Tolkien Talk

Publico aqui um trecho traduzido para o português, de uma famosa entrevista do grande escritor e professor J.R.R. Tolkien. Há muita confusão em torno dessa entrevista, existem quatro versões, a mais longa tem cerca de trinta minutos de duração, e todas começam e acabam de repente. A gravação foi concedida ao jornalista Dennis Gueroult em 1964, mas só foi exibida pela primeira vez pela BBC em 1971.

Traduzi com base principalmente no áudio, de outro modo, sem a entonação e os maneirismos, não entenderia totalmente algumas expressões. Para ajudar-me a entender alguns trechos mais difíceis, recorri a uma versão transcrita para o inglês publicada no site Tolkien Library. Procurei ser fiel ao máximo aos termos usados originalmente.

Divirtam-se.

J.R.R. Tolkien: Muito antes eu escrevi O Hobbit e muito antes de eu tê-lo escrito eu havia construído a mitologia desse mundo.

D. Gueroult: Então você tinha algum tipo de plano no qual isto poderia ser trabalhado?

J.R.R. Tolkien: Imensas sagas, sim… Eu fui sugado para dentro disto como o próprio Hobbit foi. Como você sabe, O Hobbit era originalmente sobre esses anões e uma vez que ele se colocou em movimento dentro desse mundo, ele seguiu adiante e foi puxado para dentro dele.

D. Gueroult: Então seus personagens e sua história realmente tiveram um custo. (silêncio) Eu digo “tiveram um peso”*; eu não quero dizer que você estava completamente sob seu feitiço ou nenhuma coisa desse gênero.

*Nota de Tradução: no original took charge. Charge, em inglês, pode ser entendido como preço, custo, e também como carga.

J.R.R. Tolkien: Oh, não, não. Eu não me perco sobre sonhos de modo algum, não (risos), não, não. Isto não era uma obsessão, de maneira alguma. Você tem esta sensação, que neste momento (risca seu cachimbo) A, B, C, D, somente A ou uma das opções está correta e você tem que esperar até você ver. Eu tenho mapas é claro. Se você vai ter uma história complicada você deve trabalhar por um mapa, de outro modo você nunca poderá fazer um mapa dela posteriormente. As luas, eu penso, finalmente estavam as luas e o pôr do sol funcionando de acordo ao que lhes cabia nesta parte do mundo em 1942, efetivamente. Deve ter sido alguma coisa por volta disto.

D. Gueroult: Você começou em 42 não é, a escrever este livro?

J.R.R. Tolkien: Oh não… Eu comecei assim que O Hobbit fora publicado. Nos anos 30.

D. Gueroult: Este estava finalmente terminado pouco antes de ser publicado.

J.R.R. Tolkien: Eu escrevi o último… por volta de 1949. Eu me lembro que eu, verdadeiramente, derramei lágrimas ao desfecho. Mas então, é claro, havia uma tremenda parte para a revisão. Eu digitei todo aquele trabalho duas vezes e mais, muitas vezes, numa cama em um sótão. Eu não poderia ceder, é claro, a digitação. Há alguns erros ainda e também me diverte dizer, como eu suponho, que eu estou em uma posição onde não importa o que as pessoas pensam de mim agora. Haviam alguns erros de gramática assustadores, os quais para um Professor de Língua Inglesa e Literatura são bem chocantes.

D. Gueroult: Eu não notei nenhum.

J.R.R. Tolkien: Teve um onde eu usei “montou” como um passado particípio de “cavalgar”! (Risos)*

*Nota de Tradução: No original, “There was one where I used bestrode as the past participle of bestride!bestrode significa sentar ou ficar em pé em posição de montaria, bestride, cavalgar.

D. Gueroult: Você sente algum senso de culpa de algum modo por, como um filologista, como um Professor de Língua Inglesa, que estava preocupado com as fontes factuais do idioma, ter devotado uma grande parte da sua vida à uma ficção?

J.R.R. Tolkien: Não. Estou certo de que, verdadeiramente, isto fez muito bem ao idioma! Certamente há muito de sabedoria linguística nisto. Eu não sinto nenhum complexo de culpa sobre O Senhor dos Anéis.

D. Gueroult: Teria você um particular carinho por essas coisas confortáveis e caseiras daJRR Tolkien vida que o Condado incorpora: a casa e o cachimbo e o fogo e a cama… As virtudes caseiras?

J.R.R. Tolkien: Você não?

D. Gueroult: Você não, Professor Tolkien?

J.R.R. Tolkien: É claro… sim, sim, sim.

D. Gueroult: Você tem então um carinho particular pelos Hobbits?

J.R.R. Tolkien: Isto é o porquê eu me sinto em casa… olhe, O Condado é muito parecido com o tipo de mundo no qual pela primeira vez eu fiquei ciente das coisas. O que era, talvez, mais agudo para mim pois eu não havia nascido nele. Eu nasci em Bloomsdale, na África do Sul. Eu era muito jovem quando eu voltei, mas ao mesmo tempo isso morde a sua memória e a sua imaginação, mesmo se você não pensa que isso o faz. Se a sua árvore de Natal é um eucalipto e se você normalmente é incomodado pelo calor e pela areia… então, ter exatamente a idade na qual a imaginação está se abrindo, e de repente você se encontra numa calma vila em Warwickshire, eu creio que isso engendra um amor particular pelo que você pode chamar de terras médias do interior inglês (*Midlands English Countryside). Baseadas em boa água, pedras e olmos e pequenos rios silenciosos e assim por diante, e é claro, pessoas rústicas.

D. Gueroult: Com que idade você veio para a Inglaterra?

J.R.R. Tolkien: Eu suponho… que tinha uns três anos e meio. Muito marcante é claro, porque é uma das coisas que as pessoas dizem que não se lembram. É como fotografar constantemente a mesma coisa sobre a mesma chapa. Leves mudanças simplesmente fazem um borrão. Mas se uma criança passa por uma ruptura repentina como essa, isso é consciente. O que se tenta fazer é encaixar as novas memórias nas velhas. Eu tenho a perfeitamente clara e vívida imagem de uma casa, que agora eu sei que é de fato um belo trabalho em pastiche da minha própria casa em Bloemfontein e da casa da minha avó em Birmingham. Eu ainda posso me lembrar de descer a estrada em Birmingham imaginando o que teria acontecido à grande galeria, o que teria acontecido à varanda. Consequentemente eu me lembro das coisas extremamente bem; posso me lembrar de tomar banho no Oceano Índico, eu ainda não tinha dois anos e eu me lembro disso claramente.

D. Gueroult: Frodo aceita o fardo do Anel e ele incorpora, como um personagem, as virtudes do longo sofrimento e da perseverança, e pelas suas ações alguém poderia dizer, em um sentido budista, que ele “adquire mérito”. Ele se torna, de fato, quase uma figura crística. Por que você escolheu um halfling, um Hobbit, para este papel?

J.R.R. Tolkien: Eu não fiz isso. Eu não fiz muitas escolhas. Eu escrevi O Hobbit, entende… tudo que eu estava tentando fazer era continuar do ponto onde O Hobbit havia terminado. Eu tinha Hobbits nas minhas mãos, não tinha?

D. Gueroult: De fato, mas não havia nada particularmente “crístico” sobre Bilbo?

J.R.R. Tolkien: Oh, não.

D. Gueroult: Não?

J.R.R. Tolkien: Não.

D. Gueroult: Mas face ao mais apavorante perigo ele continua lutando e segue em frente, e vence.

J.R.R. Tolkien: Mas isso parece, eu suponho, mais como uma alegoria à raça humana. Eu sempre fiquei impressionado por nós estarmos aqui sobrevivendo por causa da indomável coragem de pessoas bem pequenas contra obstáculos impossíveis: selvas, vulcões, bestas selvagens… elas continuam lutando, quase que cegamente, de certo modo.

D. Gueroult: Eu pensei que, concebivelmente, Midgard poderia ser a Terra-Média ou ter alguma conexão.

J.R.R. Tolkien: Oh sim, elas são a mesma palavra. A maioria das pessoas tem cometido esse erro de pensar que a Terra-Média é um particular tipo de Terra ou é outro planeta de algum tipo de ficção científica, mas é somente uma palavra à moda antiga para esse mundo no qual vivemos, como imaginado, cercado pelo Oceano.

J  R  R Tolkien

D. Gueroult: Me pareceu que a Terra-Média era em algum sentido, como você diz, este mundo no qual vivemos, mas este mundo no qual vivemos numa diferente era.

J.R.R. Tolkien: Não. Um diferente estágio de imaginação, sim.

D. Gueroult: Era a sua intenção que certas raças de O Senhor dos Anéis incorporassem certos princípios: a sabedoria dos Elfos, a perícia no ofício dos Anões, a prática da pecuária e da agricultura e a batalha para os Homens, e assim por diante?

J.R.R. Tolkien: Eu não tive a intenção. Mas quando você tem esses povos em suas mãos, você tem que fazê-los diferentes, não tem? Bem, é claro, como todos nós sabemos, ultimamente nós temos somente a humanidade para trabalhar. Nós só temos argila. Nós todos deveríamos… ou ao menos uma grande parte da raça humana… gostaria de ter um maior poder mental, um maior poder de arte, pelos quais a fenda entre a concepção e o poder de execução poderia ser encurtada. E nós poderíamos gostar de um tempo mais longo, se não um tempo indefinido, no qual seguir adiante, sabendo mais e fazendo mais. Portanto fizemos os Elfos imortais, em certo sentido. Eu tive que usar imortal, eu não quis dizer que eles eram eternamente imortais, meramente que eles são bem longevos e que sua longevidade provavelmente dura tanto tempo quanto a habitabilidade da Terra. Os Anões, é claro que é bem obvio, sim. Você não poderia dizer que eles te lembram os Judeus? Suas palavras são obviamente semíticas, construídas para serem semíticas. Hobbits são somente o rústico povo inglês, feitos em tamanho menor pois isto reflete, em geral, o pequeno alcance da imaginação deles. Não o pequeno alcance da sua coragem ou do talento potencial.

D. Gueroult: Esta parece ser uma das maiores forças do livro, este enorme conglomerado de nomes. Alguém não fica perdido? Ao menos depois da primeira leitura, depois da segunda leitura do livro…

J.R.R. Tolkien: Eu fico muito grato por você ter me dito isso, porque eu tive um grande problema. Isso também me dá grande prazer, um bom nome. Eu sempre começo a escrever com um nome; me dê um nome e isso cria uma história, não do jeito inverso, normalmente.

D. Gueroult: Das línguas que você conhece, qual era de maior ajuda para você durante a escrita de O Senhor dos Anéis?

J.R.R. Tolkien: Oh, Senhor… Sim… obviamente as línguas modernas. Eu deveria ter dito que o Galês sempre me atraiu pelo seu estilo e sonoridade mais do que qualquer outra, sempre, desde a primeira vez que a vi em caminhões de carvão, eu sempre quis saber do que se tratava.

D. Gueroult: Me parece que certamente a música de Gales vem através dos nomes que você escolheu para as montanhas e para os lugares em geral. Você reconhece isto?

J.R.R. Tolkien: Muito. Mas uma mais rara no entanto potente influência sobre mim tem sido o Finlandês.

D. Gueroult: O livro pode ser considerado como uma alegoria?

J.R.R. Tolkien: Não. Eu repugno alegorias, sempre que eu farejo uma.

D. Gueroult: Você considera o declínio do mundo como o declínio da Terceira Era em seu livro? E você vê uma Quarta Era para o mundo neste momento; nosso mundo?

J.R.R. Tolkien: Na minha idade eu sou exatamente o tipo de pessoa que já passou por um dos mais rápidos períodos de mudança conhecidos pela História. Certamente nunca poderia ter acontecido tanta mudança em dezessete anos.

D. Gueroult: Há uma qualidade outonal permeando todo O Senhor dos Anéis, em um caso um personagem diz que a história continua mas eu pareço ter caído fora dela… De todo modo, todas as coisas declinam, apagam, ao menos a respeito do fim da Terceira Era. Toda escolha tende à perturbação de alguma tradição. Agora isso me parece ser de alguma forma como Tennyson: “a velha ordem mudou, cedendo lugar à nova, e Deus completa a si mesmo de muitas formas”. Onde está Deus em O Senhor dos Anéis?

J.R.R. Tolkien: Ele é mencionado uma ou duas vezes.

D. Gueroult: Ele é o Um?

J.R.R. Tolkien: Sim. O Um.

D. Gueroult: Você é, de fato, um teísta?

J.R.R. Tolkien: Oh, eu sou um Católico Romano. Um devoto Católico Romano.

D. Gueroult: Você deseja ser lembrado principalmente pelos seus escritos de filologia e outras matérias ou pelo Senhor dos Anéis e O Hobbit?

J.R.R. Tolkien: Eu não deveria ter pensado que havia muita escolha nesse assunto. Se eu for lembrado de todo, será através de O Senhor dos Anéis, eu escolho isso. Não será um pouco como no caso de Longfellow? Pessoas lembram que Longfellow escreveu Hiawatha, geralmente esquecem que ele era um Professor de Línguas Modernas!

Caso queira escutar o áudio da entrevista, em inglês, aqui está o link.

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"NOSCE TE IPSUM"
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