Simbolismo, Impressões, Deuses e o Campo da Mente

‘‘As verdades contidas nas doutrinas religiosas são, afinal de contas, tão deformadas e sistematicamente disfarçadas, que a massa da humanidade não pode identificá-las como verdade. O caso é semelhante ao que acontece quando contamos a uma criança que os recém-nascidos são trazidos pela cegonha. Neste caso, também estamos dizendo a verdade através de um expressão simbólica, pois sabemos o que essa grande ave significa. Mas a criança não sabe. Escuta apenas a parte deformada do que dizemos e sente que foi enganada; e sabemos com que frequência sua desconfiança em relação aos adultos e sua rebeldia têm realmente começo nessa impressão. Convencemo-nos de que é melhor evitar esses disfarces simbólicos da verdade naquilo que contamos às crianças, e não privá-las de um conhecimento do verdadeiro estado de coisas adequado a seu nível intelectual.’’ Sigmund Freud, Die Zukunft einer Illusion

‘‘As mitologias fazem sua mágica por meio de símbolos. O símbolo atua como um botão automático que libera energia e canaliza. Como os sistemas míticos do mundo abrangem muitos símbolos praticamente universais, surge a pergunta: “Por quê?” E como o símbolo universal acaba apontando para este, aquele ou outro propósito cultural? […] Os símbolos estão embutidos na psique ou são gravados posteriormente? Psicólogos de animais notaram que se um falcão sobrevoa pintinhos recém saídos do ovo, e que nunca haviam visto semelhante animal, eles correm em busca de abrigo. […] Como precisamos de siglas hoje em dia, isso foi chamado IRM, Innate Releasing Mechanism (Mecanismo Liberador Inato), também conhecido por reação estereotipada.

Por outro lado, quando um patinho sai do ovo, a primeira criatura em movimento que ele enxergar se tornará, digamos, a figura de sua mãe. Ele se apega a ela e depois não consegue se desligar de tal apego. Esse vínculo criado chama-se imprint (impressão). Com relação à psique humana, a questão é saber se as reações são na maior parte respostas estereotipadas ou de impressão. A resposta estereotipada que ocorre no caso dos pintinhos e do falcão é uma relação chave-fechadura, como se houvesse uma imagem precisa do falcão no cérebro dos pintinhos. “Quem está respondendo ao estímulo? São os pintinhos que nunca viram um falcão?”; “Não, é a raça dos pintinhos”.

Esta reação exemplifica o que Jung chama de arquétipo: um símbolo que libera energia relacionada à uma imagem coletiva. Aqueles seres nunca haviam visto um falcão antes, mas mesmo assim reagiram a ele. Por outro lado, o pato que se apega a uma galinha-mãe é bastante peculiar, se trata de um individuo, não de um exemplo de sua espécie. O vínculo entre o pato e a galinha resulta de uma impressão.

A diferença entre as impressões e uma coisa que você apenas tenha visto e pela qual tenha se interessado é que as primeiras ocorrem num momento único de prontidão psicológica, que dura apenas uma fração de minuto. E tendo ocorrido, a impressão é definitiva e não pode ser apagada.

Já na psique humana descobrimos que é impossível identificar qualquer imagem estereotipada. Aqui para nós, portanto, teremos de assumir que não existe nenhuma imagem liberadora inata estereotipada de grande significação na psique. O fator predominante é a impressão.

Vem então a pergunta: “Por que existem símbolos universais?” Pode-se observar os mesmos símbolos nas mitologias, nas religiões, nas estruturas sociológicas de todas as sociedades. Se não se trata de IRMs embutidos na psique humana, como eles chegaram lá? Já que esses símbolos não provêm de mecanismos inatos nem podem ser transmitidos culturalmente (as culturas são extremamente diversas), deve existir um conjunto constante de experiências que quase todos os indivíduos compartilhem.

Essas experiências constantes encontram-se, na verdade, na infância. Do relacionamento com: a) A Mãe, b) O Pai, c) Entre os pais e d) as transformações psicológicas da própria criança. Essas experiências universais trazem à luz os “Elementargedanken”, os temas imutáveis das culturas mundiais.’’ Joseph Campbell, Pathways to Bliss: Mythology and Personal Transformation

Vemos inúmeras semelhanças nas mitologias das mais diversas culturas do mundo. Essas semelhanças podem ser facilmente identificadas quando se entende o conceito de arquétipo. Toda mitologia tem um Deus Pai, uma Deusa Mãe, um Deus Jovem e uma Deusa Donzela. A relação entre estes varia de mitologia para mitologia, mas todas são baseadas nos ciclos naturais. Podemos citar como exemplo o simbolismo natural xamânico, podemos dizer por exemplo, que o Pai é o Céu, a Mãe é a Terra, o Deus Jovem é o Sol e a Deusa Donzela é a Lua. A criação desse simbolismo é fruto das impressões que os seres humanos tiveram durante seu convívio com a natureza. O ser humano viu o Céu, o Céu para ele é imortal e não tem fim; a Terra também: imortal e infinita. Olhando para o horizonte, o Céu e a Terra parecem se unir, a chuva do Céu fertiliza a Terra e tudo se enche de vida. Logo, o Céu e a Terra são Deuses e são Marido e Mulher. Seus filhos, o Sol e a Lua, nascem todo dia do horizonte (da união dos dois), e são ambos imortais e poderosos, Deuses.

Sabendo que a psicologia pessoal de um indivíduo é, em sua maior parte, construída pelas impressões, e que essas impressões criam arquétipos naturalmente, podemos afirmar que os símbolos são ferramentas que atuam na psiquê, causando mudanças e também criando novas impressões.

Imagine que a mente humana é um grande campo, nesse campo diversas culturas podem ser plantadas: arroz, feijão, milho. Animais podem ser criados: galinhas dão ovos, vacas dão leite, cães dão amizade. E você usará determinadas ferramentas para criar mudanças nesse campo: arados, foices, martelos, baldes, a fim de moldar esse campo para que você tenha uma melhor colheita e uma vida mais saudável e plena.

Este foi um exemplo bem simples e bucólico de como você pode aplicar esse tipo de simbolismo.

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Sobre L. F. Barbosa

"NOSCE TE IPSUM"
Nota | Esse post foi publicado em A Jornada do Herói, Antropologia, Filosofia, Mitologia Comparada, Psicologia. Bookmark o link permanente.

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