A Força Interior

“O repugnante e rejeitado sapo ou dragão do conto de fadas traz a bola do sol na boca; pois o sapo, a serpente, o rejeitado, é o representante daquela profunda camada inconsciente Golden-Dragon(“tão profunda que não é possível ver-lhe o fundo”) em que são guardados todos os fatores, leis e elementos da existência rejeitados, não admitidos, não reconhecidos, desconhecidos ou subdesenvolvidos. Essas são as pérolas dos palácios submarinos das fábulas, cheios de gênios, trintões e guardiães das águas; as jóias que iluminam as cidades demoníacas do mundo interior; as sementes de fogo do oceano de imortalidade, que suporta a terra e a cerca como uma cobra; as estrelas do firmamento da noite imortal. São elas as pepitas de ouro do tesouro do dragão; as maçãs guardadas pelas Hespérides; os filamentos do Velocino de Ouro. O arauto ou agente que anuncia a aventura, por conseguinte, costuma ser sombrio, repugnante ou aterrorizador, considerado maléfico pelo mundo; e, no entanto, se prosseguirmos, o caminho através dos muros do dia, que levam até a noite em que brilham as jóias, nos será aberto. O arauto pode ser um animal (como no conto de fadas), representante da fecundidade instintiva reprimida que está dentro de nós. Pode ser igualmente uma figura misteriosa coberta por um véu — o desconhecido.” Joseph Campbell, O Herói de Mil Faces

“O Inconsciente não é somente maligno por natureza, é também a fonte do mais elevado bem: não somente escuro mas também iluminado, não somente bestial, semi-humano e demoníaco, mas super-humano, espiritual, e, no sentido clássico da palavra, divino.” Carl Gustav Jung, The Practice of Psychotherapy

Nós seres humanos tendemos a criar uma imagem consciente e outra inconsciente do nosso próprio ego. Esse conceito (ou preconceito) que temos sobre nós mesmos geralmente se forma baseado em nossas experiências mundanas evidenciadas pelas nossas faculdades sensoriais concretas. Dessa forma, limitamos nossa experiência sobre nós mesmos a um conjunto de aspectos que não correspondem à totalidade do nosso ser. Só que há uma grande dificuldade por parte das pessoas em reconhecer esse problema. Elas simplesmente ignoram os próprios “defeitos”, ou pior, ignoram, escondem e sub-desenvolvem as próprias qualidades, vivendo vidas inteiras baseadas em visões limitadas delas mesmas.

Tomemos como exemplo um individuo da espécie homo sapiens, que se vê como um intelectual. A imagem que ele tem dele mesmo e que ele deixa transparecer para as demais pessoas é a de um “homem das letras, da filosofia e do conhecimento”. Sendo assim, ele considera uma perda de tempo exercitar seu corpo. Ele prioriza as experiências mentais e espirituais em detrimento das experiências materiais. Quando por ocasião passa em frente de uma dessas academias de musculação e vê aquele bando de fisiculturistas levantando imensas quantidades de peso, ele pode torcer o nariz e fazer comentários do tipo: “Veja só esses pobres ignorantes. Preocupam-se tanto com o corpo, mas não conseguem sequer compreender um soneto shakespeariano!”. O inverso também ocorre, e os fisiculturistas comentam com frequência: “Olha que nerd! Não tem nem força pra carregar todos esses livros!”.

Mas vejam só, o “nerd” tem a plena capacidade de exercitar o seu corpo, seguindo um Bruce Lee Readingtreinamento disciplinado, até conseguir levantar mais de cem quilos no supino reto. Da mesma maneira, um fisiculturista pode exercitar o seu intelecto a tal ponto que não sentirá dificuldade alguma em compreender física quântica.

Como vimos com Joseph Campbell, o Dragão simboliza os aspectos ocultos do ser, que por culpa da nossa ignorância e do nosso preconceito, frequentemente rejeitamos, imergindo-os no inconsciente. Sendo assim, o fisiculturista é o “Dragão” do nerd, e o nerd é o “Dragão” do fisiculturista. Também vimos com Jung, que o inconsciente pode não ser somente fonte de medo e defeitos, mas também fonte de coragem e das mais nobres qualidades. Desse modo, cabe a cada um de nós abrir mão do preconceito e do medo, aceitar todos os aspectos da nossa existência e trabalhar para expandir a nossa consciência e desenvolver as nossas habilidades como um todo.

“You take the blue pill, the story ends, you wake up in your bed and believe whatever you want to believe. You take the red pill, you stay in Wonderland, and I show you how deep the rabbit hole goes.” Morpheus 

Morpheus_Pills

A decisão é só sua. Você é o único responsável pelos acontecimentos da sua vida. A única pessoa que pode, de fato, exercer poder sobre a sua vida, é você mesmo. O seu maior inimigo e o seu herói e supremo salvador são a mesma pessoa: você. Se você aceitar mergulhar na sua própria escuridão, explorar o seu inconsciente, trazer à consciência aspectos seus até então ocultos, você vai conhecer a si mesmo e descobrir coisas maravilhosas que antes ignorava.

“I know Kung-Fu.” Neo

Quando nos deparamos com alguma dificuldade, esta dificuldade é um ponteiro, uma seta que aponta na sua direção, este “problema”, esta seta apontando para você é o seu inconsciente tentando chamar a sua atenção para algo que você está negligenciando. Você está negligenciando a verdade. A verdade é que o “problema” não é algo externo, mas algo interno. Você é o criador do “problema”. O que acontece com frequência é que as pessoas, por medo, subvertem este significado e mudam a posição da seta, direcionando a culpa para o exterior.

A seta que aponta na sua direção quer chamar a sua atenção. Se você mudar a seta de posição, apontando para outra pessoa ou qualquer outro fator externo, ela vai voltar em outra ocasião e apontar de novo para você. Não importa quantas vezes você tente mudar, ela sempre vai voltar. Se você mudar a posição da seta um trilhão de vezes, ela vai apontar pra você um trilhão de vezes. A seta é você. Como você pode fugir de você mesmo?

“Do not try and bend the spoon. That’s impossible. Instead… only try to realize the truth. There is no spoon. Then you’ll see, that it is not the spoon that bends, it is only yourself.”

There_is_no_spoon

Tudo é questão de se conhecer e aceitar você mesmo como você é. Isso não significa aceitar uma visão singular e restrita de você mesmo. Isso significa ir fundo, conhecer a si mesmo por inteiro. Conhecer a si mesmo é conhecer o Universo. Então você entenderá que tudo é uma coisa só.

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Sobre L. F. Barbosa

"NOSCE TE IPSUM"
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