Zombie Attack

Salve!

Hoje eu vou falar um pouco sobre o arquétipo do MORTO-VIVO!

Nas mitologias, na literatura e na ficção encontramos diversas descrições para variados tipos de mortos-vivos. O tipo mais conhecido e mais comumente retratado na arte contemporânea é o zumbi, por isso durante esse texto focaremos a nossa abordagem neles e deixaremos as múmias (que não são zumbis, mas podem ser mortos-vivos) de lado.

Originalmente os relatos sobre zumbis vêm de mitologias e folclores variados de todas as partes do mundo. A palavra “zumbi” em si é proveniente de idiomas africanos e é comum à vários dialetos desse continente. A lista de dialetos é imensa, os mais comuns são de raiz Bantu, como exemplos podemos citar o Mbundu que se subdivide em Kimbundu (Mbundu do Norte) e Umbundu (Mbundu do Sul), as duas línguas Bantu mais faladas na Angola. Como sabemos, a Angola já foi uma colônia portuguesa, por conta disso é provável que muitos escravos que vieram para o Brasil tenham vindo de lá. Daí a palavra mbundu “nzumbe” que no Brasil passou a ser pronunciada “zumbi”. Zumbi dos Palmares, ao contrário do que muitos pensam, não era de origem yorubá-nagô, mas de origem bantu. No dialeto kreyòl-ayisyen falado no Haiti, “nzumbe” virou “zonbi”. Em ambos os casos, a palavra pode ser traduzida como “espírito” ou até “fantasma”. Então, originalmente, o termo se referia à um espírito, provavelmente se referia à qualquer espírito, bom ou mau. No dialeto Kikongo a palavra “nzambi” também significa “Deus”.

Existem práticas dentro do xamanismo africano pelas quais um xamã pode entrar em contato ou até obter poder sobre e usar esses espíritos. Na Grécia antiga o termo que designava essa prática era Necrosmancia, onde certos sacerdotes consultavam os mortos em busca de respostas para diversas questões. Disso surgiram diversas lendas, incluindo relatos de testemunhas abismadas que juravam de pés juntos (ba-pun-tss!) que os xamãs, feiticeiros, sacerdotes ou magos podiam inclusive reanimar o corpo do defunto.

No folclore europeu também existem diversos relatos, temos por exemplo o Vurdalak, um espírito maligno de um morto que sai da sua cova depois da meia-noite para se alimentar do sangue dos vivos. Na verdade vurdalak é a palavra eslava para vampiro, é um vampiro mas sem muita inteligência, sem o poder e a nobreza do Drácula, sem a classe do Lestat e sem a frescura dos vampiretes Crepúsculo; mas o nome soa bem mais ameaçador: Vurdalak.

De fato, o Vampiro é uma espécie de Zumbi, afinal ele é um morto-vivo e se ele te morde você também vira um morto-vivo, diferente da múmia, se uma múmia te morde o máximo que você consegue é morrer com uma infecção terrível. No extremo oriente também existem lendas sobre mortos-vivos, na China eles usam o I-Ching como amuleto contra os Jiangshi; no Japão não existem lendas nativas sobre vampiros que bebem sangue, mas certamente existem muitas lendas sobre espíritos malignos que voltam dos mortos para azucrinar os vivos. Nas Américas também temos alguns exemplos: o povo Mapuche do Chile usa a babosa para se defender do Peuchen e na América do Norte o povo Wyandot fala sobre o Hooh-Strah-Dooh, espírito maligno que invade corpos mortos e os reanima. Entre os povos Árabes existem diversas lendas sobre cadáveres que ressuscitam e demônios que bebem sangue e devoram a carne humana. Nos escritos judaicos e cristãos também existem vários relatos sobre contatos com os espíritos dos mortos e ressureições.

Os mortos-vivos começaram a fazer sucesso na arte com os romances góticos Frankenstein: or the Modern Prometheus (1818) de Mary Shelley e Drácula (1897) de Bram Stoker; em 1920, com o filme expressionista Das Cabinet des Dr. Caligari, do diretor alemão Robert Wiene, que conta a história de um homem que sofria um grave problema de sonambulismo e era mantido sob controle por um psiquiatra maluco obcecado por histórias sobre hipnose e homicídio; e com o filme White Zombie, de 1932, dirigido e produzido pelos irmãos Halperin, no qual Bela Lugosi interpreta um especialista em vodu haitiano que usa suas técnicas malignas para transformar uma inocente jovem em uma morta-viva. Como vimos, esses ainda não eram os zumbis que conhecemos hoje.

Em 1968, com Night of the Living Dead, George Romero começa o Apocalipse Zumbi nas telas dos cinemas. Nesse filme a zumbificação se dá através de um vírus que é passado através das mordidas das criaturas. A causa permanece um mistério uma vez que os cientistas e os militares não conseguem descobrir a origem do vírus; um dos cientistas menciona a explosão de uma sonda espacial que retornava do planeta Vênus como a possível causa de uma contaminação radioativa na atmosfera do planeta e como a provável origem.

Romero queria trabalhar com o arquétipo do morto-vivo, mas sabia que naquela época uma explicação científica seria necessária. Para abaixar as defesas psíquicas da audiência e tornar a história mais plausível só a feitiçaria não era o suficiente, ou como diria o Pica-Pau “vudu é pra jacú”. Ele precisava fazer as pessoas sentirem medo dos mortos-vivos, e para isso ele precisava criar a possibilidade real de um apocalipse zumbi, e fez isso usando o maior objeto de terror da guerra-fria: a radioatividade.

Chegamos no ponto em que faremos a transição do contexto histórico para a parte psicológica da coisa: afinal, por que diabos as pessoas teriam medo de mortos-vivos? O que os mortos-vivos representam? Qual o poder desse símbolo, para que ele tomasse um lugar de destaque na cultura contemporânea, a ponto de explicações céticas serem formuladas para que a zumbificação seja de alguma forma crível?

O morto-vivo representa o medo da morte e o vazio da vida puramente material. A carne apodrecendo com o passar do tempo, enquanto aquela criatura vaga a esmo e se alimenta de outros restos mortais. Um cadáver que se ergue e busca alimento para manter durante o maior tempo possível a sua existência decadente e sem propósito. O corpo material se move, mas a criatura não tem alma (sentimentos) e nem consciência (capacidade de raciocinar e aprender).

Em seu Dawn of the Dead (1978), George Romero representa isso na cena clássica em que os mortos que ainda não estão num estado avançado de putrefação caminham pelo shopping center, sobem e descem as escadas rolantes, carregam suas compras, olham as vitrines; a programação mental retida no cérebro reproduz mecanicamente seus costumes mundanos, mas o olhar vazio mostra a inexistência de propósito da não-vida.

O morto-vivo é um símbolo que trás à consciência daqueles que entram em contato com ele uma série de questões. Como a questão da vida após a morte. Se não existe vida consciente após a morte, o que move aqueles corpos mortos é apenas o instinto animalesco de sobrevivência proveniente dos processos elétricos e químicos de um cérebro ainda em atividade. Mas se é desse modo, por que o cérebro suprimiu outras atividades mais sublimes e só dá vazão às atividades concretas como o movimento e a fome? Se existe vida consciente após a morte, fica claro que a consciência humana não está no cérebro, mas em algo além, sendo o cérebro um órgão bem mais mecânico e ligado ao corpo material do que um órgão que detém o total poder sobre o ser como um todo. Poderia um processo de feitiçaria, de hipnose ou químico fazer essa separação entre o corpo e a alma-consciência-espírito de um ser vivo. Poderia de alguma forma acontecer o processo inverso?

Todas essas perguntas surgem na mente de uma pessoa (mesmo que de forma não totalmente consciente) só dela ver um morto-vivo se arrastando e gemendo “Céereebroo…”.

Outra sacada genial, dessa vez do diretor e roteirista Dan O’Bannon, foi esse negócio do cérebro. Ele dirigiu um filme de black comedy claramente inspirado nos trabalhos do George Romero chamado The Return of the Living Dead (1985) no qual os zumbis têm uma fixação perturbadora em devorar o cérebro das suas vítimas. O cérebro é tido como a morada da consciência, com certeza um elemento a mais que formou a imagem do zumbi na cultura popular. Agora o zumbi vai direto ao ponto, como o Vampiro mitológico do folclore antigo que vai direto na jugular em busca do sangue (a morada da alma).

Como vimos, é realmente um símbolo muito forte e um arquétipo e tanto, não é à toa que faz parte da cultura humana desde tempos imemoriais e é usado em diversas formas de narrativa. Inclusive na literatura fantásticas vemos muitas espécies de mortos-vivos, é o caso dos Espectros do Anel da obra de Tolkien, os White Walkers do George R. R. Martin, certamente alguns inimigos do Conan… Quando o Herói enfrenta e vence o morto-vivo ele está enfrentando e destruindo tudo aquilo que é relativo à esse símbolo: o vazio da vida material, o medo da morte, a matéria decadente e pútrida que tenta se opor e devorar o sentimento e a consciência, e assim por diante. É realmente um tipo de vilão adorável e nós com certeza ficamos contentes em arrancar suas cabeças com nossas espingardas calibre 12, tacos de baseball, motosserras e espadas samurai. Grroovy!

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Sobre L. F. Barbosa

"NOSCE TE IPSUM"
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