Os Sonhos, os Ritos de Passagem e o Fio de Linho

”O inconsciente envia toda espécie de fantasias, seres estranhos, terrores e imagens ilusórias à mente – seja por meio dos sonhos, em plena luz do dia ou nos estados de demência; pois o reino humano abarca, por baixo do solo da pequena habitação, comparativamente corriqueira, que denominamos consciência, insuspeitadas cavernas de Aladim. Nelas há não apenas um tesouro, mas também perigosos gênios: as forças psicológicas inconvenientes ou objeto de nossa resistência, que não pensamos em integrar – ou não nos atrevemos a fazê-lo – à nossa vida. E essas forças podem permanecer insuspeitadas ou, por outro lado, alguma palavra casual, o odor de uma paisagem, o sabor de uma xícara de chá ou algo que vemos de relance pode tocar uma mola mágica, e eis que perigosos mensageiros começam a aparecer no cérebro. Esses mensageiros são perigosos porque ameaçam as bases seguras sobre as quais construímos nosso próprio ser ou família. Mas eles são, da mesma forma, diabolicamente fascinantes, pois trazem consigo chaves que abrem portas para todo o domínio da aventura, a um só tempo desejada e temida, da descoberta do eu. Destruição do mundo que construímos e no qual vivemos, assim como nossa própria destruição dentro dele; mas, em seguida, uma maravilhosa reconstrução, de uma vida mais segura, límpida, ampla e completamente humana – eis o encanto, a promessa e o terror desses perturbadores visitantes noturnos, vindos do reino mitológico que carregamos dentro de nós.

A psicanálise, a moderna ciência da interpretação dos sonhos, nos ensinou a ficar atentos com relação a essas imagens insubstanciais. Também nos ensinou a forma de deixá-las atuar. Permite-se que as perigosas crises do autodesenvolvimento se desenrolem sob o olhar protetor de um experiente iniciado na natureza e na linguagem dos sonhos, que desempenha a função e o papel de um antigo mistagogo, ou guia dos espíritos, o curandeiro iniciador dos primitivos santuários florestais, das provas e da iniciação. O médico é o moderno mestre do reino do mito, o guardião da sabedoria a respeito de todos os caminhos secretos e fórmulas poderosas. Seu papel equivale precisamente ao do Velho Sábio, presença constante nos mitos e contos de fadas, cujas palavras ajudam o herói nas provas e terrores da fantástica aventura. É ele que aparece e indica a brilhante espada mágica que matará o dragão-terror; ele conta sobre a noiva que espera e sobre o castelo dos mil tesouros, aplica o bálsamo curativo nas feridas quase fatais e, por fim, leva o conquistador de volta ao mundo da vida normal após a grande aventura na noite encantada.

Quando passamos, tendo essa imagem em mente, à consideração dos numerosos rituais estranhos das tribos primitivas e das grandes civilizações do passado, cujo relato chega até nós, torna-se claro que o propósito e o efeito real desses rituais consistia em levar as pessoas a cruzarem difíceis limiares de transformação que requerem uma mudança dos padrões, não apenas da vida consciente, como da inconsciente. Os chamados ritos [ou rituais] de passagem, que ocupam um lugar tão proeminente na vida de uma sociedade primitiva (cerimônias de nascimento, de atribuição de nome, de puberdade, casamento, morte, etc.), têm como característica a prática de exercícios formais de rompimento normalmente bastante rigorosos, por meio dos quais a mente é afastada de maneira radical das atitudes, vínculos e padrões de vida típicos do estágio que ficou para trás. Segue-se a esses exercícios um intervalo de isolamento mais ou menos prolongado, durante o qual são realizados rituais destinados a apresentar, ao aventureiro da vida, as formas e sentimentos apropriados à sua nova condição, de maneira que, quando finalmente tiver chegado o momento do seu retorno ao mundo normal, o iniciado esteja tão bem como se tivesse renascido.”

Muitas pessoas, quando se vêem no momento de cruzar um importante limiar, ou de passar por uma grande mudança na vida pessoal, sentem uma enorme apreensão, é o medo do novo. Na sociedade atual, onde o conhecimento é de tão fácil acesso, o novo, o desconhecido, se torna cada vez mais assustador. O problema pode surgir quando as pessoas não estão prontas para lidar com as mudanças, e a tensão favorece o transbordar de certos sentimentos que jaziam escondidos no inconsciente. O lado bom é que o novo, o mistério, além de assustar, também seduz, e instiga os seres humanos a testar os seus limites e a se esforçar para atingir as suas metas. É natural que nesses momentos de crise iminente, as pessoas busquem apoio nos diversos símbolos que carregam o poder do qual elas necessitam. Algumas pessoas encontram esse apoio psicológico em uma religião, outros o encontram nos estudos, no consultório de um psicanalista ou em filme como Rocky ou Star Wars. O importante é reconhecer em qual momento da sua vida você está, qual a lição que a sua vida passa para você nesse momento e qual o resultado produtivo que você desejá extrair dessa experiência; e se necessário, para ajudar nessa sua travessia, você poderá buscar inspiração em uma fonte pela qual sinta afinidade.

”A matéria-prima para o seu fio de linho foi colhida nos campos da imaginação humana. Séculos de agricultura, décadas de diligente seleção e o trabalho de numerosos corações e mãos entraram na colheita, na separação e na fiação desse fio resistente. Nem sequer temos que correr os riscos da aventura sozinhos; pois os heróis de todos os tempos nos precederam; o labirinto é totalmente conhecido. Temos apenas que seguir o fio da trilha do herói. E ali onde pensávamos encontrar uma abominação, encontraremos um Deus; onde pensávamos matar alguém, mataremos a nós mesmos; onde pensávamos viajar para o exterior, atingiremos o centro da nossa própria existência; e onde pensávamos estar sozinhos, estaremos com o mundo inteiro.”

Os três primeiros e o último parágrafo foram retirados do livro O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell.

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Sobre L. F. Barbosa

"NOSCE TE IPSUM"
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