Conhecer o Mito Pessoal

“Durante muitos anos tenho falado sobre mitologia de uma forma bem abstrata, e parece estar na hora de eu aceitar o desafio de dizer como ela deve ser, para vocês e para mim. O tema de viver o próprio mito, o Mito Pessoal – descobri-lo, saber o que ele é e segui-lo – ocorreu-me pela primeira vez quando li a obra autobiográfica de Jung, Memories, Dreams, Reflections. Em certo trecho ele descreve uma crise de sua vida. Em 1911/1912, Jung trabalhava em seu livro seminal, The Symbols of Transformation. Ele estava muito transtornado pois concluíra que toda a sua obra anterior servira para um entendimento superficial dos seus pacientes com psicose profunda. Ele iniciara trabalhando no Burghölzli Sanitarium de Zurique, sob a chefia de Eugen Bleuler, aquele que cunhou o termo esquizofrenia, e boa parte dos pacientes desse sanatório era de fato esquizofrênica.

Depois de ter trabalhado ali e concluído o doutorado com Bleuler é que Jung conheceu Freud. A principal preocupação deste era com os neuróticos.O neurótico é aquele que ainda convive no mundo com um enfoque prático e consciente, mas é perturbado por uma relação inadequada com o inconsciente. O psicótico por outro lado, é aquele que está totalmente cindido. E Jung, por trabalhar com psicóticos, familiarizara-se com o que se pode chamar de arquetipologia do imaginário inconsciente. Jung começou a ler livros sobre mitologia comparada: Frobenius, Bastian, Frazer. Ele se deu conta que o imaginário que seus pacientes viam aflorar na própria psique era precisamente aquele do mundo dos mitologistas. O imaginário da fantasia dos pacientes revelou paralelos exatos com os temas mitológicos. Logo então percebeu que os paralelos se aplicavam não só aos psicóticos, mas também aos neuróticos e às pessoas relativamente equilibradas.

Essa descoberta o impressionou muito e o motivou a se dedicar ao estudo da mitologia. Symbols of Transformation, que trata da inter-relação entre a consciência do sonho e a consciência mitológica das visões, foi o livro que impediu Freud de trabalhar novamente com Jung. Deixava claro que Jung não acreditava mais que o sexo fosse o principio, o meio e o fim do sistema simbólico subconsciente, nem que a psicanálise regressiva fosse a única modalidade de terapia. Para Freud e seus seguidores, foi um anátema.

O livro de Jung não marcou o fim das suas descobertas no assunto. Eu mal tinha finalizado o manuscrito, diz ele, quando me dei conta do que significa viver com um mito e viver sem um mito. Resolveu perguntar-se por qual mito estava vivendo a sua vida, mas percebeu que não sabia. Então, da maneira mais natural possível, comprometi-me a conhecer o meu Mito, e passei a encarar isso como a minha maior tarefa.

Creio que não exista mais uma mitologia que funcione para todos os habitantes de um país, muito menos para toda a civilização ocidental. Sou de opinião que a ordem social atual tem um caráter essencialmente secular. Ela não afirma que suas leis tiveram inspiração divina. […] Mesmo as leis do universo, como eu disse, são muito flexíveis. Não sabemos. Continuamos a descobrir coisas novas sobre o universo, mas não temos uma imagem clara dele que se mantenha por muito tempo.

Com relação ao desenvolvimento da psicologia de cada indivíduo, temos origens tão diversas e oportunidades na vida tão variadas que não existe uma mitologia única que o aponte pra nós. Minha crença é que no âmbito de uma sociedade secular – espécie de estrutura neutra que permite aos indivíduos desenvolver a própria vida desde que não incomodem demais os vizinhos -, cada um de nós tem um mito individual que nos guia, o qual podemos conhecer ou não. Era esse o sentido da pergunta de Jung: qual é o mito pelo qual estou vivendo?

Acho que por muito tempo não existirá nada como uma mitologia unificada para a humanidade, se é que voltará a existir. Para mim, a nossa vida social – aquela coberta pela terceira função do mito – é levada agora de outro jeito, melhor. Penso, no entanto, que o indivíduo ficou sem a noção da comunicação entre o seu consciente e o seu inconsciente.

As imagens mitológicas são aquelas que colocam o consciente em contato com o inconsciente. É isso que elas são. Quando não temos imagens mitológicas, ou quando o consciente as rejeita por uma ou outra razão, perdemos o contato com a nossa parte mais profunda. Acho que esse é o propósito de uma mitologia pela qual se possa viver. Temos de descobrir por qual mitologia estamos de fato vivendo e conhecê-la, para podermos tocar a nossa ocupação com competência.”

Joseph Campbell, Mito e Transformação

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"NOSCE TE IPSUM"
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