que anuncia a aventura, por conseguinte, costuma ser sombrio, repugnante ou aterrorizador, considerado maléfico pelo mundo; e, no entanto, se prosseguirmos, o caminho através dos muros do dia, que levam até a noite em que brilham as jóias, nos será aberto. O arauto pode ser um animal (como no conto de fadas), representante da fecundidade instintiva reprimida que está dentro de nós. Pode ser igualmente uma figura misteriosa coberta por um véu — o desconhecido.” Joseph Campbell, O Herói de Mil Faces

“O Inconsciente não é somente maligno por natureza, é também a fonte do mais elevado bem: não somente escuro mas também iluminado, não somente bestial, semi-humano e demoníaco, mas super-humano, espiritual, e, no sentido clássico da palavra, divino.” Carl Gustav Jung, The Practice of Psychotherapy

Nós seres humanos tendemos a criar uma imagem consciente e outra inconsciente do nosso próprio ego. Esse conceito (ou preconceito) que temos sobre nós mesmos geralmente se forma baseado em nossas experiências mundanas evidenciadas pelas nossas faculdades sensoriais concretas. Dessa forma, limitamos nossa experiência sobre nós mesmos a um conjunto de aspectos que não correspondem à totalidade do nosso ser. Só que há uma grande dificuldade por parte das pessoas em reconhecer esse problema. Elas simplesmente ignoram os próprios “defeitos”, ou pior, ignoram, escondem e sub-desenvolvem as próprias qualidades, vivendo vidas inteiras baseadas em visões limitadas delas mesmas.

Tomemos como exemplo um individuo da espécie homo sapiens, que se vê como um intelectual. A imagem que ele tem dele mesmo e que ele deixa transparecer para as demais pessoas é a de um “homem das letras, da filosofia e do conhecimento”. Sendo assim, ele considera uma perda de tempo exercitar seu corpo. Ele prioriza as experiências mentais e espirituais em detrimento das experiências materiais. Quando por ocasião passa em frente de uma dessas academias de musculação e vê aquele bando de fisiculturistas levantando imensas quantidades de peso, ele pode torcer o nariz e fazer comentários do tipo: “Veja só esses pobres ignorantes. Preocupam-se tanto com o corpo, mas não conseguem sequer compreender um soneto shakespeariano!”. O inverso também ocorre, e os fisiculturistas comentam com frequência: “Olha que nerd! Não tem nem força pra carregar todos esses livros!”.

Mas vejam só, o “nerd” tem a plena capacidade de exercitar o seu corpo, seguindo um Bruce Lee Readingtreinamento disciplinado, até conseguir levantar mais de cem quilos no supino reto. Da mesma maneira, um fisiculturista pode exercitar o seu intelecto a tal ponto que não sentirá dificuldade alguma em compreender física quântica.

Como vimos com Joseph Campbell, o Dragão simboliza os aspectos ocultos do ser, que por culpa da nossa ignorância e do nosso preconceito, frequentemente rejeitamos, imergindo-os no inconsciente. Sendo assim, o fisiculturista é o “Dragão” do nerd, e o nerd é o “Dragão” do fisiculturista. Também vimos com Jung, que o inconsciente pode não ser somente fonte de medo e defeitos, mas também fonte de coragem e das mais nobres qualidades. Desse modo, cabe a cada um de nós abrir mão do preconceito e do medo, aceitar todos os aspectos da nossa existência e trabalhar para expandir a nossa consciência e desenvolver as nossas habilidades como um todo.

“You take the blue pill, the story ends, you wake up in your bed and believe whatever you want to believe. You take the red pill, you stay in Wonderland, and I show you how deep the rabbit hole goes.” Morpheus 

Morpheus_Pills

A decisão é só sua. Você é o único responsável pelos acontecimentos da sua vida. A única pessoa que pode, de fato, exercer poder sobre a sua vida, é você mesmo. O seu maior inimigo e o seu herói e supremo salvador são a mesma pessoa: você. Se você aceitar mergulhar na sua própria escuridão, explorar o seu inconsciente, trazer à consciência aspectos seus até então ocultos, você vai conhecer a si mesmo e descobrir coisas maravilhosas que antes ignorava.

“I know Kung-Fu.” Neo

Quando nos deparamos com alguma dificuldade, esta dificuldade é um ponteiro, uma seta que aponta na sua direção, este “problema”, esta seta apontando para você é o seu inconsciente tentando chamar a sua atenção para algo que você está negligenciando. Você está negligenciando a verdade. A verdade é que o “problema” não é algo externo, mas algo interno. Você é o criador do “problema”. O que acontece com frequência é que as pessoas, por medo, subvertem este significado e mudam a posição da seta, direcionando a culpa para o exterior.

A seta que aponta na sua direção quer chamar a sua atenção. Se você mudar a seta de posição, apontando para outra pessoa ou qualquer outro fator externo, ela vai voltar em outra ocasião e apontar de novo para você. Não importa quantas vezes você tente mudar, ela sempre vai voltar. Se você mudar a posição da seta um trilhão de vezes, ela vai apontar pra você um trilhão de vezes. A seta é você. Como você pode fugir de você mesmo?

“Do not try and bend the spoon. That’s impossible. Instead… only try to realize the truth. There is no spoon. Then you’ll see, that it is not the spoon that bends, it is only yourself.”

There_is_no_spoon

Tudo é questão de se conhecer e aceitar você mesmo como você é. Isso não significa aceitar uma visão singular e restrita de você mesmo. Isso significa ir fundo, conhecer a si mesmo por inteiro. Conhecer a si mesmo é conhecer o Universo. Então você entenderá que tudo é uma coisa só.

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Da Inércia à Criatividade

Dos Objetivos Pessoais e da Relação Destes com a Vida em Sociedade

É inerente ao caráter humano a vontade de ser útil à sociedade e ser útil aos outros seres humanos. Afinal as relações humanas se baseiam em trocas. Obedecendo a um instinto inato e às inclinações pessoais chega para todos certo momento na vida em que começamos a conjecturar o que faremos com ela, a vida, ou melhor, como faremos para viver de modo que sejamos úteis e produtivos. Ou ainda, num nível de pensamento mais próximo ao mundano: como faremos para ganhar dinheiro para conseguir as coisas que desejamos. E aí começamos a traçar metas para o futuro. É importante, no entanto não fácil, analisarmos as nossas próprias ambições de um ponto de vista neutro, para que possamos discernir se as metas estabelecidas não contrariam de forma alguma nossa própria natureza. Agir naturalmente é a chave para o sucesso. Sobretudo no que diz respeito ao sucesso profissional, que é a base para o sucesso pessoal e para uma vida plena. Quando, seja por qualquer motivo, acabamos contrariando a nossa natureza, nos colocamos num caminho desfavorável à realização dos nossos objetivos. Alguns seres humanos nascem ou desenvolvem determinado talento para o trabalho burocrático, e embora eu não consiga entender o que leva um ser humano a se interessar por esse tipo de ocupação, muitas pessoas desenvolvem essas habilidades e ganham gosto por esse trabalho. Desenvolvem-se nesse campo de ação e tornam-se úteis para todos. E sendo útil a outras pessoas, você está sendo útil para você mesmo, pois a sociedade é composta por várias camadas que interagindo se apoiam, e o trabalho realizado por um ser humano proporciona meios para que outro ser humano alcance as suas metas. O desafio aqui é descobrir como, seguindo sua natureza, você possa realizar o seu trabalho, e através desse trabalho você possa partilhar sua natureza, sendo útil a humanidade.

Do Talento Inato

Um touro não pode voar. Esse aforismo encerra, de forma bem concreta diga-se de passagem, o que quero dizer com ”talento inato”. O touro não pode voar, não obstante Bull_of_Heaven_by_koranaartpossui uma força capaz de mover a terra de tal maneira que os outros animais próximos sintam as vibrações de suas poderosas passadas. Uma ave pode não ter a força física de um touro, não obstante, voando nas alturas tem uma visão ampla do que se passa na terra. Seguindo cada qual seu instinto utilizam-se das habilidades naturais desenvolvidas através dos inúmeros anos de evolução para desempenhar seu papel no ciclo da vida. É lógico que nós, diferente das outras espécies de animais que habitam este planeta, nos expressamos e exercemos nosso papel de uma maneira mais plural. Não é saudável para nós fecharmo-nos numa única gama de experiências. Pelo contrário, devemos nos encorajar à empresa que é explorar ao máximo os nossos potenciais. Tomemos como exemplo Leonardo da Vinci, pintor, escultor, escritor, arquiteto, engenheiro, músico, matemático, anatomista, geólogo, cartógrafo, botânico et cetera, et cetera, et cetera, ad infinitum. Mas para que possamos chegar a um nível de excelência em determinada arte, ou ainda em muitas formas de arte, como fez Leonardo, temos que começar a partir de um ponto, e a partir desse ponto iremos expandir nosso campo de consciência e manifestação de nós mesmos. Assim como o touro que possui enorme força ou a ave que pode voar, cada um de nós possui um dom inato. Uma habilidade que se destaca em nós e que pode ser usada como um ponto de partida, como uma base, para que as outras habilidades que porventura desejamos adquirir venham a ser desenvolvidas. Cabe a cada um de nós descobrir que aptidão particular é essa e aceitá-la, para que, abstendo-nos de qualquer forma de julgamento com relação a ela, a usemos como mais uma ferramenta a favor da nossa evolução pessoal e da melhoria do ambiente em que vivemos.

Dos Reforços Positivos e Negativos e Da Consciência da Responsabilidade

Traçando seus objetivos você acabou de dar o primeiro passo. Agora é importante manter o ritmo. E como todo motor necessita de combustível, com o ser humano não poderia ser diferente. O que te impulsiona? O que faz você seguir adiante? Pode ser dinheiro. Pode ser a vontade de aprender. Pode ser o sentimento de realização proporcionado por um trabalho bem feito que trouxe reconhecimento como profissional. Pode ser a felicidade de ajudar outras pessoas. Pode ser tudo isso ao mesmo tempo e ainda mais. Junte todas as coisas que te estimulam a trabalhar e extraia delas a energia necessária para seguir em frente. Isso é o que chamam de reforço positivo. A contraparte do reforço positivo obviamente é o reforço negativo. Um ótimo exemplo de reforço negativo, que pode ser aplicado nessa situação, é o seguinte: imagine que se você deixe se levar e não exerça sua força de vontade sobre você mesmo e sobre sua vida, e por ignorância própria acabe recorrendo constantemente a condutas prejudiciais, acabe perdendo a confiança em você mesmo, acabe perdendo seu equilíbrio e venha a se afastar da sua própria natureza, e acabe não conseguindo realizar o trabalho que você deve realizar, você vai acabar se tornando um ser humano miserável. Um ser humano miserável, com um emprego que você odeia, no qual você ganha uma mixaria, fazendo sempre a coisa errada na hora errada. Enclausurando-se num círculo vicioso de ignorância e medo. Uma prisão que você mesmo acabou construindo. Então, se esse for o caso, pare de se lamentar, pare de colocar a culpa em experiências externas, barreiras materiais (ou sensoriais) aparentemente intransponíveis ou em outras pessoas. Assuma a responsabilidade pelo seu sucesso. A única pessoa responsável pela sua vitória ou pela sua derrota é você mesmo. Na maioria das vezes, por medo e por ignorância, você acaba se tornando seu maior inimigo. Descubra, aceite e aperfeiçoe suas habilidades naturais, extraia energia das matérias primas que você reunir, tenha consciência da responsabilidade que você tem para com você mesmo e para com a humanidade, e mantenha o ritmo.

Da Praticidade Voltada à Objetividade

Nós seres humanos, acostumados a agir num modus operandi que prioriza um mundo puramente material, tendemos a dar demasiada importância às nossas faculdades sensoriais em detrimento de outros aspectos do nosso ser. O que limita gravemente o sentido das nossas experiências e nos enlaça num igualmente ocluso ciclo de pensamento onde a causalidade linear é colocada em primeiro plano quando nos propomos a refletir sobre os aspectos da vida mundana. Nesse caso, nosso objetivo é modificar gradativamente uma mecânica de pensamento através da qual nos conduzimos com frequência a comportamentos e decisões impróprias. Isto é, condutas e decisões que obstruem nosso processo de crescimento. É uma tarefa muito simples, trata-se basicamente de nos acostumarmos a não pensar e agir levando em consideração somente os sentidos. Quando falo sentidos me refiro aos cinco sentidos básicos. É lógico que para um desenvolvimento pleno do ser devemos também aperfeiçoar essas faculdades, porém quando se trata de encontrar soluções práticas para a vida cotidiana, basear sua visão somente nelas irá trazer grandes limitações. Apesar disso podemos observar que as pessoas em geral acreditam que as causas e efeitos se restringem somente àquilo que seus sentidos materiais podem captar. É importante nos colocarmos numa perspectiva neutra com relação aos nossos sentidos. Fazendo isso teremos a capacidade de ponderar com simplicidade sobre as adversidades que por ventura venham surgir em nosso caminho e assim encontrarmos uma solução prática. Para isso é necessário abdicar do sentimento de importância que com frequência damos a questões pequenas que não exercem tanto poder sobre nós como geralmente acreditamos. É necessário perceber que qualquer solução pode ser encontrada através da simplicidade de pensamento. “O método pragmatista é, antes de tudo, um método de terminar discussões metafísicas que, de outro modo, seriam intermináveis. O mundo é um ou muitos? Livre ou fadado? Material ou espiritual? Essas noções podem ou não trazer bem para o mundo; e as disputas sobre elas são intermináveis. O método pragmático nesse caso é tentar interpretar cada noção identificando as suas respectivas consequências práticas (…) Se nenhuma diferença prática puder ser identificada, então as alternativas significam praticamente a mesma coisa, e a disputa é inútil.” Agindo de maneira pragmática e objetiva, não encontraremos dificuldades para criar os meios pelos quais alcançaremos nossas metas. É muito simples: trata-se de decidir o que deve ser feito e fazer.

Conclusão

Analisando a relação entre os objetivos pessoais, o trabalho e as relações sociais, observamos que para se atingir as metas almejadas e alcançar o sucesso como profissional e por conseguinte uma vida plena em todos os sentidos, é necessário produzir algo que seja objeto de interesse comum a várias pessoas. Observamos também que além de realizar um trabalho que possa trazer benefícios à humanidade em geral, você tem que fazer esse trabalho bem feito, para que sendo atestada a qualidade daquilo que você produz, você atraia maior atenção para o seu trabalho e venha a ser reconhecido por aquilo que faz, sendo assim é imperativo que seja escolhida uma ocupação para a qual você já possua uma aptidão natural. Além disso vimos que para que você mantenha a produtividade, realizando o seu trabalho com persistência, diligência e assiduidade, é necessário energia, e uma fonte básica de energia é a motivação, e a melhor fonte de motivação a que você pode recorrer é ter a consciência de que tu mesmo é o protagonista da tua história e único responsável pela realização dos teus objetivos. Depois de toda essa teoria a única coisa que falta é colocar a mão na massa. Planeje seu dia a dia de modo prático. Se vier a surgir um problema que entrave seu progresso, pondere sobre ele com simplicidade, valha-se do pragmatismo, lembrando-se que, pelo menos nesse caso em particular, “o sentido de uma idéia corresponde ao conjunto dos seus desdobramentos práticos”. Desse modo, que todos nós possamos realizar nossos trabalhos, para que continuemos a nos desenvolver de maneira plena e que de acordo com a nossa consciência e a nossa natureza tomemos parte na grande obra que é o cosmo.

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O Canto do Patativa

“Meus versos é como semente
Que nasce arriba do chão;
Não tenho estudo nem arte,
A minha rima faz parte
Das obras da criação.” Patativa do Assaré

Patativa nasceu em 1909 em Assaré, Ceará. Trabalhou durante toda a sua vida como agricultor, e embora tenha sido reconhecido nacionalmente como grande artista e tendo recebido em cinco diferentes ocasiões o título de Doutor Honoris Causa, nunca deixou sua cidade natal. Afirmava que enquanto usava o corpo trabalhando na roça, sua mente trabalhava fazendo poesia. Mente que qual lâmina bem cuidada durou a vida toda, afiada e forte, até o dia da sua morte ainda lembrava todo poema que já havia composto e sem nenhum esforço com qualquer assunto fazia improviso. Além disso, era notável a sua capacidade de compor poemas tanto em forma popular como em forma clássica, ou mesclando as duas. De todo modo a simplicidade da sua poesia matuta, como ele mesmo a chamava, é a forma mais admirada. Seu estilo é marcado por um aspecto teatral, nos poemas mais satíricos nota-se claramente seu tom de ironia, em outros mais dramáticos percebe-se um tom mais lúgubre. Outra característica marcante da sua obra não pode ser apreciada em sua literatura, pois os livros não podem reproduzir seus trejeitos, entonação e linguagem corporal. No entanto esses aspectos da sua performance podem ser assistidos em muitos vídeos e entrevistas que ficaram gravados como documentos históricos desse artista fantástico que é ao mesmo tempo popular e erudito.

“Sertão, argúem te cantô,
Eu sempre tenho cantado
E ainda cantando tô.
Pruquê, meu torrão amado,
Munto te prezo, te quero,
E vejo qui os teus mistéro
Ninguém sabe decifrá.
A tua beleza é tanta,
Qui o poeta canta, canta,
E ainda fica o qui cantá.” Patativa do Assaré

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